Uma investigação divulgada pela BBC e análises conduzidas por empresas de cibersegurança reacenderam o alerta global sobre privacidade digital ao revelar que o TikTok ampliou a capacidade de seu sistema de rastreamento para além do próprio aplicativo. Segundo especialistas, a plataforma consegue coletar dados de navegação mesmo de pessoas que nunca instalaram o app ou criaram uma conta.
A prática ocorre por meio do chamado “TikTok Pixel”, uma ferramenta incorporada a milhares de sites ao redor do mundo para medir a eficácia de anúncios. O que era apresentado como um mecanismo comum de marketing digital passou, após atualização recente, a operar de forma mais abrangente, interceptando informações de navegação enviadas automaticamente por páginas da internet.
De acordo com a reportagem da BBC, o código do pixel pode capturar dados compartilhados com ferramentas como o Google Analytics, registrando histórico de navegação, pesquisas realizadas, compras efetuadas e até termos digitados em campos de formulários. Especialistas afirmam que, em determinados casos, foram identificadas menções a condições médicas, tratamentos de fertilidade e questões de saúde mental sendo transmitidas como parte de eventos de rastreamento.
Patrick Jackson, diretor de tecnologia da empresa de privacidade Disconnect, classificou o mecanismo como “extraordinariamente invasivo”, sobretudo por atingir usuários que sequer mantêm vínculo direto com a rede social. Estimativas indicam que o pixel do TikTok já está presente em cerca de 5% dos principais sites globais — número que tende a crescer à medida que anunciantes buscam segmentação mais precisa.
Em nota à BBC, o TikTok afirmou que suas políticas proíbem o envio de dados sensíveis e que oferece ferramentas para que anunciantes filtrem informações confidenciais. A empresa sustenta que o uso do pixel segue padrões da indústria e que mantém compromisso com a transparência. Especialistas, no entanto, argumentam que a responsabilidade final pela coleta excessiva recai sobre o desenho técnico do sistema, que permitiria a transmissão automatizada de dados sem supervisão adequada.
Além do rastreamento externo, a plataforma também enfrenta questionamentos sobre práticas internas. Pesquisas anteriores mostraram que o navegador embutido no aplicativo pode monitorar interações do usuário ao abrir links externos dentro do próprio app, registrando toques na tela e padrões de digitação. A empresa declarou que esses recursos são usados para depuração e prevenção de fraudes, negando coleta indevida de senhas.
Especialistas em segurança digital explicam que o modelo de negócios baseado em publicidade personalizada depende de perfis comportamentais cada vez mais detalhados. Quanto mais dados sobre hábitos de consumo, localização e interesses, maior o valor comercial da segmentação. É nesse contexto que o pixel se torna peça estratégica, conectando a navegação fora do aplicativo ao ecossistema publicitário da plataforma.
Diante desse cenário, usuários podem adotar medidas para reduzir o monitoramento. Navegadores com foco em privacidade, como Brave, Firefox e Safari, oferecem bloqueio nativo de rastreadores. Extensões como uBlock Origin, Privacy Badger e Ghostery também ajudam a impedir a execução de scripts de terceiros.
No próprio aplicativo, é possível desativar a personalização de anúncios nas configurações de privacidade e restringir permissões como acesso à localização. Usuários que não possuem conta podem solicitar informações sobre dados eventualmente associados ao seu dispositivo por meio do portal oficial de privacidade da empresa.
Especialistas ressaltam, contudo, que nenhuma medida é totalmente eficaz isoladamente. A combinação de bloqueadores de rastreamento, navegação em modo restrito, revisão de permissões e atenção ao clicar em anúncios reduz significativamente a exposição, mas não elimina por completo a coleta de dados na internet contemporânea.
O debate sobre o TikTok se insere em uma discussão mais ampla sobre vigilância digital e transparência algorítmica. À medida que plataformas ampliam sua presença fora de seus próprios aplicativos, cresce também a pressão por regulação mais rígida e maior controle do usuário sobre seus dados pessoais.



