Brasil investe bilhões em educação segregada e mantém inclusão escolar subfinanciada


Enquanto o discurso oficial afirma compromisso com a educação inclusiva, os dados mostram outra realidade: o Brasil segue investindo de forma residual na estruturação das escolas comuns e destinando volumes bilionários à manutenção de modelos educacionais segregados. Informações oficiais do Ministério da Educação, obtidas pela Autistas Brasil via Lei de Acesso à Informação, revelam um déficit histórico de investimento na inclusão escolar, com impactos diretos no acesso, na permanência e no futuro de estudantes com deficiência.
 

Entre 2023 e 2025, o governo federal investiu R$52 milhões na formação continuada de professores para educação inclusiva, por meio da Rede Nacional de Formação (RENAFOR). No mesmo período, apenas 112.960 matrículas foram ofertadas, em um universo de 2,3 milhões de docentes da educação básica, o que representa uma cobertura inferior a 5% da demanda real do país.
 

A subexecução na formação docente ocorre em paralelo a uma rede escolar pouco estruturada para acolher a diversidade. Segundo dados do próprio MEC, embora 113.948 escolas públicas tenham matrículas de estudantes da educação especial, apenas cerca de um terço oferece Atendimento Educacional Especializado (AEE) de forma sistemática, evidenciando que a matrícula em classe comum, isoladamente, não garante inclusão.
 

“O Brasil terceiriza para a filantropia privada um dever constitucional, canalizando bilhões do Fundeb para entidades que operam fora da escola pública — uma das formas mais silenciosas de privatização da educação brasileira, feita em nome da proteção, mas que na prática esvazia o sistema público dos recursos necessários para se transformar. Resta saber a quem interessa esse modelo segregador bilionário — porque às crianças e aos adolescentes com deficiência do Brasil, ele claramente não serve.” — Guilherme de Almeida, presidente da Autistas Brasil.
 

Inclusão, integração ou segregação: modelos que produzem destinos diferentes

A diferença entre os modelos educacionais adotados no país ajuda a explicar o desequilíbrio do investimento público.

Na segregação, estudantes são encaminhados para instituições especializadas — como APAEs e Pestalozzis — organizadas fora da rede regular de ensino. Nesses espaços, a deficiência é o eixo central da organização institucional, os currículos são paralelos e as trajetórias educacionais tendem a ser fechadas e vitalícias.
 

Na integração, os estudantes frequentam a escola comum, mas sem que o sistema se transforme: faltam apoios, formação docente e acessibilidade, o que transfere ao aluno a responsabilidade de “se adaptar” ao modelo existente.
 

Já a educação inclusiva pressupõe outra lógica: a escola comum se reorganiza para garantir pertencimento, acessibilidade curricular, altas expectativas de aprendizagem e apoios como dever do Estado — não como concessão. Trata-se de um direito subjetivo público, com matrícula obrigatória e incondicional.
 

Os dados mostram, porém, que o financiamento público segue priorizando a segregação. Em 2025, R$7,9 bilhões do Fundeb foram destinados a instituições especializadas, incluindo APAEs e Pestalozzis, um aumento de 117% em relação a 2022, quando o valor era de R$3,7 bilhões, segundo informações oficiais do Ministério da Educação.
 

Investimento insuficiente na escola comum

No mesmo ano, o principal programa federal voltado à estruturação da inclusão nas escolas regulares — o PDDE Equidade – Salas de Recursos Multifuncionais (SRM) — investiu R$200,29 milhões, contemplando apenas 6.669 escolas em todo o país. Entre 2023 e 2025, o investimento total no programa foi de R$ 654,5 milhões, alcançando 28.743 escolas, número muito inferior à demanda existente.
 

Na prática, isso significa que milhões de estudantes estão matriculados em escolas que não contam com equipamentos, tecnologias assistivas, materiais pedagógicos acessíveis ou equipes formadas para garantir a aprendizagem em igualdade de condições.
 

“O Brasil mantém um modelo em que a segregação é amplamente financiada, enquanto a inclusão depende de políticas residuais e descontinuadas”, afirma Guilherme de Almeida, presidente da Autistas Brasil. “Isso não é uma falha técnica, é uma escolha política.”
 

Violação de direitos e perpetuação da desigualdade

A assimetria de financiamento contraria compromissos legais assumidos pelo país. A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada com status constitucional, determina que os Estados devem assegurar um sistema educacional inclusivo em todos os níveis. O Comitê da ONU é explícito ao afirmar que a manutenção de sistemas educacionais segregados constitui violação desse direito.
 

Para a Autistas Brasil, o subfinanciamento da inclusão produz um ciclo de exclusão: escolas comuns sem estrutura → inclusão precária → famílias pressionadas a buscar instituições segregadas → recursos públicos direcionados à segregação → manutenção do déficit na escola regular.
 

“Educação inclusiva custa menos, alcança mais pessoas e produz autonomia, pertencimento e projetos de vida no mundo comum”, afirma Almeida. “Persistir no financiamento da segregação é perpetuar desigualdades e limitar o futuro de milhares de crianças.”
 

Sobre a Autistas Brasil
Organização nacional fundada e liderada por pessoas autistas, a Autistas Brasil atua na formulação de políticas públicas, na incidência jurídica e no desenvolvimento de programas educacionais em larga escala. Nos últimos três anos, suas ações alcançaram mais de 21 mil educadores em todo o país, consolidando a instituição como referência em inclusão, neurodiversidade e direitos humanos.
 

Guilherme de Almeida é autista, presidente da Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas (Autistas Brasil) e pesquisador na Unicamp na área de educação inclusiva. É o único pesquisador brasileiro membro da Cúpula de Neurodiversidade de Stanford.


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