A Operação Cartão Postal, deflagrada em outubro de 2023 pela Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor) da Polícia Civil de Mato Grosso, investiga uma suposta organização criminosa que teria desviado cerca de R$ 87 milhões em contratos irregulares de saúde no município de Sinop, a 503 km de Cuiabá.
Detalhes da Deflagração e Ações Iniciais
Lançada em 19 de outubro de 2023, a operação cumpriu 32 mandados de busca e apreensão em Sinop, Cuiabá, Várzea Grande (MT), São Paulo e Praia Grande (SP), além de 6 prisões preventivas. Entre os alvos iniciais estavam o ex-secretário municipal de Saúde de Cuiabá Célio Rodrigues de Miranda, o advogado Hugo Florêncio de Castilho e outros quatro suspeitos de fraudar licitações e contratos com a organização social Associação Sinopense de Assistência à Saúde (Asas), responsável pela gestão de unidades de saúde em Sinop.
A Justiça determinou bloqueio de R$ 87 milhões em contas bancárias dos envolvidos, sequestro de bens e interrupção de pagamentos à Asas para garantir continuidade dos serviços públicos. Foram identificadas 13 pessoas com medidas cautelares, como proibição de acesso a prédios públicos, contato com investigados, saída da comarca sem autorização, entrega de passaporte e comparecimento periódico ao Judiciário.
Esquema Fraudulento e Envolvimento de Empresas
Segundo as investigações, o grupo criminoso superfaturava compras de medicamentos e equipamentos, com pagamentos por itens não entregues à farmácia municipal. Evidências incluem aquisição de uma cervejaria artesanal como forma de lavagem de dinheiro, associando secretários e empresários. A Asas, principal contratada, recebia recursos sem fiscalização adequada, permitindo desvios via contratos superfaturados durante gestões anteriores na Saúde de Sinop.
Documentos apreendidos mostram ligações entre agentes públicos e privados, com divisão da investigação em três inquéritos devido à complexidade, compartilhados com o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) para auditoria.
Desdobramentos Judiciais
Em 2024, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconheceu a competência da Justiça Federal para julgar partes do caso, por envolver recursos federais da Saúde. O Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) manteve medidas cautelares contra o advogado Hugo Florêncio, réu confesso em delação premiada, rejeitando habeas corpus.
A Justiça Federal assumiu formalmente a competência em 2024, ampliando buscas por indícios de participação de mais agentes públicos municipais. O foco ainda permanece em recuperação de ativos e julgamentos individuais.
Impactos e Status Atual
A operação paralisou pagamentos à Asas, preservando serviços essenciais em Sinop, e expôs fragilidades em contratos de organizações sociais na saúde pública municipal. Até março de 2026, seis prisões preventivas foram convertidas em cautelares ou liberadas sob condições, mas bens bloqueados somam dezenas de milhões. A Deccor continua perícias em documentos e movimentações financeiras, com potencial para novas ações contra facções ligadas.
Paralelamente, A Operação Cartão Postal avança para um novo patamar ao incorporar, no foco da Polícia Federal, um conjunto de elementos que interligam decisões institucionais, contratos públicos sensíveis e relações familiares no núcleo do poder em Mato Grosso.
No centro dessa engrenagem está Hugo Florêncio de Castilho, irmão do juiz Jurandir Florêncio de Castilho Júnior, cuja atuação já havia sido alvo de medidas na operação. Agora, o escopo investigativo se amplia para além dos operadores diretos e alcança estruturas que, em tese, deveriam atuar como mecanismos de controle.
Decisões monocráticas sob suspeita
Entram no radar decisões individuais proferidas no Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso, especialmente pelo conselheiro Antônio Joaquim. Essas decisões, segundo linhas investigativas, podem ter produzido efeitos concretos como suspensão de sanções, reinterpretação de contratos e liberação de fluxos administrativos.
O ponto crítico está no impacto: ao alterar o curso de processos sem deliberação colegiada, essas medidas podem ter contribuído, direta ou indiretamente, para a continuidade de contratos sob suspeita — o que agora passa a ser examinado sob ótica federal.
Investigadores avaliam se decisões do TCE-MT tiveram influência direta ou indireta na manutenção ou flexibilização desses contratos. A hipótese em análise é a de que atos administrativos possam ter criado ambiente favorável à continuidade de práticas investigadas.
Delegado, elo familiar e zona de influência
A investigação também tangencia a figura de um delegado exonerado em Sorriso, apontado como genro do conselheiro Antônio Joaquim. O histórico do delegado inclui episódios controversos, já alvo de denúncias, o que amplia o campo de análise sobre possíveis redes de influência e proteção institucional.

A conexão entre agentes públicos, vínculos familiares e decisões administrativas forma um triângulo sensível — frequentemente presente em investigações complexas envolvendo corrupção e desvio de recursos.
Federalização e efeito dominó
Com a Polícia Federal assumindo parte das apurações, o caso entra em fase de aprofundamento técnico e probatório. Isso inclui cruzamento de dados financeiros, revisão de decisões administrativas e mapeamento de relações entre os envolvidos.
Nos bastidores, o entendimento é de que há um possível “efeito dominó”: contratos, decisões e relações que, analisados isoladamente, poderiam parecer desconexos, mas que, em conjunto, desenham uma estrutura mais ampla de funcionamento.
A Operação Cartão Postal deixa de ser apenas uma investigação sobre contratos específicos e passa a testar a integridade de estruturas institucionais. O avanço sobre decisões do TCE-MT, a conexão com contratos de OSS e a presença de laços familiares no núcleo do caso elevam o potencial de impacto político e jurídico.
Se confirmadas as suspeitas, o desdobramento pode atingir não apenas operadores do esquema, mas também o próprio modelo de fiscalização e controle adotado no Estado.


