Lulinha é sócio de Careca do INSS, desconfia PF

Careca do INSS mandou entregar encomenda em apartamento alugado por Lulinha de personagem de outro escândalo que levou condenação de Lula pai
Por Victório Dell Pyrro

A Polícia Federal investiga se Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, atuou como sócio oculto do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, em um esquema bilionário de descontos ilegais sobre aposentadorias e pensões, ao mesmo tempo em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mobiliza sua base parlamentar para esvaziar a CPMI do INSS, barrar convocações incômodas e blindar o próprio filho de qualquer escrutínio público. A contradição entre o discurso de defesa dos mais pobres e a prática política de proteção familiar expõe um governo disposto a usar o peso da máquina pública do Planalto para abafar investigações que atingem o núcleo do poder.

Relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal no âmbito da Operação Sem Desconto registra que o nome de Lulinha surge em três núcleos distintos de dados obtidos a partir da quebra de sigilo de investigados ligados ao Careca do INSS, apontado como lobista de entidades envolvidas nos descontos fraudulentos nos contracheques de aposentados. A Polícia Federal afirma que há a possibilidade de vínculo indireto entre o lobista e um terceiro que poderia atuar como sócio oculto, identificando explicitamente que essa pessoa pode ser Fábio Luís Lula da Silva, ainda que ele não conste formalmente como investigado no inquérito principal neste momento.

Um dos eixos centrais da suspeita é o depoimento de Edson Claro, ex-empregado e ex-sócio de Antonio Carlos Antunes, que relatou à polícia ter ouvido do próprio Careca que Lulinha seria sócio em projetos ligados à cannabis medicinal e que teria recebido, de uma única vez, cerca de 25 milhões, além de um repasse mensal de 300 mil, descrito como uma espécie de mesada. Esses valores estariam associados a negócios como a comercialização de kits de dengue e outros contratos, cuja origem e destino seguem sob rastreamento dos investigadores, inclusive a hipótese de circulação por meio de empresas interpostas e laranjas.

A investigação também reúne indícios materiais que reforçam a proximidade entre Lulinha e o círculo do Careca do INSS. Há registros de viagens internacionais em que ambos aparecem vinculados ao mesmo grupo, incluindo passagens em primeira classe no trecho Guarulhos–Lisboa, emitidas sob o mesmo localizador, em contexto associado a planos de negócios no exterior. Constam ainda informações sobre o envio de encomendas determinadas pelo Careca para o apartamento de Lulinha em um dos bairros mais valorizados de São Paulo, endereço que já figurou em páginas policiais durante desdobramentos da Lava Jato envolvendo o entorno empresarial do filho do presidente.

Mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que o Careca ordenava a funcionários pagamentos mensais de 300 mil a uma empresa ligada a Roberta Luchsinger, tratando o valor como destinado “pro filho do rapaz”, numa referência que os investigadores associam ao filho do presidente. Foram identificados ao menos cinco repasses desse tipo, somando 1,5 milhão, e diálogos em que há preocupação explícita com a possibilidade de o nome de Lulinha ser associado ao esquema pela imprensa. Anotações apreendidas mencionam o filho de Lula em ingressos de camarote pertencentes ao Careca no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, além de um envelope identificado como “nosso amigo”, expressão usada em conversas entre o lobista e Roberta.

A Polícia Federal aponta Roberta Luchsinger como elo central entre Lulinha e o Careca do INSS. Amiga próxima do filho do presidente, ela firmou contrato de consultoria com o lobista para prospectar negócios junto ao governo federal, especialmente na área de regulação da cannabis medicinal, e recebeu 1,5 milhão em pagamentos fracionados. Relatos e mensagens indicam que Roberta circulou por ministérios, atuando como lobista e apresentando demandas de Antunes a autoridades federais, valendo-se de trânsito político construído ao longo de anos de proximidade com o poder.

O histórico reforça um padrão conhecido. Jonas Suassuna, ex-sócio de Lulinha em negócios de mídia e telefonia, apareceu como dono de parte do sítio de Atibaia usado por Lula, episódio emblemático da Lava Jato que expôs a recorrência de empresários “amigos” orbitando a família presidencial e operando em zonas cinzentas entre interesses privados e o Estado. No caso atual, a hipótese dos investigadores é que Roberta tenha funcionado como espécie de blindagem relacional, mantendo Lulinha distante do papel formal enquanto negociava vantagens e contratos em nome do Careca.

Diante desse quadro, a reação política do governo é reveladora. Enquanto a Polícia Federal comunica ao STF que aprofundará a apuração sobre a eventual sociedade oculta de Lulinha com o Careca do INSS, o Planalto aciona sua tropa de choque no Congresso para esvaziar a CPMI do INSS, travar convocações de Fábio Luís, Roberta Luchsinger e outros personagens centrais do esquema, diluir o foco da comissão e vender a narrativa de que não há provas suficientes para justificar a exposição do filho do presidente. Na prática, a base governista trabalha para impedir que o caso ganhe luz e voz em rede nacional.

O contraste é moralmente devastador. Aposentados e pensionistas, vítimas de descontos ilegais que corroeram benefícios já insuficientes, são tratados como números em um sistema que promete proteção social, enquanto figuras próximas ao poder transitam por viagens em primeira classe, repasses milionários e esquemas de lobby com acesso privilegiado à Esplanada. A Polícia Federal apura crimes como organização criminosa, estelionato previdenciário, corrupção, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, em um esquema que drenou bilhões justamente do público que o presidente afirma representar.

Mesmo que Lulinha ainda não figure formalmente como investigado no núcleo principal, o registro oficial da suspeita de sociedade oculta, somado a viagens, repasses, depoimentos e vínculos empresariais, torna insustentável a tentativa de blindagem política. O presidente chegou a afirmar publicamente que, se houvesse envolvimento de seu filho, tudo seria apurado. No entanto, a atuação coordenada de sua base para barrar a CPMI e impedir convocações revela o oposto: o uso da máquina política para silenciar investigações incômodas.

Em um país onde milhões sobrevivem com um salário mínimo, a suspeita de que o filho do presidente tenha recebido 25 milhões de uma vez e 300 mil por mês de um lobista associado ao roubo de aposentados é um choque ético de grandes proporções, independentemente do desfecho judicial. O mínimo exigível de um governo que se diz comprometido com justiça social seria transparência total, liberdade de investigação e respeito ao Parlamento. Ao optar pela obstrução, o Planalto envia uma mensagem clara aos aposentados lesados: quando o escândalo chega perto demais do poder, a prioridade não é a verdade, mas o silêncio.


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