Mojtaba Hosseini Khamenei é o novo líder supremo do Irã, escolhido dias após a morte de seu pai, o aiatolá Ali Khamenei, em ataques dos Estados Unidos e de Israel.
Ele chega ao topo do regime em plena situação de guerra e sob forte patrocínio da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), que atuou para acelerar e controlar a sucessão.
Origem e Formação
Mojtaba Khamenei nasceu em 8 de setembro de 1969, em Mashhad, importante cidade religiosa xiita no nordeste do Irã. É o segundo filho homem de Ali Khamenei, que governou como líder supremo por 36 anos, e integra uma das famílias clericais mais poderosas do país.
Com a ascensão do pai à liderança suprema em 1989, Mojtaba iniciou estudos clericais em seminários xiitas, tendo aulas com o próprio pai e com figuras como Mahmoud Hashemi Shahroudi, que depois se tornaria chefe do Judiciário iraniano. Esses estudos lhe permitiram construir uma imagem de clérigo com credenciais mínimas para ocupar um cargo que, pela Constituição, deve ser exercido por um religioso homem.
Ascensão nos Bastidores
Apesar de nunca ter disputado eleições, ocupado cargo público formal ou feito discursos públicos frequentes, Mojtaba acumulou poder como operador político e religioso nos bastidores da liderança do pai. Ele atuou durante anos em funções internas do gabinete do líder supremo e serviu como chefe-adjunto da equipe do líder para assuntos políticos e de segurança entre 1999 e 2026.
Diplomatas estrangeiros e analistas passaram a descrevê-lo como “o poder por trás das vestes”, uma espécie de gatekeeper que controlava o acesso a Ali Khamenei e filtrava decisões, nomeações e informações sensíveis. Organizações de monitoramento do regime afirmam que ele desempenhava papel comparável ao de Ahmad Khomeini, filho do fundador da República Islâmica, combinando funções de confidente, assessor e articulador junto às elites de segurança.
Ligações com a IRGC
Um dos pilares da influência de Mojtaba foi a relação estreita com a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e forças de segurança internas, como a milícia Basij. Relatórios apontam que ele integrou batalhões ligados à IRGC na juventude e construiu redes com comandantes que hoje controlam grande parte do aparato militar e de inteligência iraniano.
Essas conexões aparecem de forma mais clara em episódios de repressão interna. Investigações e análises sugerem que Mojtaba teve papel na coordenação da repressão ao Movimento Verde de 2009, sendo acusado de influenciar o resultado da reeleição de Mahmoud Ahmadinejad e de orientar a Basij a reprimir com violência manifestantes pró-reforma. Fontes também atribuem a ele participação na gestão de períodos de protestos mais recentes, coordenando, a partir do gabinete do líder, a atuação conjunta de serviços de segurança e do Judiciário.
Império Econômico
Sob o guarda-chuva das sanções ocidentais ao Irã, Mojtaba é citado em reportagens e dossiês como beneficiário de um vasto império econômico ligado a fundações religiosas, empresas de fachada e redes de intermediários. Segundo essas fontes, ele teria influência sobre ativos distribuídos em vários países, embora seu nome raramente apareça diretamente em registros formais, o que dificulta comprovar vínculos jurídicos.
Organizações como a United Against Nuclear Iran o descrevem como figura central na gestão de recursos do círculo do líder supremo, articulando negócios que ajudariam a financiar tanto o aparato de segurança interno quanto grupos alinhados ao Irã no exterior. Essa imagem reforça a percepção de que Mojtaba não apenas herdou capital político, mas também uma estrutura econômica paralela, em grande parte opaca à fiscalização oficial.
Sucessão na Guerra
A escolha de Mojtaba como novo líder supremo acontece poucos dias depois de Ali Khamenei ter sido morto em ataques dos EUA e de Israel contra instalações em Teerã, em um momento em que o país enfrenta confrontos regionais e tensão extrema com Washington e Israel. Diante do vácuo de poder, a Assembleia de Peritos — órgão de clérigos responsável, pela Constituição, por escolher o líder — reuniu-se sob forte pressão da IRGC e anunciou Mojtaba como terceiro líder supremo.
Analistas destacam que não se tratou de uma sucessão “normal”, mas de uma decisão de guerra, tomada com prioridade para preservar a cadeia de comando militar e evitar disputas de poder internas. Relatos indicam que a Guarda Revolucionária buscava controle do aparato de força e legitimidade dentro do núcleo duro do regime, vendo na nomeação do filho de Ali Khamenei a melhor forma de garantir continuidade simbólica e política.
Críticas e Legitimidade
A ascensão de Mojtaba reacende o debate sobre a legitimidade do cargo de líder supremo e sobre a própria natureza da República Islâmica. Críticos internos e parte da diáspora iraniana veem na escolha uma espécie de “hereditarização” de um posto que, teoricamente, deveria ser decidido por um órgão colegiado de clérigos e não por dinastia familiar e pressão militar.
Há também questionamentos jurídicos: fontes indicam que, diante dos ataques e do clima de emergência, a sucessão pode ter ocorrido à margem de procedimentos constitucionais, com a IRGC empurrando uma decisão rápida e centralizada. Alguns analistas especulam que o arranjo atual possa ser transitório, abrindo caminho para um modelo no qual a Guarda Revolucionária assumiria papel ainda mais direto no comando do Estado.
Rumos Políticos
Mojtaba é visto como figura de linha dura, alinhada à visão ideológica do pai e próxima ao eixo da “resistência” regional liderado pela IRGC, que inclui grupos armados no Líbano, Iraque, Síria e Iêmen. Como novo comandante em chefe das Forças Armadas e da própria Guarda Revolucionária, ele herda o controle sobre o arsenal de mísseis e sobre a política de projeção de influência iraniana no Oriente Médio.
Especialistas avaliam que, a curto prazo, não há sinal de mudança estrutural: a expectativa é de manutenção do “punho de ferro” interno e da política externa confrontacionista, ainda que calibrada pela necessidade de sobrevivência do regime. A falta de trajetória pública, a dependência da IRGC e as acusações de enriquecimento podem se transformar em focos de contestação doméstica caso a crise econômica e a repressão se aprofundem.


