A inelegibilidade de Bolsonaro veio 7 meses após a denúncia feita ao TSE. Hoje, estamos a exatamente 7 meses e 20 dias até o primeiro turno das eleições de 2026, em 4 de outubro. A denúncia já está aberta, segundo o próprio TSE que disse estar analisando os fatos.
Por Victório Dell Pyrro
O desfile da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí, na noite deste domingo de Carnaval, comandada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi um ato explícito de campanha para a reeleição, com símbolos, slogans e promessas.
Lula não se manteve só no camarote, mas foi na avenida e posou com dirigentes da escola de samba .

Sob o pretexto de contar a história do petista, a escola levou para a avenida o repertório completo de bandeiras eleitorais do lulismo, dialogando de forma direta com a narrativa que o governo pretende vender nas urnas em 2026.
Desfile com roteiro de marqueteiro
O enredo e a estética do desfile seguiram um roteiro que, na prática, reproduz o material de marketing da campanha de Lula: promessa de redução da jornada de trabalho, “taxação BBB” (bancos, bilionários e bets) e centralidade em programas sociais usados como vitrines eleitorais. O conjunto parecia ter sido escrito por um marqueteiro de campanha, mais preocupado em sedimentar mensagens políticas do que propor reflexão crítica sobre o protagonismo de Lula na história recente do país.

As alas apresentaram o presidente como herói popular linear, do retirante nordestino ao operário que chega ao Planalto, sem espaço para contradições, escândalos ou disputas que também marcam sua trajetória. O uso do jingle “Olê, olê, olá, Lula, Lula” – marca registrada de campanhas desde 1989 – reforçou a sensação de palanque antecipado em plena avenida, aproximando ainda mais o enredo da lógica de comício.
Bandeiras eleitorais em plena avenida
O desfile exibiu, em série, as principais vitrines eleitorais de governos petistas e da campanha à reeleição: Luz para Todos, Minha Casa, Minha Vida, ProUni e Bolsa Família ganharam carros, alegorias e versos celebratórios. Em vez de contextualizar políticas públicas com seus limites, custos e impactos, a escola optou por apresentar um catálogo de “marcas” de governo, como se o Sambódromo fosse extensão de material oficial de propaganda.
Além dos programas consolidados, temas que o Planalto quer testar no eleitorado – como a tributação de super-ricos, a “taxação BBB” e a redução da jornada de trabalho – foram destacados como conquistas inevitáveis, não como propostas sujeitas a debate. Ao transformar agenda de governo em narrativa épica, o desfile esvaziou o caráter crítico do Carnaval e reforçou o uso da cultura como correia de transmissão de um projeto de poder.
Adversários como vilões de enredo
Se Lula foi erguido à condição de protagonista positivo absoluto, seus adversários apareceram caricaturados como vilões, numa dramaturgia pensada para consolidar a polarização. Uma ala batizada de “Menino veste rosa e menina veste azul” ironizou o discurso moral de Damares Alves no governo Bolsonaro, enquanto outra, “Neoconservadores em conserva”, reuniu figuras associadas ao agronegócio, direita religiosa, defensores da ditadura militar e grupos conservadores do Congresso.
Carros e fantasias fizeram alusões diretas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, apresentado como Bozo atrás das grades, e a Michel Temer tomando a faixa de Dilma Rousseff, reorganizando a história política recente a partir do enquadramento preferido do PT. O resultado foi um desfile em que o campo oposto foi reduzido a estereótipos, sem nuance ou contraponto, reforçando a ideia de que a Sapucaí foi convertida em corredor de propaganda governista.
A ex-primeira dama Michelle Bolsonaro (PL), por exemplo, reclamou da alegoria que mostra um palhaço com tornozeleira eletrônica, uma referência direta a seu marido: “Quem foi preso por corrupção foi Luiz Inácio Lula da Silva. Isso é registro judicial e não opinião”, declarou.
Após o desfile da Acadêmicos de Niterói o senador Sergio Moro (União) disse na rede social X disse que “Faltou o carro da Odebrecht e do Sítio de Atibaia no desfile do Lula”. Moro fez referência aos processos que levaram Lula para a cadeia e depois foram anulados pelo Supremo Tribunal Federal, onde o sítio é o triplex do Guarujá foi apontado como um pagamentos de propina ao presidente.
Linha tênue com propaganda eleitoral
Especialistas em direito eleitoral ouviram o sinal de alerta: ao acionar jingle de campanha, exibir bandeiras oficiais, promover propostas atuais e ridicularizar adversários em pleno ano eleitoral, o desfile pisa na fronteira da propaganda antecipada. Nessa semana a ministra Cármen Lúcia do Tribunal Superior Eleitoral disse que o evento pode ser interpretado como propaganda eleitoral em aviso claro, durante julgamento de ação que pedia a proibição da campanha anunciada pela escola de samba.
E todos os requisitos foram cumpridos, como abuso de poder, uso indevido de recursos públicos e desvio de finalidade, especialmente diante de patrocínios e repasses que viabilizaram uma das apresentações mais caras do Carnaval. O ataque aos adversários e a propaganda eleitoral foi feita mesmo assim.
Partidos de oposição, como o Novo, já anunciam ações no TSE para questionar o caráter eleitoral da homenagem e levantar suspeitas de desequilíbrio na disputa. A própria cúpula do governo, ciente do risco, havia acendido o alerta nos dias anteriores, enquanto a direção do PT orientava militantes a evitar símbolos explícitos como “Lula 2026”, número 13 e pedidos diretos de voto na avenida.
Cultura capturada pela campanha
A presença de Lula em camarote oficial, cercado por aliados e autoridades, completou o quadro de capitalização política do espetáculo. Ao mesmo tempo em que o Planalto tenta se descolar da acusação de propaganda irregular, o desfile entrega, em cadeia nacional, uma narrativa que reforça a reeleição como destino natural e reescreve a história recente sob a ótica do governante de turno.
A Sapucaí, que tradicionalmente já foi palco de críticas sociais plurais e sátiras a diferentes governos, aparece, neste episódio, como espaço capturado por um projeto político específico, com pouco espaço para dissenso ou ironia que não sejam dirigidos ao lado oposto. Ao transformar a avenida em passarela de campanha, o Carnaval corre o risco de perder sua força como linguagem crítica autônoma, convertendo-se em mais um braço da disputa eleitoral que promete se acirrar até outubro.
Cabe ao TSE decidir se o carnaval virou palco eleitoral.
Vale lembrar ao TSE que Bolsonaro ficou inelegível acusado de fazer reunião com embaixadores estrangeiros em julho de 2022, onde ele questionou a segurança das urnas eletrônicas, em ato visto como desvio de finalidade para benefício eleitoral e por participar de eventos do 7 de setembro de 2022 (comemorações do Bicentenário da Independência), com uso de recursos públicos para fins de campanha.
A condenação de Bolsonaro veio 7 meses após a denúncia feita ao TSE. São aproximadamente 7 meses e 20 dias até o primeiro turno das eleições de 2026, em 4 de outubro. A denúncia já está aberta, segundo o próprio TSE que disse estar analisando os fatos.
Vale também lembrar que o TSE ainda não viu campanha antecipada, mesmo com a primeira dama Janja desfilando nos ensaios, claramente em campanha eleitoral continuada. Os ensaios tiveram repercussão na mídia desde que a escola anunciou o enredo.
A Acadêmicos de Niterói anunciou o enredo sobre Lula em 9 de julho de 2025, cerca de sete meses antes do desfile. O Samba-enredo foi presentado em 22 de setembro de 2025.



