A Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou nesta quarta-feira (11) a Operação Contenção Red Legacy, uma ofensiva voltada a desarticular a estrutura nacional do Comando Vermelho (CV). Segundo investigadores, a facção deixou de atuar apenas como organização criminosa tradicional e passou a operar como um verdadeiro cartel do crime, com divisão territorial, coordenação interestadual e mecanismos internos de comando.
A ação foi coordenada pela Delegacia de Combate ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD) e contou com apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) e de outras unidades especializadas da Polícia Civil. Durante a operação, agentes cumpriram mandados de prisão e de busca e apreensão em diversos pontos do estado. Até o momento, seis pessoas foram presas, entre elas o vereador Salvino Oliveira (PSD-RJ), cinco policiais militares e outros suspeitos apontados como integrantes ou colaboradores da organização criminosa. Permanecem foragidos Márcia Gama — esposa do traficante Marcinho VP e mãe do cantor Oruam — e Landerson Lucas dos Santos, sobrinho do líder da facção.

As investigações apontam que o Comando Vermelho passou a operar com uma estrutura hierárquica altamente organizada. No topo estaria um conselho nacional permanente, liderado por Marcinho VP, que mesmo preso há quase três décadas continuaria exercendo influência sobre decisões estratégicas da facção. Abaixo desse núcleo central funcionariam conselhos regionais responsáveis pela gestão territorial e operacional do grupo. Segundo os investigadores, o grupo mantém um estatuto interno que regula suas atividades e teria estabelecido, em 2025, um acordo de cooperação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), ampliando sua capacidade de atuação em diferentes estados.
Entre os principais alvos da operação estão Edgar Alves de Andrade, conhecido como “Doca” e apontado como a “primeira voz das ruas” dentro da estrutura do CV; Luciano Martiniano da Silva, o “Pezão”, responsável pela gestão financeira da organização; e Carlos da Costa Neves, o “Gardenal”, descrito pelos investigadores como executor de ordens da cúpula criminosa.
A investigação também revelou possíveis conexões entre a facção e o meio político. O vereador Salvino Oliveira é acusado de ter negociado diretamente com Edgar Alves de Andrade autorização para realizar campanha eleitoral na comunidade da Gardênia Azul durante as eleições municipais de 2024. Em troca, segundo a polícia, teriam sido oferecidas contrapartidas à facção, como concessões e facilidades para exploração de quiosques e outras atividades econômicas na região. O parlamentar foi eleito com cerca de 27 mil votos.
De acordo com a apuração policial, Márcia Gama e Landerson Lucas atuariam como intermediários diretos de Marcinho VP, funcionando como elo entre lideranças presas e integrantes da facção em liberdade. Eles seriam responsáveis por transmitir ordens, intermediar negociações e manter a articulação financeira e logística da organização em comunidades sob domínio do Comando Vermelho.
A Operação Contenção Red Legacy integra uma ofensiva mais ampla do governo do Rio de Janeiro contra a expansão territorial do Comando Vermelho, iniciada em outubro de 2025. Desde então, segundo dados da Polícia Civil, mais de 310 pessoas foram presas em ações relacionadas à facção, além da apreensão de aproximadamente 470 armas de fogo — entre elas 190 fuzis. Também foram registradas 137 mortes em confrontos durante operações policiais no período.
Para os investigadores, o avanço da facção envolve não apenas o controle armado de territórios, mas também a exploração sistemática de atividades econômicas em comunidades, a infiltração em estruturas políticas locais e o uso de redes familiares para garantir a continuidade do comando mesmo com lideranças presas. A polícia afirma que a nova etapa das operações prioriza o desmonte das engrenagens financeiras, logísticas e políticas que sustentam a organização criminosa.


