Demissão de 16 mil na Amazon também afeta o Brasil: ‘Assustador’, diz ex-funcionário sobre substituição por IA

A Amazon confirmou a demissão de cerca de 16 mil funcionários em uma nova rodada de cortes globais que também afeta o Brasil, aprofundando o temor de trabalhadores de que a inteligência artificial esteja acelerando a substituição de pessoas por máquinas em áreas estratégicas da companhia.

O que aconteceu: 16 mil demissões e e-mail “vazado”

A empresa anunciou nesta quarta-feira (28) a dispensa de aproximadamente 16 mil funcionários, principalmente em áreas corporativas e ligadas à divisão de computação em nuvem e tecnologia, em mais um capítulo do enxugamento iniciado em outubro do ano passado, quando outros 14 mil postos foram cortados.
Segundo a CNN e veículos internacionais, o anúncio foi comunicado por e-mail interno na noite anterior, em uma mensagem que chegou a ser enviada antes da hora, pois citava um post de blog corporativo que só seria publicado na manhã seguinte.

De acordo com comunicados da própria Amazon, somadas as duas ondas mais recentes, os cortes atingem algo entre 9% e 10% da força de trabalho corporativa, em uma empresa que emprega cerca de 1,5 milhão de pessoas globalmente, a maioria em centros de distribuição e armazéns.
Os desligados, em geral, terão 90 dias para tentar uma recolocação interna; quem não conseguir será dispensado com pacote de indenização, extensão temporária de benefícios de saúde e apoio de recolocação, conforme regras locais de cada país.

Impacto no Brasil: clima de medo e relatos de demitidos

A nova rodada de cortes também atinge funcionários no Brasil, sobretudo em áreas corporativas vinculadas a tecnologia, produto e suporte a operações globais, ainda que a maior concentração dos desligamentos esteja em mercados como Estados Unidos e Índia.
Um brasileiro que trabalhava na Amazon, ouvido sob anonimato, relatou que recebeu a notícia da demissão de forma abrupta e que conhece outros colegas locais que também perderam o emprego na mesma leva.

“É assustador. A gente nunca espera que vá acontecer com a gente, ainda mais por estar sendo bem avaliado. Quando acontece, não tem para onde correr”, disse o ex-funcionário ao g1, descrevendo o sentimento de insegurança diante da prática de demissões em massa mesmo em empresas lucrativas.
Ele afirmou ainda que esse tipo de corte se tornou “recorrente” no setor de tecnologia e criticou a lógica de otimização a qualquer custo: “Não acho normal impactar a vida de milhares de pessoas em nome de uma otimização, especialmente quando os resultados recentes da empresa foram positivos”.

IA entra na conta: eficiência, cortes e reposicionamento

O movimento de demissões ocorre em meio a um reposicionamento estratégico da Amazon para se tornar uma empresa ainda mais focada em inteligência artificial, tanto em serviços oferecidos a clientes quanto no uso interno para automatizar tarefas.
Em junho de 2025, o CEO Andy Jassy já havia advertido que a adoção extensiva de IA reduziria a necessidade de funcionários em várias funções atuais, ao mesmo tempo em que criaria demanda para novos tipos de trabalho mais qualificados.

“Nos próximos anos, esperamos que isso reduza o número total de funcionários da empresa, à medida que obtivermos ganhos de eficiência com o uso extensivo de IA em toda a organização”, afirmou Jassy, em mensagem interna citada por veículos de economia.
Analistas ouvidos pela imprensa internacional avaliam que, por ser ao mesmo tempo produtora e grande usuária de IA, a Amazon tem escala para automatizar mais rapidamente funções administrativas, de suporte e até parte da operação logística, o que acelera cortes em áreas consideradas passíveis de automação.

“Assustador”, diz ex-funcionário sobre relação entre IA e cortes

Apesar do contexto de avanço da IA, o ex-funcionário brasileiro ouvido pela imprensa pondera que a tecnologia, em sua visão, não é a causa direta da demissão, mas um pano de fundo conveniente para justificar cortes focados em rentabilidade.
“A gente obviamente estava usando IA, mas eu não acho que é isso. Acho que é mais uma relação de enxugar custos e entregar valor ao acionista”, avaliou, sugerindo que ganhos de eficiência e pressão por margens pesam mais do que a simples substituição humana por algoritmos.

Especialistas em mercado de trabalho apontam, porém, que o discurso de “eficiência” e “agilidade” – usado pela vice-presidente sênior de Pessoas da Amazon, Beth Galetti, ao comunicar os cortes – está diretamente ligado ao uso crescente de automação e ferramentas de IA generativa em funções antes desempenhadas por pessoas.
Em relatórios e análises recentes, a empresa e observadores do setor afirmam que a gigante do e-commerce quer se transformar em uma organização “mais enxuta e com menos camadas hierárquicas”, em que times menores, apoiados por IA, assumem mais responsabilidades e aceleram decisões.

Estratégia corporativa: menos burocracia, mais IA

No comunicado aos funcionários, Beth Galetti afirmou que as demissões fazem parte de um “ajuste organizacional estratégico” para reduzir camadas e eliminar burocracias internas, com o objetivo de tornar a operação mais ágil em 2026.
Ela ressaltou que o processo de simplificação começou em outubro e que a intenção é aumentar a autonomia das equipes e acelerar o ciclo de tomada de decisões, eliminando estruturas vistas como entraves à inovação.

Ao mesmo tempo, a cúpula da empresa insiste que continua investindo pesado em áreas consideradas vitais para o futuro, como computação em nuvem, IA, publicidade e logística avançada, mantendo contratações pontuais em divisões estratégicas.
Galetti e Jassy afirmam que não se trata de instaurar uma “nova norma” de demissões em massa permanentes, mas de adequar a estrutura à visão de “maior startup do mundo”, com foco em velocidade, automação e produtos baseados em IA.

O que está em jogo para trabalhadores e mercado

Para trabalhadores, sobretudo em países como o Brasil, onde a recolocação em cargos similares é mais difícil, os cortes da Amazon reforçam o medo de que o “choque da IA” resulte em mais demissões e em empregos remanescentes com maior pressão e salários comprimidos.
Debates em comunidades de tecnologia e economia já tratam o episódio como um exemplo concreto de como grandes plataformas podem usar o discurso da inovação para reduzir quadros, ao mesmo tempo em que seguem lucrativas e valorizadas em bolsa.

No curto prazo, o caso da Amazon sinaliza que mesmo gigantes que seguem crescendo não hesitam em cortar milhares de postos em nome de eficiência, reposicionamento estratégico e de uma aposta agressiva em IA.
Para especialistas, a mensagem é clara: a disputa pela liderança em inteligência artificial passa não apenas por novos produtos e serviços, mas também por uma profunda reconfiguração das relações de trabalho – vista por quem foi demitido como algo, no mínimo, “assustador”.


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