Gestora entra em liquidação após investigações ligadas ao Banco Master e suspeitas de fraudes com crime organizado
O Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da Reag Investimentos (hoje CBSF DTVM) por “graves violações às normas” do Sistema Financeiro Nacional, em meio às investigações sobre fraudes ligadas ao Banco Master e ao crime organizado com suspeitasfortes de lavagem de dinheiro para o PCC.
Decisão do BC e o que muda
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, assinou em 15 de janeiro a liquidação extrajudicial da Reag Trust/CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, sediada em São Paulo. Segundo nota oficial, a medida foi justificada por “graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do SFN”, sem detalhar publicamente, por enquanto, todos os pontos técnicos. Com a liquidação, as operações da distribuidora são encerradas de imediato, os administradores perdem o controle da empresa e um liquidante nomeado pelo BC assume a gestão, com poderes para levantar ativos, apurar o passivo e organizar o pagamento de credores.
A decisão prevê ainda a indisponibilidade dos bens dos controladores e ex-administradores da instituição, mecanismo previsto na legislação para evitar esvaziamento patrimonial antes da conclusão das apurações. O BC afirma que seguirá “tomando todas as medidas cabíveis para apurar responsabilidades”, o que pode resultar em punições administrativas e no envio de comunicações a outros órgãos, como Polícia Federal, Ministério Público, CVM e COAF.
Relação com o caso Banco Master
A Reag entrou definitivamente no foco das autoridades na segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga um esquema de fraudes financeiras no Banco Master, envolvendo a venda de carteiras de crédito supostamente infladas ao Banco de Brasília (BRB), com impacto estimado em bilhões de reais. Nessas operações, a Reag atuou como parceira do Master na administração de fundos usados para comprar créditos e estruturar produtos financeiros, sendo suspeita de participar das manobras que mascaravam a real qualidade dos ativos.
A liquidação da Reag é vista pelo próprio BC como um desdobramento direto do caso Master, na tentativa de cortar canais de circulação e reciclagem de ativos questionáveis dentro do sistema financeiro. Em notas à imprensa, o BC tem vinculado a decisão ao esforço de “mitigar riscos à solidez do sistema” e de evitar que estruturas usadas no Master continuem operando por meio da Reag ou de empresas ligadas.
Suspeitas de fraude e elo com crime organizado
A Reag também é alvo da Operação Carbono Oculto, que apura a criação de fundos de investimento e a compra de empresas com o objetivo de blindar patrimônio ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) por meio de estruturas formais de mercado de capitais. Investigações indicam que veículos geridos pela Reag teriam recebido recursos de origem suspeita e investido em ativos e companhias usados para lavar dinheiro de facções criminosas, tese ainda em apuração pela PF e pelo Ministério Público.
Mandados de busca autorizados pelo ministro Dias Toffoli, do STF, miraram endereços de sócios e executivos ligados à Reag, com apreensão de carros de luxo, relógios, dinheiro em espécie e bloqueio de bens que, somados, ultrapassam bilhões de reais, segundo a Polícia Federal. Relatórios de inteligência financeira citados nas operações descrevem a atuação da Reag como parte de uma rede que conecta fundos estruturados, bancos médios e empresas de fachada, com potencial de ser um dos maiores esquemas de fraude bancária da história recente, na avaliação do ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Situação dos fundos e dos investidores
Apesar da liquidação da distribuidora, os fundos administrados e geridos pela Reag não foram automaticamente encerrados; eles seguem existindo juridicamente e no mercado, mas sob acompanhamento intenso dos reguladores. A Reag atuava como gestora e administradora de mais de 80 fundos de investimento, muitos deles com cotistas institucionais, fundos de pensão e investidores de alta renda, o que amplia o alcance potencial da crise.
Com a saída forçada da Reag, a tendência é que cotistas e custodiante busquem a substituição do administrador/gestor ou, em casos mais críticos, a liquidação ordenada de determinados fundos, processo que depende de deliberações em assembleias e de aval da CVM. O BC afirma que sua medida se concentra na instituição financeira – a distribuidora – e não diretamente nos fundos, mas admite que as apurações podem resultar em novas ordens e restrições a produtos específicos.
Histórico da Reag e próximos passos
Fundada em 2013, a Reag cresceu rápido, chegou a administrar centenas de bilhões de reais em ativos e se tornou uma das maiores gestoras independentes do país, com presença forte em fundos estruturados e operações de crédito. A empresa mudou de nome para CBSF DTVM, em movimento interpretado por analistas como tentativa de rebranding em meio ao aumento da pressão regulatória e às notícias sobre envolvimento em operações policiais.
Antes mesmo da liquidação, a Reag já respondia a processos na CVM por supostas irregularidades na administração e gestão de fundos, tendo apresentado propostas de termo de compromisso para encerrar processos sancionadores – propostas que foram rejeitadas pelo regulador em 2025. Agora, com a liquidação decretada, a prioridade institucional passa a ser a atuação do liquidante: levantamento de ativos, negociação com credores e cooperação com autoridades, enquanto a Polícia Federal, o Ministério Público, o BC, a CVM e o STF aprofundam as investigações sobre fraudes no caso Master e o uso de fundos da Reag para blindar recursos de origem criminosa.



