O Ministério Público da Bahia e forças de segurança estaduais deflagraram uma operação que prendeu oito advogados suspeitos de integrar um esquema de comunicação entre presos de facções criminosas e integrantes em liberdade, com atuação concentrada no presídio de Serrinha. A ofensiva também cumpriu mandados contra detentos custodiados e incluiu buscas em cidades como Salvador, Feira de Santana, Serrinha, Lauro de Freitas, Camaçari e Barreiras.
Segundo as investigações, os profissionais usavam as prerrogativas da advocacia para repassar ordens, mensagens e orientações ligadas à facção, funcionando como uma espécie de elo entre a liderança presa e a estrutura externa do grupo criminoso. A apuração aponta que o esquema extrapolava o exercício regular da defesa e servia para manter a cadeia de comando ativa dentro e fora das unidades prisionais.
Câmeras instaladas com autorização judicial no parlatório registraram, entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, os profissionais recebendo e transmitindo instruções detalhadas sobre a compra e venda de armamentos, contabilidade do tráfico de drogas, além de planejamentos de homicídios e sequestros. Os bilhetes com as diretrizes das quadrilhas eram escondidos pelos advogados sob as roupas íntimas para burlar a fiscalização.

“Nós estamos tratando de indivíduos que se utilizam de uma prerrogativa da advocacia para cometer crime”, afirmou o coordenador do Gaeco do MP-BA, Luiz Ferreira de Freitas Neto. “Denunciamos todos pelo pertencimento ao crime de organização criminosa. Diversos crimes são observados na conversa, desde tráfico de armas, tráfico de drogas, homicídios.”

Entre os nomes já divulgados estão Fernanda Oliveira Borges, apontada como a primeira advogada trans da Bahia, Luan Mascarenhas de Souza, Ícaro Cardoso Viana e Maria Tereza Novaes Martins. Completam a lista Izabela da Silva de Oliveira, Maria Mariana Batista de Oliveira, Tamires Felix Alves Silva e Luã Santos da Costa.
A operação teve impacto porque atingiu profissionais ligados à OAB-BA e expôs o uso indevido de canais formais de atendimento jurídico dentro do sistema prisional. A linha de investigação do Ministério Público sustenta que os advogados não apenas serviam de mensageiros, mas também participavam da engrenagem logística e financeira da organização criminosa, ajudando a manter a disciplina e a coordenação dos presos com o mundo externo.
As autoridades informaram que, além das prisões dos advogados, foram cumpridas 12 ordens judiciais contra detentos e 27 mandados de busca e apreensão. A ação foi articulada entre Secretaria de Segurança Pública, Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização, Ministério Público da Bahia e Polícia Civil.
O caso reforça a preocupação com a infiltração de facções no sistema carcerário e com o uso de estruturas legalmente protegidas para fins ilícitos. Na avaliação dos investigadores, o objetivo era desarticular um mecanismo que permitia a transmissão de ordens entre líderes presos e comparsas em liberdade, preservando a força operacional do grupo criminoso.
Os relatórios detalham que os advogados prestavam assessoria informal fora dos autos processuais e mantinham os detentos informados sobre o fluxo de caixa das facções. Os presos também utilizavam os profissionais para gerenciar a divulgação de fotos e vídeos promocionais de drogas no status de aplicativos de mensagens para atrair compradores.




