FARRA COM DINHEIRO DO POVO GARANTE FORTUNAS A DIRETORES DA CÂMARA

Por Victório Dell Pyrro

A Câmara dos Deputados voltou a ser palco de um escândalo silencioso, mas bilionário em escala acumulada: o uso sistemático de horas extras para turbinar salários de servidores do alto escalão, criando uma máquina de remuneração paralela que afronta o teto constitucional e alimenta a sensação de impunidade dentro do poder público. Na prática, o mecanismo funciona como um “penduricalho” que transforma cargos estratégicos em passaportes para ganhos mensais que ultrapassam, com folga, o que é permitido ao cidadão comum — que paga a conta.

No centro da polêmica está o diretor-geral da Câmara, Guilherme Barbosa Brandão, que em março de 2026 recebeu R$ 22.931,04 em horas extras. O valor, somado ao salário-base, empurra sua remuneração total para além do teto constitucional do funcionalismo federal, hoje em R$ 46 mil. O dado não é apenas escandaloso: é matematicamente suspeito. Para justificar esse volume de dinheiro apenas em adicional, Brandão teria de cumprir o limite diário de horas extras permitido e ainda somar uma rotina intensa de fins de semana — algo considerado improvável por servidores ouvidos internamente, sob reserva.

E o caso não é isolado. Assim como ele, outros servidores da cúpula da Câmara viram seus rendimentos com horas extras aumentarem nos últimos anos, num movimento que expõe um padrão recorrente de distorção administrativa e privilégio institucionalizado. Tudo fomentado por um sindicato, o Sindilegis, cujo presidente, Alisson declarou que esse tipo de servidor tem de ganhar bem para não se corromper.

“Eu desejo que um auditor (do TCU) que vai fazer uma auditoria na Petrobras seja um profissional com um salário que o torne independente, menos corruptível, menos capturado. Porque, senão, isso é o quê para o país? Um atraso de vida. Esse cara vai, na verdade, começar a fazer o quê? Acordos por fora para poder ganhar dinheiro”, disse o presidente do Sindilegis na ocasião.

A fala repercutiu em grupos de auditores do TCU no WhatsApp. “Já pegou seu crachá de corrupto?”, pergunta uma servidora, acompanhando o link da reportagem e um print do trecho. Acredite, esse tipo de gente ganha fortunas como se fossem diferentes de outros servidores públicos do país. Não são. As responsabilidades são as mesmas, já a honestidade….

O advogado-adjunto da Câmara, Daniel Borges de Morais, recebeu R$ 17.178,61 em horas extras no mesmo mês de março. Mesmo que tivesse trabalhado exatamente o limite máximo permitido pela Casa — dez horas extras por semana — ainda assim faltariam aproximadamente R$ 5,1 mil para justificar o valor depositado. A discrepância evidencia que o sistema de controle de jornada, no mínimo, é frágil. No pior cenário, é conivente com registros irreais.

Outro caso ainda mais gritante envolve o diretor administrativo da Câmara, Mauro Limeira Mena Barreto, que recebeu R$ 21.807,56 na rubrica “outras remunerações eventuais/provisórias”, onde estão incluídas as horas extras. Mesmo que tivesse cumprido rigorosamente duas horas extras em todos os dias úteis e ainda recebido adicional noturno em todos os dias de sessão da Câmara — normalmente às terças e quartas-feiras — ainda assim, para alcançar esse total, teria de trabalhar por mais 35 horas nos fins de semana. O cálculo desmonta qualquer narrativa de normalidade e escancara um modelo de remuneração inflada que, na prática, se converte em bônus permanente.

Os números indicam que não se trata de exceção, mas de um sistema em funcionamento. Um rápido levantamento aponta que cerca de 70 servidores da Câmara receberam mais de R$ 10 mil apenas com o penduricalho das horas extras. A lista inclui setores estratégicos e cargos de comando, o que reforça a impressão de que o privilégio está concentrado justamente onde deveria haver mais responsabilidade e controle.

Dentro da própria Casa, servidores relatam que diretores dificilmente conseguem trabalhar efetivamente aos fins de semana na intensidade necessária para justificar pagamentos tão altos. A explicação é simples: essas funções dependem diretamente do suporte de subordinados para despachar, assinar documentos, tramitar processos e operar sistemas internos. Sem equipe de apoio ativa, não existe produtividade real que sustente jornadas massivas. O resultado é um cenário em que horas extras deixam de ser compensação por esforço e passam a operar como mecanismo de enriquecimento.

Brandão ocupa o cargo de diretor-geral desde agosto de 2025, quando foi indicado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Ele substituiu Celso de Barros Correia Neto, que era ligado ao ex-presidente da Casa Arthur Lira (PP-AL). Embora Brandão seja servidor concursado há mais de 12 anos, o caso mostra que estabilidade e carreira pública não significam, necessariamente, compromisso com austeridade ou respeito ao teto remuneratório.

No organograma interno, o diretor-geral é responsável por comandar toda a engrenagem administrativa da Câmara: recursos humanos, contratos, estrutura operacional, logística e serviços. Trata-se de um dos cargos mais poderosos da Casa — e, ao que indicam os números, também um dos mais lucrativos.

O escândalo das horas extras não poupou nem mesmo setores que deveriam representar fiscalização e rigor disciplinar. Em dezembro do ano passado, o coordenador da Comissão Permanente de Disciplina (Coped), Thiago de Matos Lauria, recebeu R$ 22 mil em “outras remunerações eventuais”. O dado é simbólico e perturbador: até o setor encarregado de supervisionar punições e medidas disciplinares parece se beneficiar do mesmo sistema de vantagens que deveria combater.

A situação evidencia um paradoxo brutal: enquanto o país discute cortes, ajustes fiscais e contenção de gastos, parte do topo da Câmara opera em um ambiente onde o teto constitucional virou ficção e o dinheiro público se transforma em remuneração turbinada por mecanismos internos pouco transparentes. A regra, que deveria limitar privilégios, vem sendo driblada por rubricas administrativas que funcionam como atalhos legais para aumentar salários sem enfrentar debate público ou justificativa convincente.

O que está em jogo não é apenas uma rubrica contábil, mas a credibilidade de um poder que deveria servir ao interesse público. Quando diretores e chefias recebem dezenas de milhares de reais extras em um único mês, com cálculos incompatíveis com a realidade de jornada, a mensagem enviada ao país é clara: há uma elite estatal blindada, vivendo sob regras próprias, distante da vida real do contribuinte que sustenta toda a estrutura.

Enquanto isso, a população segue pagando impostos altos, enfrentando serviços públicos precários e assistindo, mais uma vez, ao espetáculo da desigualdade institucionalizada — onde a “hora extra” virou sinônimo de fortuna garantida com dinheiro do povo.

Você já tentou ser atendido na Câmara dos deputados sem ter amizade com algum parlamentar ou funcionário? Nem tente. Não estão nem aí para nós, os insignificantes diante da dinheirama que corre solta no Congresso.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *