Dados da Previdência e de observatórios de trabalho mostram explosão de licenças por ansiedade, depressão e estresse em uma ampla gama de ocupações, de vendedores a motoristas, com exigência de novas medidas de prevenção nas empresas.
O que mostram os dados oficiais
Levantamento feito a partir de bases do INSS, utilizado em estudo da OIT com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e detalhado pelo Ministério da Previdência, aponta que mais de 2 mil profissões tiveram ao menos um afastamento por transtorno mental no período analisado (2012–2024). Em 2025, foram contabilizados cerca de 4 milhões de afastamentos do trabalho por doença em geral, o maior número em cinco anos, sendo 546.254 por problemas de saúde mental, alta de 15% em relação a 2024.
Segundo o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, coordenado pela OIT e pelo MPT, os benefícios por incapacidade temporária associados à saúde mental passaram de 201 mil em 2022 para 472 mil em 2024, um aumento de 134%. Especialistas em medicina do trabalho avaliam que esses dados mostram apenas a “ponta do iceberg”, já que muitos trabalhadores seguem em atividade mesmo com sofrimento psíquico importante, sem chegar a formalizar o afastamento.
Principais diagnósticos que levam ao afastamento
Os transtornos mentais e comportamentais já aparecem entre as principais causas de concessão de benefício por incapacidade temporária no país, atrás apenas de problemas osteomusculares, como doenças da coluna. Em 2025, a ansiedade liderou os afastamentos relacionados à saúde mental, com 166.489 licenças, seguida por episódios depressivos, que somaram 126.608 registros.
Entre as doenças responsáveis pela concessão de benefícios, o Ministério da Previdência e estudos correlatos destacam: ansiedade, episódios depressivos, transtorno bipolar, dependência química, estresse grave, esquizofrenia e alcoolismo, todas em trajetória de alta em relação ao ano anterior. Relatórios acadêmicos e técnicos apontam ainda que, embora o burnout seja reconhecido, o volume de afastamentos com esse diagnóstico é subestimado — em 2024, foram cerca de 4 mil licenças, número considerado baixo frente à dificuldade de diagnóstico e registro.
Profissões mais afetadas e o que elas têm em comum
O recorte por ocupação, obtido a partir da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) e de dados do INSS, mostra que mais de 2 mil códigos de profissão diferentes registraram ao menos um afastamento por transtorno mental entre 2012 e 2024. No topo da lista aparecem ocupações como vendedor do comércio varejista, faxineiro, auxiliar de escritório, assistente administrativo e alimentador de linha de produção.
Especialistas ouvidos por entidades de saúde do trabalhador e pelo MPT ressaltam que essas ocupações compartilham algumas características: contratos mais frágeis, pressão intensa por metas, longas jornadas, alta rotatividade e maior exposição à violência urbana, no caso de motoristas, vigilantes e trabalhadores da linha de frente em serviços essenciais. Profissões que lidam diretamente com atendimento ao público, metas de vendas, riscos físicos e falta de autonomia na organização do trabalho tendem a apresentar maior risco de adoecimento psíquico e, consequentemente, mais afastamentos.
Tabela – Exemplos de profissões com afastamentos por transtornos mentais
A lista oficial contém mais de 2 mil profissões; abaixo estão exemplos citados em relatórios baseados em dados oficiais, com indicação de posição relativa ou destaque, não o número exato de afastamentos por CBO.
| Profissão (CBO) | Situação nos levantamentos oficiais |
|---|---|
| Vendedor do comércio varejista | Entre as primeiras posições em número de afastamentos por transtornos mentais. |
| Faxineiro | Entre as ocupações com mais registros de afastamento por saúde mental. |
| Auxiliar de escritório | Entre as profissões que lideram o ranking de licenças por transtornos mentais. |
| Assistente administrativo | Cita-se entre as principais funções com afastamentos recorrentes por problemas de saúde mental. |
| Alimentador de linha de produção | Figura no grupo do topo da lista de afastamentos por transtornos mentais. |
| Motoristas (diversas modalidades) | Destacados por exposição à violência urbana, longas jornadas e alta pressão. |
| Vigilantes e seguranças | Citados como grupo com forte exposição a riscos psicossociais e adoecimento psíquico. |
| Profissionais de atendimento ao público | Incluem caixas, recepcionistas, teleatendentes e outros, com alta pressão por metas e contato direto com usuários. |
Por que os afastamentos crescem e o que muda na legislação
Levantamentos da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) com dados oficiais do INSS mostram um crescimento acentuado dos afastamentos por transtornos mentais entre 2023 e 2025, com salto de 219.850 benefícios em 2023 para 367.909 em 2024 e 393.670 até novembro de 2025. Médicos do trabalho destacam que a intensificação do ritmo laboral, associada a metas consideradas inalcançáveis, assédio moral, jornadas extensas e condições precárias de trabalho, tem pressionado a saúde mental dos trabalhadores em diferentes segmentos.
Nesse contexto, o Ministério do Trabalho e Emprego atualizou a Norma Regulamentadora nº 1 para incluir a obrigatoriedade de avaliação de riscos psicossociais nos programas de segurança e saúde no trabalho, exigindo que empresas identifiquem fatores como estresse, assédio e carga mental excessiva e elaborem planos de prevenção. A expectativa de especialistas é de que o avanço normativo ajude a reduzir o número de afastamentos no médio prazo, ao forçar uma reorganização mais profunda das condições e da gestão do trabalho nas atividades mais afetadas.
Limites de transparência dos microdados por profissão
Embora os dados oficiais confirmem que mais de 2 mil profissões tiveram registros de afastamento por transtornos mentais, o detalhamento completo por CBO, com o número exato de licenças para cada uma das ocupações, está disponível apenas em bases técnicas e painéis como o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, voltados a pesquisadores e formuladores de políticas públicas. Os relatórios e matérias de divulgação utilizam esse banco para apontar os grupos mais atingidos e citar exemplos de cargos no topo do ranking, mas não publicam a listagem integral de todas as ocupações, o que impede a reprodução jornalística de uma “lista completa” com todos os códigos e quantitativos.
Diante dessa limitação, é possível informar o recorte geral (mais de 2 mil profissões diferentes, centenas de milhares de benefícios por ano e crescimento expressivo desde 2022) e os grupos profissionais mais expostos, mas não há, em domínio público aberto, um rol exaustivo com cada profissão e seu número de afastamentos. Para cobertura mais aprofundada, veículos e pesquisadores têm recorrido ao acesso direto aos microdados do INSS e aos painéis da OIT/MPT, o que permite análises específicas por setor, região e tipo de vínculo, mas exige tratamento estatístico próprio.



