PF vê atuação central de aliado de Alcolumbre em aporte da Previdência do Amapá no Banco Master

A Polícia Federal passou a enxergar a atual cúpula da Previdência do Amapá como um dos eixos centrais de influência política na contratação e na manutenção dos investimentos do fundo estadual com o Banco Master, hoje liquidado pelo Banco Central, ampliando o desgaste do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, no escândalo que envolve cerca de R$ 400 milhões de recursos previdenciários.

As apurações já em curso indicam que decisões estratégicas da Amapá Previdência foram tomadas sob forte presença de aliados diretos do senador, ignorando alertas técnicos, pareceres de risco e advertências de órgãos de controle.

No centro do caso está Jocildo Silva Lemos, presidente da Amapá Previdência desde 2023 e reconhecido aliado político de Alcolumbre. Em eventos públicos, o próprio dirigente afirmou ter sido convidado pelo senador para assumir o comando da autarquia responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de servidores estaduais. Para investigadores, a relevância de Jocildo no episódio não se limita ao cargo formal: ele presidia a instituição no momento em que sucessivos aportes foram aprovados em títulos do Banco Master, mesmo diante de questionamentos internos e externos sobre a solidez da instituição financeira.

As investigações também alcançam a estrutura de governança da previdência, considerada pela PF excessivamente permeada por vínculos políticos com o grupo de Alcolumbre. O advogado Alberto Alcolumbre, irmão do presidente do Senado, aparece em conselhos ligados à fiscalização da Amprev, o que, para fontes da investigação, reforça a percepção de captura política do fundo. Outro nome recorrente nos autos é o do conselheiro José Milton Gonçalves, ligado ao mesmo grupo político e apontado como um dos principais defensores internos das operações com Letras Financeiras do Banco Master.

Entre 2024 e o início de 2025, a Amprev aprovou uma sequência de investimentos que somaram aproximadamente R$ 400 milhões em títulos do Banco Master, valor equivalente a cerca de 5% do patrimônio total do fundo. As aplicações foram feitas em papéis sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, expondo recursos de longo prazo da previdência estadual a um banco que já estava sob crescente escrutínio regulatório. Atas de reuniões e relatos mostram que, em encontros realizados em julho de 2024, as autorizações ocorreram de forma unânime, sem que os alertas registrados em pareceres técnicos impedissem o avanço das operações.

É justamente nesse ponto que a Polícia Federal vê o núcleo decisório da Amprev como elemento-chave. Conselheiros alertaram formalmente para riscos de liquidez e para a fragilidade do Banco Master, além de existirem advertências de órgãos como o Tribunal de Contas e o Ministério Público. Ainda assim, a exposição ao banco foi ampliada. Para investigadores, o foco agora é apurar se esses alertas foram conscientemente ignorados, o que pode caracterizar desde gestão temerária até prevaricação e eventual direcionamento político-criminoso de investimentos.

A queda do Banco Master, seguida da prisão de seu controlador, Daniel Vorcaro, colocou a Amprev sob pressão pública. Em resposta, a direção do fundo promoveu coletiva em Macapá para afirmar que os pagamentos de aposentadorias e pensões estariam garantidos até pelo menos 2048 e que o investimento representaria apenas uma fração do patrimônio total. Em notas oficiais, a autarquia sustenta que as aplicações seguiram as normas do sistema financeiro e a política de investimentos vigente à época, argumentando que o banco estava autorizado a operar com recursos previdenciários.

Apesar da linha de defesa, a conexão política com Davi Alcolumbre tornou-se um problema incontornável. Jocildo Lemos já reconheceu publicamente a indicação do senador, enquanto o irmão de Alcolumbre ocupa posição relevante na estrutura de controle da previdência estadual. Analistas e parlamentares apontam que essa sobreposição entre política e gestão financeira fragiliza a versão de que não houve influência externa nas decisões do fundo.

Davi Alcolumbre, por sua vez, nega qualquer interferência em nomeações ou escolhas de investimento e afirma não ter atribuição formal sobre a Amprev. A Polícia Federal, contudo, passou a tratar a atual cúpula da previdência como peça central do quebra-cabeça, investigando se a presença de aliados e familiares do senador criou um ambiente propício para decisões alinhadas a interesses externos ao fundo, em detrimento da segurança dos recursos dos servidores.

Com o avanço das apurações do Ministério Público e da PF, e diante da pressão no Congresso por uma CPI específica do Banco Master, o caso deixou de ser apenas um problema regional do Amapá. Ele passou a representar um dos episódios mais sensíveis para o comando do Senado, ao colocar sob suspeita a influência política de aliados de Davi Alcolumbre em um dos maiores aportes já feitos por um fundo previdenciário estadual em um banco que acabou colapsando sob acusações de fraudes e irregularidades.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *