Laranja de resort deu procuração para advogado da J&F tocar Tayayá de Toffoli

O eletricista “laranja” que mora no endereço de fachada deu amplos poderes para advogado que agora se diz dono de empreendimento milionário

Por Victório Dell Pyrro

Dias Toffoli não é apenas um ministro em situação constrangedora: à luz dos fatos revelados sobre o resort Tayayá e o caso Master, sua permanência como relator virou um problema jurídico e institucional de primeira grandeza, um típico cenário de “raposa no galinheiro”.

A engrenagem Tayayá–Master

O enredo é cristalino: parentes de Dias Toffoli foram sócios de um resort de luxo, o Tayayá Aqua Resort, no Paraná, empreendimento que recebeu aportes milionários estruturados por fundos ligados ao Banco Master e a Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, alvo central da operação Compliance Zero.

A participação da família do ministro foi feita via Maridt Participações e empresas usadas como veículo societário do empreendimento, em operações que somam milhões de reais e que se entrelaçam exatamente com o universo financeiro hoje investigado no STF. Ou seja, o mesmo sistema de fundos, bancos e gestores sob suspeita de fraudes bilionárias está, ao mesmo tempo, no centro de um inquérito criminal e no coração do negócio privado de familiares do relator desse inquérito.

Não se trata de um vínculo remoto ou irrelevante: documentos mostram que Zettel, cunhado de Vorcaro, foi único cotista de fundo usado para comprar parte da participação da família Toffoli no Tayayá, em operações estimadas em cerca de R$ 20 milhões, enquanto as cotas da família eram avaliadas em torno de R$ 6,6 milhões. A investigação aponta o uso de fundos e estruturas financeiras para inflar patrimônios e circular recursos ligados ao Banco Master, exatamente o banco cuja investigação Toffoli controla no Supremo.

Quando o mesmo circuito financeiro que abastece um resort da família aparece em relatório de polícia como peça de possível fraude, o conflito de interesses deixa de ser tese acadêmica e vira fato concreto. O fato verdadeiro é que José Eugênio Toffoli, irmão do ministro é um eletricista pobre, cuja mulher disse que o endereço é de fachada e que sua casa está caindo aos pedaços.

A procuração que desmonta a “venda”

A linha de defesa tenta vender a ideia de que tudo se resolveu com a venda das cotas em 2025, como se um contrato de compra e venda fosse capaz de apagar anos de promiscuidade societária. Mas a própria cronologia desmente essa narrativa: em 6 de fevereiro de 2025, o irmão de Toffoli, José Eugênio, assinou uma procuração dando plenos poderes ao advogado Paulo Humberto Barbosa para representar a Maridt Participações nas reuniões que definiriam o futuro do Tayayá. Paulo Humberto é advogado ligado à J&F, grupo dos irmãos Batista, e se torna justamente o novo dono do resort, comprando as cotas da família em negócio avaliado em R$ 3,5 milhões.

Mais grave: a procuração autoriza o advogado a “aceitar e assinar documentos necessários, deliberar sobre quaisquer assuntos de interesse, votar e ser votado”, em nome da própria empresa da família, revelando uma passagem de bastão negociada sob medida, não um rompimento brusco de laços. No papel, a Maridt se desfaz da participação; na prática, o resort muda de mãos, mas segue orbitando a mesma constelação de interesses econômicos que gravitam em torno de J&F, Master, fundos e estruturas hoje sob investigação de Toffoli.

Há ainda o dado político-simbólico que desmonta qualquer pretensão de normalidade: desde dezembro de 2022, Dias Toffoli passou pelo menos 168 dias hospedado no Tayayá, incluindo períodos em que o estabelecimento já estava, oficialmente, nas mãos do advogado que comprou a parte da família. Funcionários seguem tratando o ministro como verdadeiro proprietário, e ele chegou a fechar o resort para festa privada de familiares e convidados – isso, depois da alegada “venda”. Em qualquer país minimamente sério, isso seria visto como o que é: a continuidade de um vínculo econômico e de poder, travestido de desligamento formal para contornar aparências. Tipo pedalinhos de Lula no sítio dos outros.

Suspeição gritante no caso Master

Em paralelo a esse cenário, Toffoli é justamente o relator do inquérito que apura fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, a Reag Investimentos e a rede de fundos e empresas que aparece associada ao Tayayá e ao cunhado de Vorcaro. Relatórios indicam que fundos ligados a Zettel investiram tanto no resort da família do ministro quanto em empresas conectadas a Vorcaro, compondo a mesma cadeia financeira hoje sob escrutínio da Polícia Federal. A pergunta jurídica óbvia impõe-se: como o magistrado que, por laços familiares e patrimoniais, se beneficia de estruturas financeiras associadas a investigados pode continuar julgando esse caso?

A suspeição, aqui, não é abstrata; é concreta, robusta e documentada: há participação de irmãos do ministro em empresa que recebeu aporte de fundo controlado por parente de investigado; há negócios milionários com um protagonista do ecossistema financeiro sob investigação; e há uso intensivo do próprio resort por Toffoli, inclusive após a mudança societária. Na doutrina mais elementar, isso violaria o dever de imparcialidade objetiva, que não exige prova de corrupção, mas sim ausência de risco de favorecimento – e o risco, neste caso, salta aos olhos.

A própria condução do caso Master reforça a percepção de favorecimento: concentrando a competência no STF, sob sua relatoria, Toffoli limitou a atuação da Justiça Federal e submeteu novas diligências da PF a seu crivo prévio, esvaziando a espontaneidade investigativa. Enquanto o Banco Central e órgãos de controle alarmam-se com o tamanho da fraude, o inquérito avança sob sigilo e com freios que, politicamente, favorecem o principal núcleo investigado. Quando o relator é, ao mesmo tempo, beneficiário indireto de estruturas financeiras ligadas ao caso, a linha que separa jurisdição e autoproteção fica perigosamente borrada.

O absurdo jurídico e a metáfora da raposa

O que transforma esse enredo num verdadeiro absurdo jurídico é a naturalização institucional do conflito de interesses, como se fosse aceitável que o juiz de um caso bilionário continuasse no comando mesmo após revelações tão contundentes sobre seus vínculos familiares com negócios irrigados pelo mesmo dinheiro sob suspeita. Não estamos diante de uma mera amizade ou proximidade social, mas de uma trama em que fundos, resort, investigados e parentes se cruzam em múltiplos pontos, num espaço de tempo que coincide com a tramitação do caso Master. Em vez de o próprio ministro se declarar impedido e proteger a instituição, o silêncio prevalece.

A metáfora da “raposa no galinheiro” deixa de ser força de expressão e se torna diagnóstico: o guardião do processo é alguém que, por parâmetros mínimos de prudência, não deveria sequer se aproximar desses autos. A suspeição de Toffoli contamina não apenas cada decisão específica no inquérito, mas a credibilidade do STF como foro competente para julgar crimes financeiros com atores que, ao mesmo tempo, são parceiros de negócios – diretos ou indiretos – de familiares de ministro. Quando o sistema aceita isso como normal, o recado aos cidadãos é devastador: há uma justiça para os comuns e outra para os íntimos do poder.

Mais grave ainda é o efeito pedagógico perverso: se um ministro do Supremo pode permanecer relator de um caso conectado ao universo econômico de sua própria família, por que juízes de instâncias inferiores se dariam ao trabalho de se declarar suspeitos em situações menos escandalosas? A jurisprudência se curva à conveniência de ocasião, e a mensagem informal que circula nas engrenagens do Judiciário é a de que, para alguns, o código de ética é opcional. Quando o topo da pirâmide relativiza a imparcialidade, os degraus de baixo sentem-se autorizados a fazer o mesmo.

O mínimo exigível: afastamento imediato

Diante desse quadro, a exigência mínima de integridade institucional é o afastamento imediato de Dias Toffoli da relatoria do caso Master e de qualquer processo que tangencie o circuito financeiro que beneficiou o Tayayá e a família do ministro. Não se trata de punição nem de prejulgamento, mas de proteção da própria legitimidade do Supremo e da investigação de fraudes que podem alcançar dezenas de bilhões de reais. A recusa em se declarar suspeito, a essa altura, não é apenas uma escolha pessoal: é um desafio frontal ao princípio republicano de que ninguém deve ser juiz em causa própria – nem de forma direta, nem por intermédio do dinheiro que circula na sua família.

Enquanto Toffoli se mantém calado e o resort segue como símbolo de um luxo inexplicável diante da realidade modesta de irmãos no interior de São Paulo, a confiança pública na Justiça vai sendo erodida dia após dia. A omissão do Supremo em enfrentar o tema cria um vácuo que será preenchido por cinismo e descrença – terreno fértil para populismos autoritários que se alimentam justamente da percepção de que a Corte máxima protege os seus. Se o STF quiser preservar algum resíduo de autoridade moral no julgamento dos grandes escândalos financeiros do país, terá de começar pelo óbvio: tirar a raposa do comando do galinheiro e investigar de verdade porque a mulher de Alexandre de Moraes ganhou um contrato maior que uma Mega-Sena acumuldada de R$ 129 milhões e o magistrado foi denunciado pela imprensa de tentar coagir o Banco Central e até a PF em favor do marginal que deu o maio golpe do mercado financeiro nacional de todos os tempos.


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