O governo iraniano rejeitou categoricamente, nesta quarta-feira (25), o plano de paz proposto pelos Estados Unidos para resolver as tensões no Oriente Médio, chamando a iniciativa de “uma farsa imperialista” destinada a perpetuar a dominação ocidental na região. A declaração, proferida pelo ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, ocorre em um momento de alta volatilidade, com recentes ataques atribuídos a proxies iranianos contra bases israelenses e americanas na Síria e no Líbano.
“Os Estados Unidos falam de paz enquanto armam Israel e sancionam o Irã de forma ilegal. Esse plano não é mais que uma cortina de fumaça para encobrir sua agenda sionista”, afirmou Araghchi em coletiva de imprensa em Teerã, transmitida pela agência estatal IRNA. O plano americano, revelado na semana passada pelo secretário de Estado Antony Blinken, previa um cessar-fogo de 90 dias entre Israel e o Hezbollah (apoiado pelo Irã), congelamento de sanções em troca de desarmamento de milícias xiitas e mediação da Arábia Saudita. Washington argumenta que a proposta poderia pavimentar o caminho para negociações nucleares revividas, mas Teerã a vê como uma armadilha para enfraquecer sua influência regional.
Contexto da Crise
A rejeição não surpreende analistas. Desde o colapso das negociações nucleares de 2015 (JCPOA) sob o governo Trump, e com o endurecimento das sanções sob Biden e agora Harris, as relações EUA-Irã estão no ponto mais baixo desde 1979. Em 2025, ataques do Houthis (aliados iranianos) contra navios no Mar Vermelho e drones iranianos contra Israel intensificaram o conflito. Dados da ONU indicam que mais de 1.200 civis morreram em confrontos relacionados desde janeiro.
Fontes diplomáticas em Bruxelas revelam que a União Europeia tentou mediar, mas o Irã condicionou qualquer diálogo à “remoção total das sanções unilaterais”. “Teerã joga para a galeria doméstica, onde o aiatolá Khamenei precisa projetar força”, explica o analista político brasileiro Oliver Stuenkel, professor da FGV, em entrevista à BS B Revista. “Mas isso isola o Irã de potenciais aliados árabes moderados.”
Reações Internacionais
- Israel: O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu chamou a rejeição de “prova da ameaça iraniana” e prometeu “respostas duras”, com relatos de bombardeios a depósitos de mísseis no sul do Líbano.
- China e Rússia: Apoiaram Teerã em declarações conjuntas no Conselho de Segurança da ONU, acusando os EUA de “duplicidade”.
- Arábia Saudita: Riad, mediador proposto, expressou “decepção”, mas sinalizou disposição para diálogos bilaterais com o Irã, abrindo brecha para normalização.
No Brasil, o chanceler Mauro Vieira defendeu “diplomacia multilateral” em nota do Itamaraty, alinhando-se à tradição de neutralidade em conflitos do Oriente Médio.
Implicações Globais
A recusa iraniana eleva riscos de uma guerra regional aberta, com impactos no preço do petróleo (Brent subiu 3% hoje para US$ 85/barril) e na inflação mundial. Especialistas preveem que o Irã acelere seu programa nuclear – a AIEA reportou em fevereiro urânio enriquecido a 84% em Natanz, próximo ao grau bélico. Para o Ocidente, o impasse reforça a necessidade de uma coalizão anti-Irã, enquanto Teerã busca laços com BRICS+.
Sem concessões mútuas, o plano americano parece fadado ao fracasso, prolongando um ciclo de retaliações.



