Uma construtora que mantém contratos bilionários com o governo do Piauí repassou R$ 1.423.450,19, entre 2025 e 2026, a uma oficina apontada como empresa de fachada e ligada ao deputado federal Júlio César (PSD-PI) e ao filho dele, o deputado estadual Georgiano Neto (PSD-PI).
As informações foram divulgadas pelo site Metrópoles. Segundo a reportagem, a empresa responsável pelos pagamentos é a Construtora Hidros Ltda., que, desde 2022, firmou contratos que se aproximam de R$ 1 bilhão com o governo estadual. A maior parte dos acordos foi celebrada com a Secretaria dos Transportes do Piauí (Setrans).
A pasta é comandada há cerca de três anos por um aliado dos parlamentares. Publicações de veículos locais também apresentam Georgiano Neto como articulador ou “viabilizador” de obras executadas pela Hidros durante a gestão do governador Rafael Fonteles (PT).
Chama a atenção o fato de o homem apontado como dono da oficina dizer que não tem nada a ver com isso tudo. Wilson Marques Campelo Júnior, dono da oficina WMC Jr Auto Center, desligou o telefone logo após ser introduzido ao assunto da reportagem do Metrópoles. “Não tenho nada a ver com isso daí, não. Vou ter que desligar”, declarou.
Pagamentos à oficina
Os repasses à oficina ocorreram nos anos de 2025 e 2026 e somaram mais de R$ 1,4 milhão. A empresa, conforme a apuração, acumula indícios de que funcionaria apenas formalmente, sem estrutura compatível com os serviços e valores movimentados.
A existência dos pagamentos, contudo, não comprova, por si só, a prática de crime. Para confirmar eventual irregularidade, seria necessário verificar a efetiva prestação dos serviços, a capacidade operacional da oficina, os vínculos societários e a origem e destino dos recursos.
A ligação apontada com Júlio César e Georgiano Neto também deverá ser esclarecida por documentos oficiais, como registros empresariais, contratos, notas fiscais, comprovantes de execução e eventuais investigações dos órgãos de controle.
Contratos com o governo
A Construtora Hidros passou a concentrar contratos com o governo do Piauí a partir de 2022. O volume acumulado chega a quase R$ 1 bilhão, segundo a reportagem, com predominância de obras e serviços vinculados à Secretaria dos Transportes.
O valor elevado dos contratos e a relação política atribuída ao comando da Setrans levantam questionamentos sobre os processos de contratação, a fiscalização das obras e a eventual influência de parlamentares na definição dos projetos.
Também é necessário distinguir contratos regularmente licitados de eventuais acordos firmados por dispensa ou inexigibilidade. A análise deve considerar os editais, os critérios de habilitação, a classificação das empresas, os aditivos, os pagamentos e os relatórios de medição.
Histórico de suspeitas
O caso se soma a outras denúncias e investigações relacionadas à contratação de empresas com possível atuação de fachada no Piauí. Em 2024, a Controladoria-Geral da União e a Polícia Federal deflagraram a Operação Epílogo para apurar suspeitas de desvio de recursos, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo serviços contratados por municípios piauienses.
Segundo a CGU, a investigação identificou indícios de superfaturamento, movimentações financeiras entre a empresa investigada e pessoas ligadas a agentes públicos e políticos, além de possível prejuízo superior a R$ 421 mil em serviços periciados.
Em julho de 2026, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal também realizaram operações para investigar fraudes em licitações e desvios de recursos do Fundeb e do Sistema Único de Saúde em municípios do estado. As apurações mencionaram o uso de empresas de fachada e de pessoas interpostas, conhecidas como “laranjas”.




