Ministro do Turismo transferiu empresas para ex-assessora do pai, suspeita de laranja

O ministro do Turismo, Gustavo Feliciano (União-PB), nomeado em dezembro de 2025, transferiu três empresas de sua propriedade para Soraya Rouse Santos Araújo, uma ex-assessora parlamentar de seu pai, o deputado federal Damião Feliciano (União-PB). A operação, revelada pela coluna Tássio Lorran do Metrópoles, levanta suspeitas de uso de laranja para ocultar patrimônio às vésperas de assumir a pasta.

Empresas repassadas em dezembro de 2025

As transferências ocorreram sucessivamente no último mês de 2025, coincidindo com a nomeação de Feliciano ao Ministério do Turismo pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As empresas envolvidas são:

  • União de Ensino Superior da Paraíba Ltda (UniPB), uma instituição de ensino superior.
  • Sunset Business.
  • GCF Construções e Empreendimentos Imobiliários Ltda.

Juntas, elas somam capital social de R$ 400 mil. Duas delas, ligadas à construção civil, foram vendidas por R$ 100 mil cada a Soraya, conforme documentos registrados na Junta Comercial da Paraíba (Jucep-PB). No caso da UniPB, o repasse das 200 mil cotas não especifica pagamento, limitando-se à declaração de Feliciano de que “recebeu todos os seus direitos e haveres”.

Perfil da “nova sócia”: de assessora a empresária milionária

Soraya Rouse Santos Araújo, de 43 anos, atuava como assessora de Damião Feliciano até 22 de janeiro de 2026, recebendo R$ 3.529,86 mensais – pouco mais de dois salários mínimos. Residente em uma casa simples em João Pessoa (PB), ela enfrenta dívidas, incluindo IPTU atrasado da própria moradia.

De repente, tornou-se sócia-administradora das três empresas, assumindo controle total. A transformação gerou questionamentos sobre a capacidade financeira de Soraya para arcar com os negócios, especialmente considerando que as construtoras devem mais de R$ 500 mil à União, e a UniPB acumula débitos de R$ 333,9 mil, conforme dados da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN).

Soraya Rouse Santos Araújo, de 43 anos, atuava como assessora de Damião Feliciano até 22 de janeiro de 2026

Indícios de empresas de fachada

As empresas apresentam sinais de inatividade ou simulação. Nenhuma possui site, redes sociais ou presença digital relevante. Os endereços cadastrados na Receita Federal não indicam operações comerciais efetivas: as construtoras operam de locais incompatíveis com o porte declarado, e a UniPB tem sede em uma casa simples.

Mais grave: mesmo após as transferências, os cadastros mantêm e-mails pessoais de Gustavo Feliciano, sugerindo continuidade de controle remoto. Isso reforça a tese de que as firmas seriam de fachada, usadas para ocultar patrimônio do ministro.

Contexto político e nomeação

Gustavo Feliciano, advogado formado em Direito e ex-secretário de Turismo da Paraíba (2019-2021), assumiu o ministério em 23 de dezembro de 2025, substituindo Celso Sabino (União Brasil-PA). Filho de Damião Feliciano, foi indicado por ala governista do União Brasil na Câmara, com apoio do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), para fortalecer a base no Nordeste rumo às eleições de 2026.

Em discurso de posse, Feliciano prometeu turismo “de todos”, com foco em emprego e renda. No entanto, a denúncia expõe contradição com a exigência constitucional de transparência para cargos públicos.

Reações e silêncio oficial

Nem Gustavo Feliciano, Soraya Rouse, Damião Feliciano nem o Ministério do Turismo se manifestaram até o fechamento desta edição. A repercussão ganhou redes sociais e portais regionais da Paraíba, com opositores cobrando investigação da Procuradoria-Geral da República (PGR) por possível lavagem de patrimônio e improbidade administrativa.

Especialistas em direito eleitoral alertam que a manobra pode configurar violação à Lei de Improbidade (Lei 8.429/1992), especialmente se comprovado uso de laranja para burlar impedimentos a agentes públicos. A Receita Federal e o TCU podem ser acionados para auditoria nos negócios.

O caso soma-se a escrutínio sobre nomeações políticas no governo Lula, questionando a lisura de indicações partidárias. Resta saber se a denúncia prosperará ou será arquivada como mais um episódio de Brasília.


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