Dirigentes delatores entregam Lulinha e Flávia Arruda na corrupção e roubo do INSS

Depoimentos dados à Polícia Federal por ex-procurador Virgílio Oliveira e ex-diretor André Fidelis incluiriam nomes datas e valores do esquema de corrupção que permitiu as fraudes milionárias contra aposentados e pensionistas do INSS

A crise política e institucional em torno do escândalo de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) ganhou um novo e explosivo capítulo nesta quarta-feira com a divulgação de negociações avançadas de delação premiada de dois dos principais acusados do caso.

Ex-dirigentes da autarquia — o ex-procurador-geral do INSS Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho e o ex-diretor de Benefícios André Fidelis —, ambos presos preventivamente desde 13 de novembro de 2025 no âmbito da 4ª fase da Operação Sem Desconto, teriam entregue nomes de grande peso político como participantes ou beneficiários do esquema bilionário de descontos ilegais em benefícios previdenciários.

Segundo relatos publicados na imprensa, nesta quarta-feira (25) , Virgílio e Fidelis teriam revelado, como parte das negociações de colaboração com a Polícia Federal, detalhes sobre o envolvimento de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha e filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em relações de influência e repasses dentro do esquema que desviou recursos de aposentados e pensionistas.

A delação também incluiria menções a figuras do chamado Centrão, como a ex-ministra Flávia Péres (ex-Flávia Arruda), que chefiou a Secretaria de Relações Institucionais no governo anterior — uma associação que surge pela primeira vez no bojo das investigações.

O esquema e os valores envolvidos

A Operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal com apoio da Controladoria-Geral da União, apura um esquema de habilitação irregular de entidades para descontos automáticos em aposentadorias e pensões, muitas vezes sem manifestação clara de vontade dos beneficiários. Conforme as investigações, os acordos de cooperação técnica (ACTs) firmados, sobretudo durante a gestão de Fidelis na Diretoria de Benefícios, resultaram em R$ 1,6 bilhão em descontos irregulares nos benefícios. Fidelis, que ocupou o cargo entre 2023 e 2024, teria autorizado 14 ACTs — o maior número da história da autarquia — com consequentes descontos automáticos na folha dos segurados.

A Polícia Federal acusa Virgílio de ter recebido R$ 11,9 milhões de empresas envolvidas nas fraudes, sendo pelo menos R$ 7,5 milhões ligados a um dos operadores do esquema, o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Os pagamentos teriam sido direcionados a empresas e contas bancárias da esposa de Virgílio, a médica Thaisa Hoffmann Jonasson, também presa na operação. A força tarefa identificou ainda um considerável aumento patrimonial do ex-procurador — na ordem de R$ 18,3 milhões —, incluindo um apartamento de alto padrão em Curitiba e a reserva de outro imóvel de luxo em Balneário Camboriú (SC).

André Fidelis é apontado pelos investigadores como receptor de R$ 3,4 milhões em propina entre 2023 e 2024, valor supostamente pago em troca de autorizações de descontos automáticos. Seu filho, Eric Fidelis, também foi preso e é alvo de investigações por movimentações financeiras suspeitas relacionadas ao esquema.

Lulinha no centro das revelações

A menção de Lulinha na delação premiada representaria uma das maiores reviravoltas no caso. Segundo as publicações na imprensa, os delatores teriam apresentado informações que o ligam como elo de influência entre empresários e integrantes do esquema no INSS, sugerindo papel de interlocução junto a operadores financeiros. A natureza exata das supostas relações ainda depende de confirmação judicial e de complementação investigativa — incluindo a eventual homologação formal da colaboração e a verificação das provas aportadas.

No entanto, as defesas dos dois ex-dirigentes negaram, até o momento, a existência de um acordo de delação formalizado. A advogada que representa Virgílio afirmou que não há delação em curso, e a defesa de André Fidelis ainda não se manifestou publicamente sobre as informações divulgadas.

Repercussões políticas e institucionalidade

A possível inclusão de Lulinha e de representantes políticos no rol de beneficiários ou articuladores do esquema intensifica a crise em Brasília, elevando a polarização em torno da investigação. Deputados governistas e opositores debatem, no momento, as implicações políticas das revelações, que podem impactar o calendário legislativo e antecipar movimentações em direção a comissões parlamentares adicionais ou reconfiguração da já em curso Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS — cuja relatoria caberá ao deputado Alfredo Gaspar (União-AL).

Do Planalto, auxiliares do presidente Lula afirmam que qualquer envolvimento de seu filho, se verificado com base em provas robustas, será objeto de investigação e responsabilização conforme a lei, reafirmando compromisso com a legalidade. Já setores da oposição, em especial bolsonaristas e membros do Centrão dissidente, intensificaram pedidos de apuração e, em alguns casos, chegaram a mencionar pautas como a abertura de processos de impeachment e outras medidas de responsabilização política.

Desdobramentos e próximos passos

O caso permanece em fase de apuração complexa. A Polícia Federal segue com a coleta de provas e a análise de inquéritos, interceptações e documentos apreendidos, enquanto a própria colaboração dos delatores — se efetivamente homologada pela Justiça — poderá ampliar ainda mais o escopo da investigação, com novas citações de agentes públicos, parlamentares e operadores econômicos. Outro operador-chave, o “Careca do INSS”, também estaria negociando proposta de delação junto às autoridades, promessa que pode trazer novos elementos à investigação.

O escândalo expõe fragilidades no sistema de controle de descontos em benefícios previdenciários e pode desencadear reformas no modelo de fiscalização e auditoria do INSS, enquanto milhões de aposentados aguardam esclarecimentos sobre os descontos irregulares em suas aposentadorias.


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