Ex-prefeito de Caxias (MA) e a namorada, a deputada Daniella, entraram na mira da PF após mensagens que indicariam recebimento de propina
O casal de políticos maranhenses formado pela deputada estadual Daniella (PSB) e seu namorado, o ex-prefeito de Caxias e atual secretário de Agricultura do Maranhão, Fábio Gentil, está no centro de uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre recebimento de propina por desvios de recursos públicos. Segundo as apurações, eles são suspeitos de integrar um esquema que desviou cerca de R$ 50 milhões do Fundeb e de outras verbas municipais entre 2021 e 2025.
Detalhes da Operação da PF
A operação “Lei do Retorno”, deflagrada em agosto de 2025, contou com 45 mandados de busca e apreensão em municípios do Maranhão e em Teresina (PI). Além de residências ligadas ao casal, o gabinete da deputada Daniella na Assembleia Legislativa foi alvo das ações. Entre os bens apreendidos estão cheques de alto valor (um deles de R$ 350 mil), mais de R$ 50 mil em espécie, joias e veículos — todos indicados como possíveis frutos do esquema de propinas.
Origem das Investigações
As investigações tiveram início após a apreensão de R$ 575 mil em espécie, em uma abordagem da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em janeiro de 2022, na BR 316. O dinheiro estava com intermediários do esquema, dentro de um veículo pertencente à mãe da deputada Daniella, e um dos ocupantes era tio dela. A PF apurou que a quantia seria entregue a um servidor de Caxias, que posteriormente repassaria os valores ao casal investigado.
Esquema de Desvios e Propina
Segundo a PF, o esquema operava a partir de fraudes em contratos municipais, principalmente no setor de educação, com parte dos valores desviados sendo devolvida como propina a políticos e servidores. Empresas envolvidas ganhavam licitações e repassavam parte dos recursos públicos para integrantes do grupo criminoso. Há fortes indícios de continuidade delitiva e atuação em vários municípios maranhenses.
A apuração do caso desde então resultou na deflagração da operação Lei do Retorno no final de agosto, mirando o esquema que teria causado prejuízos de cerca de R$ 50 milhões aos cofres públicos.
“Com o desenvolvimento das investigações, apurou-se a existência de organização criminosa responsável não somente pelo desvio de recursos públicos federais da educação no município de Caxias (MA), mas em outros diversos municípios, através do pagamento de propina a servidores públicos, dentre eles Fábio José Gentil Pereira Rosa, atual prefeito do município de Caxias [ele deixou o cargo no início de 2025] e Daniella Jadão Meneses Cunha, atual deputada estadual”, diz a PF.
A corporação afirma que a quantia que estava sendo transportada pelos suspeitos seria entregue a um servidor do município de Caxias, o qual repassaria, em tese, os valores em espécie a Fábio Gentil e Daniella, “demonstrando-se assim, o fluxo da propina recebida em decorrência do favorecimento/direcionamento para contratação” de uma das empresas suspeitas.
Segundo a apuração, o carro em que o dinheiro foi encontrado estava registrado em nome da mãe da deputada. Além disso, diz a PF, um dos transportadores da quantia é tio da parlamentar.
As investigações mostram ainda que o pai da deputada também teria se beneficiado dos trâmites ilegais. Documentos verificados pela Polícia Federal indicam que ele recebeu R$ 170 mil em repasses, feitos por um dos intermediários flagrado transportando os R$ 575 mil.
Os repasses teriam sido fracionados: R$ 70 mil diretamente para a conta do pai da parlamentar, enquanto outros R$ 100 mil teriam sido enviados a uma concessionária. Com esse valor, diz a PF, o pai da deputada adquiriu um veículo.
A PF traz em seu relatório mensagens que tratam sobre contratos em outros municípios e citam que os diálogos verificam “de forma clara a suposta intermediação direta de Daniella Jadão Meneses Cunha para a contratação da referida empresa por diversas prefeituras do estado do Maranhão”, além de apontar para o recebimento de valores indevidos por ela e outros envolvidos.
Em uma das conversas, trocada no mesmo dia da apreensão, o funcionário da prefeitura que receberia o dinheiro manteve contato com um dos transportadores, indicando que ele estava a sua espera.
Outro diálogo, desta vez entre um dos intermediadores e o dono de uma da empresas suspeitas, ainda em 2021, mostra ambos falando sobre contratos com outro município do Maranhão. O intermediador então encaminha, de um terceiro interlocutor ao empresário, a seguinte mensagem: “pra ela 15”.
“É possível que as mensagens sejam referentes à vantagem indevida – propina, que pode ser “15% do valor do contrato pra ela (Deputada)”, diz a PF.
Em outro diálogo, os mesmos interlocutores conversam sobre contratos com prefeituras do estado e o empresário encaminha um áudio utilizando a expressão “nossa chefa”. Segundo a PF, o termo seria em referência à Daniella.
“Através da mensagem de áudio acima, [o empresário] utiliza a expressão “Nossa Chefa”. Verifica-se novamente indícios da participação da Deputada Daniella sobre os contratos”, diz trecho do relatório da corporação.
As propostas, segundo o relatório, “eram apresentadas aos servidores públicos antes mesmo da existência de quaisquer Termos de Referência, ocorrendo, desse modo, a montagem de procedimentos de inexigibilidade para viabilizar o repasse de valores para a empresa, com Termos de Referência e contratos elaborados com base especificamente na proposta da empresa”.
“O investigado Fábio José Gentil segue o mesmo modus operandi de negociação com as empresas investigadas anteriormente à contratação destas, as quais são viabilizadas pelos servidores públicos municipais que somente realizam a posteriori a montagem de procedimentos fraudulentos de inexigibilidade de licitação, viabilizando o repasse de recursos públicos do FUNDEB”, afirma a PF.
Ainda sobre o ex-prefeito, a corporação afirma que “foram identificados elementos de informação robustos acerca de supostas negociações referentes ao recebimento de propina pelos investigados Fábio Gentil, através da realização específica de Processos Administrativos de Inexigibilidade de Licitação, com a montagem de documentos por servidores públicos municipais”.
Perfil dos Investigados
- Daniella (PSB): Deputada estadual e nutricionista, atua no Legislativo desde 2018, com histórico político e atuação na área de saúde e assistência social.
- Fábio Gentil: Ex-prefeito de Caxias e secretário estadual. Figura influente na política local e atual parceiro da deputada.
Defesa dos Envolvidos
Ambos afirmam serem inocentes e alegam não haver fatos que afetem sua conduta pública, ressaltando colaboração com as investigações e disposição para esclarecimentos. As defesas ainda não apresentaram justificativas plausíveis sobre os valores em espécie apreendidos, segundo relatos da PF.
A PF segue analisando documentos, celulares e materiais apreendidos, buscando aprofundar o rastreamento do dinheiro e o papel de empresas de fachada na distribuição dos valores desviados. O caso, considerado emblemático, expõe fragilidades no controle de verbas federais e pressiona instituições por punições exemplares


