A Polícia Federal intensificou, no início de janeiro de 2026, a investigação sobre repasses financeiros feitos ao ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça Nefi Cordeiro por uma empresa apontada como ligada ao lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, personagem central do esquema bilionário de fraudes em descontos indevidos sobre aposentadorias e pensões. Relatórios de inteligência financeira produzidos pelo Coaf e incorporados à Operação Sem Desconto indicam transferências que somam R$ 595 mil, realizadas entre outubro de 2023 e agosto de 2025, período posterior à saída de Cordeiro da Corte, ocorrida em setembro de 2023.
Os pagamentos partiram da empresa Antunes & Associados Consultoria, formalmente registrada como prestadora de serviços jurídicos e de assessoria, mas que, segundo a PF, funciona como estrutura de intermediação financeira do grupo comandado pelo Careca do INSS. As transferências, feitas de forma fracionada e com descrições genéricas, foram consideradas atípicas pelo Coaf por não guardarem compatibilidade com os serviços declarados nem com o histórico financeiro do ex-magistrado. Investigadores trabalham com a hipótese de que os valores possam caracterizar lavagem de dinheiro ou pagamento disfarçado por influência jurídica exercida antes e depois da aposentadoria.
Antonio Carlos Camilo Antunes está preso desde dezembro de 2025, quando a PF deflagrou nova fase da Operação Sem Desconto e estimou em cerca de R$ 6 bilhões o montante desviado de aproximadamente três milhões de aposentados por meio de associações e sindicatos de fachada. As investigações mostram que o grupo atuava para incluir mensalidades não autorizadas nos benefícios previdenciários, valendo-se de decisões judiciais, liminares e entraves administrativos para retardar fiscalizações e bloqueios. É nesse contexto que surge o nome de Nefi Cordeiro, citado em mensagens apreendidas e em depoimentos de ex-integrantes do esquema como alguém capaz de “abrir portas” em Brasília.
A PF apura, em especial, a relação entre os repasses e decisões judiciais proferidas quando Cordeiro ainda integrava o STJ. Um dos pontos sob análise é um habeas corpus julgado em 2022, no qual o então ministro votou favoravelmente a uma entidade posteriormente identificada como parte da engrenagem usada pelo grupo do Careca do INSS. Embora não haja, até o momento, prova direta de contrapartida, os investigadores consideram que a sequência temporal entre decisões judiciais, aposentadoria e pagamentos posteriores reforça a suspeita de tráfico de influência.
Nomeado ao STJ em 2017, após trajetória como desembargador federal, Nefi Cordeiro construiu reputação de garantista e atuou em processos sensíveis envolvendo improbidade administrativa e desdobramentos da Lava Jato. Ao completar 75 anos, idade-limite para permanência na magistratura, aposentou-se e, meses depois, passou a atuar como advogado e consultor em Brasília. A investigação busca esclarecer se essa atuação extrapolou os limites legais, sobretudo no tocante a contatos com tribunais e órgãos públicos em favor de associações vinculadas ao esquema previdenciário.
O caso de Cordeiro é tratado pela PF como parte de um mosaico mais amplo que envolve lobistas, dirigentes de associações, operadores financeiros e eventuais conexões políticas. Quebras de sigilo bancário e fiscal já autorizadas alcançam dezenas de pessoas físicas e jurídicas, enquanto delações em negociação prometem detalhar a circulação de recursos e a lista de beneficiários. O Ministério Público Federal avalia os elementos reunidos para definir eventual indiciamento por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Procurada, a defesa de Nefi Cordeiro afirma que os valores recebidos correspondem a honorários lícitos por pareceres técnicos na área previdenciária, prestados após sua aposentadoria, e nega qualquer interferência indevida em processos judiciais. A Ordem dos Advogados do Brasil declarou acompanhar o caso e defendeu apuração rigorosa, sem prejulgamentos. Já a Polícia Federal confirmou que o ex-ministro foi intimado a prestar esclarecimentos em 10 de janeiro de 2026 e que novas diligências estão em curso. O desfecho da investigação poderá lançar luz não apenas sobre a atuação de um ex-integrante da mais alta Corte infraconstitucional do país, mas também sobre os mecanismos que permitiram a sangria bilionária dos cofres do INSS.



