Análise exclusiva do BSB Revista compara empenho histórico de emendas parlamentares: governo Lula acelera “emendocracia” e compromete quase 100% do orçamento aprovado pelo Congresso em 2025, superando 2023 e anos de Bolsonaro.
O dado de 95,35% das emendas de 2025 empenhadas pelo governo Lula indica um grau de comprometimento orçamentário com o Congresso muito superior ao padrão recente e consolida a lógica de alta dependência de emendas na relação Executivo–Legislativo. Nos últimos anos, o volume e o ritmo de empenho cresceram de forma contínua, mas 2025 se destaca porque o governo se aproximou da “execução total” do espaço de emendas, mesmo em um contexto de corte no que será efetivamente pago no ano.
O que significam os 95,35% em 2025
Segundo dados da Secretaria de Relações Institucionais e de relatórios oficiais sobre execução de emendas, 95,35% das emendas previstas para 2025 já estavam empenhadas, ou seja, o governo assumiu o compromisso de reservar praticamente todo o montante autorizado no Orçamento para essas despesas. Em valores absolutos, a proposta orçamentária original falava em algo como R$ 38,95 bilhões para emendas em 2025, número que acabou sendo ampliado pelo Congresso durante a tramitação.
Ao mesmo tempo, o Executivo limitou o pagamento efetivo a cerca de R$ 46,4 bilhões (contando restos a pagar de anos anteriores), o que representa um corte de 43% em relação ao potencial total de emendas que poderiam ser liberadas em 2025, evidenciando o uso do empenho como instrumento de barganha política, ainda que parte desses recursos fique para anos seguintes.
Comparação com o 1º ano Lula (2023)
Em 2023, primeiro ano do atual mandato, o governo já havia sinalizado a estratégia de usar emendas para construir base de apoio no Congresso, mas sem chegar a um percentual tão próximo da execução total. Dados da SRI indicam que foram empenhados R$ 34,6 bilhões em emendas em 2023, mais que o dobro dos R$ 16,8 bilhões empenhados em 2022, último ano de Jair Bolsonaro, o que significou um aumento de 106% no volume empenhado. Naquele momento, o governo comemorava ter “executado 80% a mais” do que o último ano do governo anterior e dizia buscar “100% executado” até o fim do ano, mas não chegou a registrar algo tão próximo de 95% do universo total autorizado como em 2025.
Emendas nos anos Bolsonaro e o salto estrutural
Entre 2015 e 2022, o volume de emendas empenhadas cresceu de R$ 3,5 bilhões para cerca de R$ 25,5 bilhões, com grande impulso no período da pandemia e no auge do orçamento secreto (RP9) no governo Bolsonaro. Em 2022, por exemplo, o valor de emendas empenhadas girou em torno de R$ 16,8 bilhões (segundo a SRI) ou cerca de R$ 25,5 bilhões em algumas séries agregadas, refletindo a combinação de emendas individuais, de bancada e de relator.
Mesmo nesse contexto de expansão sob Bolsonaro, o grau de vinculação do Orçamento às emendas ainda deixava ao Executivo alguma margem de controle, com cerca de 79% das emendas de 2023 sendo impositivas, abaixo dos 98% de 2022 (quando se incluíam as RP9). Em 2025, porém, a combinação de forte impositividade com o empenho de 95,35% das emendas mostra que o governo praticamente internalizou o “parlamentarismo orçamentário”, reduzindo o espaço discricionário da máquina federal.
2024 e 2025: consolidação da emendocracia
Relatório do Inesc sobre 2024 aponta que as emendas parlamentares chegaram a representar 27% de todas as despesas discricionárias da União, somando R$ 40,89 bilhões, com crescimento real de 12% em relação a 2023. Esse avanço reforça uma tendência de captura progressiva do orçamento por interesses parlamentares setoriais, com os governos – inclusive o atual – adaptando-se à lógica de liberar mais recursos para manter governabilidade. Em 2025, o cenário se torna ainda mais intenso: apesar do corte de 43% no pagamento projetado, o governo Lula manteve altíssimo nível de empenho, sinalizando ao Congresso que reconhece e formaliza quase todas as demandas em forma de compromisso financeiro, mesmo que parte vire restos a pagar.
Tabela – Lula 2023–2025 x anos anteriores
| Ano / Governo | Emendas previstas/empenhadas (R$ bi) | % ou sinalização de execução | Observações centrais |
|---|---|---|---|
| 2015 (Dilma) | 3,5 empenhadas | — | Início da escalada recente de emendas. |
| 2020–2021 (Bolsonaro) | forte alta, auge do “orçamento secreto” | até 98% impositivas em 2022 (incluindo RP9) | Consolidação de emendas como eixo de poder do Congresso. |
| 2022 (Bolsonaro) | 16,8–25,5 empenhadas | patamar elevado, mas menor que 2023–2025 | Último ano com RP9, base de comparação para Lula. |
| 2023 (Lula) | 34,6 empenhadas | governo diz ter executado “80% a mais” que 2022 | Dobro do empenho em relação a 2022, usado para aprovar agenda econômica. |
| 2024 (Lula) | 40,89 pagas em emendas (discricionárias) | 27% da despesa discricionária da União | Emendas viram um quarto do gasto discricionário. |
| 2025 (Lula) | cerca de 39 previstas; 95,35% empenhadas | corte de 43% no pagamento projetado | Recorde em proporção empenhada, com uso intenso de restos a pagar e barganha. |
Leitura política do número de 95,35%
O percentual de 95,35% sintetiza um movimento: se Bolsonaro abriu espaço para o Congresso comandar uma fatia crescente do orçamento via orçamento secreto e emendas impositivas, Lula, em 2023–2025, institucionaliza essa lógica ao empenhar quase tudo o que é aprovado, em troca de sustentação legislativa.
Ao mesmo tempo, ao cortar pagamentos em 2025, o governo preserva algum poder de calibrar o fluxo de caixa, mantendo sobre a mesa a moeda de troca das liberações futuras. Na prática, o dado de 95,35% em 2025 coloca o Executivo num caminho sem volta: qualquer recuo na execução de emendas em anos seguintes tende a ser lido pelo Congresso como quebra de compromisso, o que aumenta o custo político de governar com menos espaço orçamentário e reforça a tendência de “emendocracia” no centro da política brasileira.





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