A Polícia Federal deflagrou na manhã desta terça-feira (10 de março de 2026), no Rio de Janeiro, a segunda fase da Operação Anomalia, que investiga um esquema de extorsão praticado por policiais civis contra integrantes da facção criminosa Comando Vermelho (CV). A ação resultou na prisão de um delegado e dois investigadores da Polícia Civil, suspeitos de utilizar a própria estrutura do Estado para cobrar propina de traficantes em troca de proteção ou da interrupção de investigações.
Ao todo, cerca de 40 policiais federais participaram da operação, que cumpriu quatro mandados de prisão preventiva e três mandados de busca e apreensão. As ordens judiciais foram autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), após avanço das investigações que apontam para a existência de uma organização criminosa formada por agentes públicos e intermediários responsáveis por negociar pagamentos ilegais com membros da facção.
Entre os presos estão o delegado Marcus Henrique de Oliveira Alves, que chefiava uma delegacia da Polícia Civil do Rio, e os investigadores Franklin José de Oliveira Alves e Leandro Moutinho de Deus. Também foi alvo da operação Gabriel Dias de Oliveira, conhecido como “Índio do Lixão”, apontado como traficante ligado ao Comando Vermelho e que já se encontra preso. Segundo a Polícia Federal, ele atuaria como um dos pontos de contato entre os policiais corruptos e integrantes da facção.

Durante o cumprimento dos mandados, agentes federais apreenderam dinheiro em espécie que, de acordo com os investigadores, seria proveniente do esquema de extorsão. As apurações indicam que os policiais utilizavam investigações e procedimentos formais da Polícia Civil para pressionar traficantes a pagar propinas. Em alguns casos, eram emitidas intimações ou notificações oficiais que funcionavam como instrumento de ameaça velada, estabelecendo prazos para pagamento em troca de não realização de operações ou arquivamento de investigações.
As investigações também apontaram movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda declarada dos agentes públicos envolvidos. A Polícia Federal identificou patrimônio milionário, incluindo empresas de fachada utilizadas para ocultar recursos e lavar dinheiro obtido ilegalmente. Por determinação judicial, contas bancárias e ativos financeiros dos investigados foram bloqueados, incluindo eventuais criptoativos vinculados ao grupo.

Os suspeitos são investigados pelos crimes de organização criminosa, extorsão, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro. As penas somadas para esses delitos podem ultrapassar 30 anos de prisão, caso haja condenação. Além das prisões, a decisão judicial determinou o afastamento imediato dos policiais de suas funções e medidas de descapitalização do grupo, com o objetivo de impedir a continuidade das atividades ilícitas.
De acordo com a Polícia Federal, o esquema consistia em utilizar a credibilidade e a estrutura institucional da Polícia Civil para constranger traficantes do Comando Vermelho a pagar valores elevados em troca de proteção informal. Para evitar contato direto com integrantes da facção, os policiais utilizavam intermediários, que atuavam como negociadores e facilitadores do fluxo de dinheiro.
A segunda fase da Operação Anomalia é um desdobramento de investigações anteriores conduzidas no âmbito da força-tarefa conhecida como Missão Redentor II, criada para apurar suspeitas de corrupção envolvendo agentes públicos na área de segurança pública do Rio de Janeiro. A primeira etapa da operação já havia resultado na prisão de outros investigados suspeitos de participação em esquemas de venda de influência e manipulação de investigações.
Segundo a Polícia Federal, as apurações continuam em andamento e novas diligências não estão descartadas. O objetivo é identificar outros possíveis envolvidos e mapear completamente a rede de corrupção que teria operado dentro da estrutura policial para obter vantagens financeiras ilícitas a partir da atividade do tráfico de drogas no estado.


