Testemunhas afirmam que Alexandre de Moraes frequentava a casa de Daniel Vorcaro em meio a articulações políticas e à crise do Banco Master
Por Victório Dell Pyrro
Uma reportagem explosiva do site Metrópoles joga luz nas trevas das negociações escandalosas do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
O que a reportagem de Andressa Matais revelou não é apenas um encontro social impróprio, mas um retrato cru da degradação dos limites institucionais no Brasil.
Um ministro do Supremo Tribunal Federal frequentando, em meio a charutos, vinhos raros e ambientes reservados, a mansão de um banqueiro em dificuldade financeira, enquanto seu nome circulava nos bastidores como peça-chave para destravar operações no Banco Central, não é um detalhe pitoresco. É um escândalo de natureza institucional.
Segundo Andressa Matais, o ministro Alexandre de Moraes esteve na mansão do empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master, em Brasília, ao menos duas vezes.
O ministro conheceu o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa na casa de Vorcaro . O encontro ocorreu em um fim de semana do primeiro semestre de 2025. Vorcaro pediu que Paulo Henrique fosse até sua casa porque “o homem estava lá”.
Quatro pessoas presenciaram a cena relatada à coluna. Moraes estava acompanhado de um assessor.
Alexandre de Moraes não estava na casa de Daniel Vorcaro como um cidadão comum. Estava ali como o ministro mais poderoso do STF, cuja caneta decide destinos políticos, empresariais e individuais e acompanhado de assessor. Sua simples presença funcionava como um sinal inequívoco de prestígio, influência e proteção. Em Brasília, esse tipo de gesto fala mais alto do que discursos oficiais. Não se trata de amizade privada, mas de capital político em circulação.
O encontro com o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, no momento em que o Banco Master buscava desesperadamente uma tábua de salvação financeira, agrava ainda mais o quadro. Moraes não apenas frequentava a residência do banqueiro como participou, ainda que informalmente, de conversas sobre uma operação bancária bilionária, posteriormente barrada pelo Banco Central por inconsistências graves nos ativos e suspeitas sobre as transações. Um ministro do STF jamais deveria transitar nesse terreno. A separação entre Judiciário, mercado e regulação simplesmente deixou de existir.
O contexto torna tudo ainda mais tóxico quando se lembra que o escritório de advocacia da esposa de Moraes firmou, em janeiro de 2024, um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master. Não é um valor trivial, não é um contrato comum, não é algo que possa ser relativizado como coincidência. Trata-se de uma cifra capaz de comprometer qualquer aparência de imparcialidade. A alegação de que o ministro não atuou diretamente no caso não elimina o conflito de interesses; ao contrário, o torna ainda mais evidente.
As revelações sobre contatos de Moraes com o Banco Central, incluindo ligações e reuniões para tratar da situação do Master, aprofundam a suspeita de interferência indevida. Um ministro da Suprema Corte pressionando uma autarquia reguladora em favor de um banco ligado financeiramente à sua família ultrapassa qualquer limite aceitável em uma democracia funcional. É o Judiciário abandonando a toga para atuar como operador político e institucional de interesses privados.
Diante desse cenário, a possibilidade de impedimento de Alexandre de Moraes deixa de ser retórica política e passa a ser uma exigência jurídica. A legislação brasileira é clara ao tratar de suspeição e impedimento quando há interesse econômico, vínculo familiar ou relação pessoal capaz de comprometer a imparcialidade do julgador. As circunstâncias descritas não são periféricas; são centrais e estruturais.
Ainda mais grave é a inércia do Senado Federal. Davi Alcolumbre, presidente da Casa, transformou o instrumento constitucional do impeachment de ministros do STF em letra morta. Pedidos se acumulam, denúncias se multiplicam, fatos novos surgem, mas tudo permanece engavetado. A omissão do Senado funciona, na prática, como uma blindagem política que autoriza excessos e normaliza o desvio de conduta.
O silêncio de Moraes diante das revelações não ajuda a dissipar dúvidas. Pelo contrário, reforça a percepção de arrogância institucional e desprezo pela opinião pública. Um ministro que exige explicações de todos, mas se recusa a prestar contas, encarna a imagem de um poder que já não se submete a freios nem contrapesos.
O caso Vorcaro-Master-BRB expõe algo maior do que um possível conflito individual. Revela um Supremo que flerta perigosamente com a promiscuidade entre poder, dinheiro e influência, enquanto o Senado assiste passivamente ao maior golpe ao mercado financeiro na históriado país. Se não houver reação institucional, o precedente será devastador: ministros acima da lei, acima do escrutínio público e acima da própria Constituição que juraram defender. Um verdadeiro golpe contra as instituições e o Brasil.



