Sócio dos irmãos de Toffoli denuncia desvio de R$ 100 mi em resort de luxo

Auditoria aponta gastos sem comprovação no Tayayá Porto Rico, ligado à família do ministro do STF. Viotto ameaça PF; resort nega e fala em disputa societária.

Um dos sócios do resort Tayayá Porto Rico, empreendimento de luxo às margens do Rio Paraná, denunciou um suposto desvio de até R$ 100 milhões em obras e na gestão do projeto, ligado a empresas dos irmãos do ministro do STF Dias Toffoli. A acusação, revelada inicialmente pelo Estadão e repercutida por diversos veículos, é feita pelo empresário João Roberto Viotto, detentor de 18% da sociedade e ex-presidente do resort, que afirma ter encomendado uma auditoria interna apontando gastos sem comprovação documental e repasses a empresas terceirizadas sem evidência de serviços prestados.

Segundo Viotto, a auditoria identificou cerca de R$ 100 milhões em desembolsos financeiros sem apresentação de notas fiscais, contratos, boletins de medição ou qualquer prova de contraprestação, além de uma diferença de R$ 7,6 milhões entre as movimentações financeiras e o saldo bancário até 31 de dezembro de 2024. Em nota divulgada por sua empresa, a JJ Capital, ele afirma que “saídas de recursos do caixa da sociedade sem a devida comprovação documental” exigem investigação técnica para rastrear o destino final dos valores.

O empresário sustenta que os supostos desvios começaram a partir de junho de 2023 e envolvem contratos com empreiteiras e prestadores de serviços ligados à família Ferro, sócia majoritária do Tayayá Porto Rico e responsável pela administração atual do resort. Ele também aponta pendências com a Receita Federal – impostos recolhidos e não pagos – e alerta para o risco aos investidores: cerca de 620 famílias teriam adquirido mais de 1,5 mil cotas de casas e apartamentos, com valor de vendas em torno de R$ 220 milhões, enquanto o empreendimento segue em construção.

O Tayayá Porto Rico é um empreendimento privado, que teve em seu quadro societário empresas ligadas aos irmãos de Dias Toffoli, o padre José Carlos Dias Toffoli e o engenheiro José Eugênio Dias Toffoli. Dados da Receita Federal mostram que a Maridt Participações S.A., pertencente a Igor Luiz Pires Toffoli e José Eugênio, foi acionista do resort entre a criação do projeto, em 2021, e fevereiro de 2025.

Outro nome de peso que passou pelo negócio é o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, cuja empresa participou da fundação do resort e deixou a sociedade em maio de 2024. Paralelamente, reportagens sobre a “rota do dinheiro” mostram que fundos de investimento ligados ao Banco Master e à gestora Reag compraram uma fatia milionária de outro resort do grupo Tayayá, em Ribeirão Claro, também ligado aos irmãos Toffoli – fato que gerou questionamentos sobre potenciais conflitos de interesse, embora Dias Toffoli não atue mais como relator dos inquéritos que investigam a conduta do Master e da Reag no STF.

A administração do Tayayá Porto Rico nega todas as acusações e classifica a denúncia como “inverídica” e “caluniosa”. Em manifestação apresentada à Justiça do Paraná, a empresa afirma que Viotto faz uma “agressiva tentativa de tomada da administração da companhia”, da qual ele foi afastado após “atividades suspeitas, desvio de finalidade, conflito de interesses e atos extremamente lesivos à empresa”.

Para o resort, não há desvio de recursos, mas sim disputa societária e desavença comercial; os gestores defendem que as movimentações financeiras questionadas têm respaldo contábil e tributário, embora nem todos os documentos tenham sido anexados ao processo judicial citado pelo sócio dissidente.

Em setembro de 2025, Viotto entrou com uma ação de produção antecipada de provas na Justiça do Paraná, pedindo que Banco Central, Receita Federal e Coaf enviassem extratos bancários, histórico de movimentações e outros dados da empresa, mas desistiu do processo dias depois, antes de decisão judicial. Segundo apuração do Estadão, o recuo seria uma manobra para redistribuir a ação a outro juiz, enquanto o empresário afirma que pretende levar as evidências reunidas à Polícia Federal, diante da possibilidade de crimes contra a ordem tributária e o sistema financeiro nacional.

Como não há, até aqui, indicação de uso de recursos públicos no resort, eventuais crimes investigados seriam típicos da esfera privada, como apropriação indébita e furto de caixa de empresa, além de possíveis irregularidades fiscais. A denúncia se soma ao contexto de escrutínio crescente sobre negócios da família Toffoli com fundos ligados ao Banco Master e à Reag.


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