Depois de 20 anos sem derrotar PCC, promotor critica Trump e Flávio, mas evita autocrítica

Promotor Gakiya declarou ao podcast O Assunto ontem, que a decisão do governo Trump — atendendo a pedido de Flávio Bolsonaro — de designar PCC e CV como organizações terroristas não traria benefícios práticos e ainda abre risco de intervenção militar secreta dos EUA, mas soa vazio diante de duas décadas em que suas investigações não impediram a expansão do Primeiro Comando da Capital pelo país.

Um crítico da política externa de Donald Trump, mas um fracasso interno no combate à maior facção narcoterrorista nacional, o PCC, o promotor
Lincoln Gakiya tem até razão ao apontar perigos de externalização e dos efeitos simbólicos de uma lista estrangeira. Criticar a iniciativa internacional é legítimo, mas o problema é que essa crítica chega de alguém cuja atuação de 20 anos não reverteu a situação: o PCC não só não foi combatido como deveria, mas se fortaleceu, enraizou-se em prisões e ruas, e transformou bairros inteiros e cidades em territórios de medo. Questionar Trump e Flávio é válido; admitir falhas próprias deveria ser imperativo. Gakiya passou 20 anos enxugando gelo.

A expansão, enquanto o Estado hesitava em duas décadas de investigações, operações e denúncias, fez o PCC deixar de ser facção prisional para virar poder multifacetado: controla rotas, impõe taxas, comanda logística e ordena violência de dentro de cadeias, isso sem falar no poderio econômico com infiltrados na política e ao menos R$ 26 bilhões circulando no Mercado Financeiro, sóna Faria Lima.

Comerciantes são ameaçados dioturnamente e pagam por “proteção”, testemunhas se calam por medo, jovens entram nas redes do crime por falta de alternativas reais. A decisão americana pode provocar consequências diplomáticas — mas não resolve de imediato a rotina de coerção e extorsão nas periferias brasileiras. Por enquanto.

Gakiya critica a manobra política de Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente pelo PL, de pedir a inclusão das facções na lista do governo Trump. Porém, criticar a instrumentalização política dos EUA não o exime de ele e todos os governantes das últimas décadas a prestarem contas sobre estratégias adotadas (ou falta delas no Brasil )que não foram suficientes para combater os criminosos, não só do PCC, mas do ComandoVermelho e outras facções que impõem o terror à grande parcela dos brasileiros que hoje vivem acuados, com medo de sair nas ruas e não voltar para casa, vitimas mortais em assaltos por conta de um celular ou tenis. A retórica contra estratégias estrangeiras de combate ao verdadeiro terrorismo imposto pelos marginais soa hipócrita quando não vem acompanhada de autocrítica, transparência sobre operações e um plano claro para enfrentar o problema nacionalmente. Nunca os governos no Brasil tiveram sucesso. Ao contrário fracassam. Seria de propósito? Qual interesse desses governantes em deixar o crime rolar solto? As leis são brandas? Há falhas? Porque grandes líderes criminosos saem impunes até na Suprema Corte?

O custo humano do fracasso

São na maioria moradores de periferia, pequenos comerciantes, motoboys e jovens que pagam a conta mais cara. Em bairros dominados pelo PCC e CV, cobrar “taxas”, controlar o comércio e punir quem resiste virou rotina. Denúncias não são raras, mas o aparato de proteção pública é frágil; investigações se perdem em entraves e prisões viram quartéis do comando do crime. A polícia prende e a Justiça solta. Isso sob às barbas de Gaiyko e outras autoridades que não deveriam deixar isso acontecer.

Criticar Trump não altera essa realidade; exigir mudança de método, sim. Porque Gaiyka não propõe políticas públicas eficientes aos governantes? Porque os governantes fingem que estão combatendo essas facções?

Deixo aqui umas sugestões rasas. O que ainda falta:

  • Revisão pública das estratégias aplicadas nas últimas duas décadas, com avaliação de falhas e resultados.
  • Reforma prisional de fato, interrompendo o uso das cadeias como centros de comando. Isolamento real dos líderes e faccionados. Entrevistas com advogados e parentes apenas através de um vidro blindado e com telefone gravando tudo.
  • Programa sério de proteção a testemunhas e apoio às comunidades vítimas de extorsão.
  • Políticas sociais de longo prazo para reduzir o recrutamento de jovens. E aí vem o pior. O governo que escraviza dando esmolas em forma de bolsas perpetuando a miséria sem qualificar. A economia estrangulada também tem de ser revista. Sem ofertas de trabalho, emprego e renda fica difícil conter o crime organizado.
  • Coordenação federal contínua em parceria com estados e municípios, sem operacionalismos episódicos ou alinhamentos políticos oportunistas.

Gakiya fez a escolha correta ao alertar contra riscos de intervenção externa e contra instrumentalizações políticas. Tudo pode acontecer sim, até Lula sair algemado de dentro do Palácio do Planalto acusado de alguma coisa por Trump como foi Maduro na Venezuela. Gakiya e Lula têm razão. Agora os EUA se consideram no direito de intervir e isso é grave.

Mas um roteiro de crítica ao estrangeiro que não vem acompanhado de autocrítica e de exigência por mudanças internas é insuficiente e moralmente falho. O país precisa de responsáveis que olhem para dentro, expliquem o que deu errado em 20 anos e proponham caminhos reais. Sem isso, a denúncia do perigo externo vira apenas cortina de fumaça para o fracasso doméstico e tentativa de sucesso eleitoral em outubro — e o PCC segue governando as ruas em que o Estado Brasileiro insiste em não entrar e nem existir.


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