Corrupção: Brasil é novamente reprovado com nota muito abaixo da média mundial

Exemplo vem de cima. Os Três Poderes dão o tom do que se repete nos estados e municípios

Por Victório Dell Pyrro e

O Brasil voltou a figurar, para surpresa de ninguém, entre os piores desempenhos do mundo no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), divulgado pela Transparência Internacional, confirmando um cenário persistente de descrédito institucional e enfraquecimento dos mecanismos de controle do Estado.

Em 2025, o país obteve só 35 pontos em uma escala que vai de 0 a 100, na qual notas mais baixas indicam maior percepção de corrupção no setor público, e ficou na 107ª posição entre 182 países e territórios avaliados.

O resultado repete a segunda pior nota da série histórica brasileira, iniciada em 2012, e mantém o país muito abaixo da média global, que é de 43 pontos.

A pontuação de 35 pontos iguala o desempenho de países com graves fragilidades institucionais e coloca o Brasil em patamar inferior ao da média das Américas, também de 42 pontos. Trata-se de um retrato contundente da perda de confiança na capacidade do Estado brasileiro de prevenir, investigar e punir a corrupção, sobretudo em um contexto de reiteradas denúncias envolvendo o governo federal, o Congresso Nacional e decisões controversas do Supremo Tribunal Federal.

Desde o início da série histórica, o Brasil nunca conseguiu consolidar avanços estruturais duradouros. O melhor desempenho ocorreu em 2012 e 2014, quando o país alcançou 43 pontos e ocupou a 69ª posição no ranking. Mas até os índices se perdem, pois vale ressaltar que nesse período, segundo a Lava Jato, a corrupção estava corroendo empresas estatais sob o comando de Lula, que mantinha poder no governo Dilma Rousseff.

De lá para cá, o movimento tem sido de declínio quase contínuo. Em 2023, a nota caiu para 36 pontos, com o país em 104º lugar. Em 2024, houve novo recuo, para 34 pontos, uma das piores marcas já registradas. Em 2025, mesmo com leve recuperação numérica, o Brasil permaneceu estagnado no fundo da tabela, consolidando uma tendência de deterioração institucional.

No recorte internacional, o desempenho brasileiro é ainda mais constrangedor. Entre os países do G20, o Brasil ocupa a 16ª posição, ficando à frente apenas de México e Rússia, ambos também marcados por fortes críticas à captura do Estado por interesses políticos e econômicos.

Na América do Sul, embora supere países como Argentina e Colômbia, o Brasil fica muito distante de vizinhos que conseguiram fortalecer seus sistemas de integridade, como Uruguai e Chile, que figuram entre os países menos corruptos do mundo.

A Transparência Internacional atribui o resultado brasileiro a uma combinação de fatores que atingem diretamente o núcleo do poder em Brasília. A entidade aponta a ausência de prioridade clara do governo federal na agenda anticorrupção, o silêncio reiterado do presidente da República sobre o tema e o enfraquecimento de políticas que, no passado, haviam produzido resultados concretos. Também pesam a opacidade crescente na execução de emendas parlamentares, especialmente as chamadas emendas de relator, e a falta de transparência em grandes programas federais, como o Novo PAC, que movimenta bilhões de reais em investimentos públicos.

No Congresso Nacional, a percepção é de normalização de práticas que ampliam a distância entre representantes eleitos e sociedade. O uso pouco transparente de recursos orçamentários, a resistência a avanços legislativos em controle e fiscalização e a blindagem política a parlamentares envolvidos em escândalos alimentam a sensação de impunidade. Esse ambiente contribui diretamente para a leitura internacional de que o Brasil tolera desvios e trata a corrupção como um custo do sistema político.

No Judiciário, decisões do Supremo Tribunal Federal que resultaram na anulação de condenações emblemáticas da Operação Lava Jato também pesaram negativamente na avaliação.

Embora supostamente baseadas em argumentos jurídicos, essas decisões reforçaram, no plano da percepção pública e internacional, a ideia de que crimes de colarinho branco dificilmente resultam em punições efetivas no país. A falta de responsabilização de agentes poderosos é vista como um dos principais fatores de corrosão da credibilidade institucional brasileira.

O relatório também chama atenção para o avanço do crime organizado e sua infiltração em estruturas do Estado, especialmente por meio do sistema financeiro, da lavagem de dinheiro e do uso estratégico de escritórios de advocacia. No campo ambiental, o Brasil segue liderando rankings negativos relacionados à violência contra defensores do meio ambiente nas Américas, fenômeno frequentemente associado a redes criminosas e à fragilidade da presença estatal em áreas estratégicas.

Diante do resultado, o governo brasileiro, por meio da Controladoria-Geral da União, voltou a questionar a metodologia do índice, argumentando que o IPC mede percepções e não fatos concretos. Se medisse fatos concretos estaríamos em pior situação, vale lembrar.

A CGU destacou ações como operações anticorrupção realizadas em 2024, melhorias no Portal da Transparência e a implementação de um novo Plano de Integridade para o período de 2025 a 2027. A resposta, no entanto, não tem sido suficiente para reverter a avaliação internacional negativa nem para convencer especialistas de que há uma mudança real de rumo. E há?

O novo desempenho do Brasil no Índice de Percepção da Corrupção expõe, de forma inequívoca, o custo político e institucional de um país que enfraquece seus mecanismos de controle, relativiza escândalos envolvendo autoridades e convive com a sensação generalizada de impunidade. Mais do que um número, a nota de 35 pontos reflete a percepção de que o Estado brasileiro segue vulnerável à captura por interesses políticos, econômicos e corporativos, enquanto a sociedade paga a conta de um sistema que falha em proteger o interesse público impondo impostos extorsivos aos cidadãos para custear essa farra.

Esse exemplo que vem de cima se reflete em milhares de casos envolvendo corrupção nos estados e nos municípios.

Em 2025, o retrato da corrupção nos estados e municípios brasileiros é ainda mais escandaloso do que o sugerido por decisões pontuais de bloqueio de recursos. Apenas no caso das emendas parlamentares via Pix, o Ministério Público Federal instaurou mais de 200 procedimentos de investigação, que atingem mais de 220 municípios em pelo menos oito estados, envolvendo centenas de milhões de reais sob suspeita de desvio, uso irregular ou absoluta falta de transparência. O contraste é gritante: enquanto apenas nove municípios tiveram repasses formalmente suspensos por decisão do STF, o universo real de prefeituras e governos estaduais sob apuração é dezenas de vezes maior, revelando um sistema em que a exceção é a punição e a regra é a impunidade prolongada. Somadas às investigações sobre contratos estaduais e municipais em áreas como saúde, educação e obras públicas, conduzidas pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União, o número de procedimentos, inquéritos e operações em 2025 ultrapassa com folga a casa das centenas, com valores investigados que chegam à casa dos bilhões de reais. O dado bruto expõe uma distorção estrutural: o Brasil não sofre com poucos escândalos localizados, mas com uma corrupção disseminada nos entes subnacionais, mascarada por um funil institucional que investiga muito, pune pouco e quase nunca alcança os responsáveis políticos no topo da cadeia decisória.


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