Correios suspendem contrato com empresa ligada à lobista amiga de Lulinha

Polícia Federal apura se Roberta Luchsinger efetivou contratos com o governo federal; estatal assume gestão de empréstimos consignados e novas operações ficam suspensas até 1º de outubro

Os Correios suspenderam, nesta semana, o contrato com a Safe Consig Tecnologia da Informação na plataforma Artemis, empresa ligada à lobista Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alegar que não conhece Roberta Luchsinger, a companhia realizava a gestão de empréstimos consignados em folha de pagamento para a estatal. Com a mudança, os Correios assumirão diretamente o serviço.

Em nota, os Correios afirmaram que já iniciaram os procedimentos técnicos e jurídicos para encerramento do contrato da plataforma Artemis e para a transição do serviço, “com as cautelas necessárias para assegurar a continuidade das operações e a adequada gestão das informações, com a devida notificação à empresa sobre a rescisão do contrato”. A gestão dos consignados pela própria estatal terá início em 1º de outubro, com a retomada de novas operações. Até lá, novas operações estarão suspensas, mas os contratos já existentes não serão impactados e continuarão com os descontos processados normalmente em folha de pagamento. Os empréstimos com o fundo de pensão Postalis permanecem inalterados.

Investigação da PF sobre atuação de Roberta Luchsinger

A decisão ocorre enquanto a Polícia Federal (PF) investiga a lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, por tráfico de influência relacionado a contratos com órgãos públicos. A suspeita de atuação nos Correios surgiu a partir de uma minuta de contrato encontrada no celular de Luchsinger e de mensagens em que ela cita a estatal.

O documento localizado pelos investigadores se refere a um acordo entre a RL Consultoria e Intermediações, da qual Roberta é sócia, e a Safe Consig, especializada em fornecer plataforma para gerenciar empréstimos consignados de servidores públicos. No arquivo, há previsão de pagamento à consultoria de Luchsinger de comissão de 50% sobre as vendas feitas pela Safe Consig. “A título de comissão pelas vendas que realizar, fará jus ao percentual de 50%, que deverá ser calculado sobre o valor total verificado no sistema de financiamento da contratante Safe, mais especificamente sobre o valor líquido”, diz a minuta.

A minuta foi anexada a uma mensagem que Roberta enviou a um interlocutor em 13 de maio de 2024: “Saulo me mandou revisado agora. Vou assinar, tá?”. A investigação apura se o nome citado é o de Saulo de Tasso Alves Caracas Dino, sócio da Safe Consig. Procurado, ele disse desconhecer qualquer contrato entre sua empresa e a de Luchsinger. Outro sócio, Rodrigo Feitosa, responsável formal pela assinatura do contrato com os Correios, afirmou que a empresária e Lulinha não intermediaram a negociação.

Contrato com os Correios

Duas semanas depois da mensagem de Roberta, em 28 de maio de 2024, a Safe Consig foi contratada pelos Correios. O acordo, firmado sob regime de comodato e sem custos para a estatal, prevê o fornecimento de uma plataforma para administração da margem de empréstimos consignados de cerca de 84 mil funcionários. A Safe é remunerada pelas instituições financeiras ao fornecer acesso aos dados dos servidores elegíveis para contrair os empréstimos.

O contrato foi assinado por Fabiano Silva, então presidente da estatal, por Maria do Carmo Lara Perpétuo, que era diretora Econômico-Financeira, Tecnologia e Segurança da Informação, e Getúlio Marques Ferreira, à época diretor de Gestão de Pessoas. As duas áreas eram geridas por indicações de integrantes do PT. Fabiano mantém relação de amizade com Roberta e Lulinha.

O ex-chefe dos Correios integra o Grupo Prerrogativas, que reúne advogados e pesquisadores próximos ao governo Lula. Maria do Carmo foi prefeita de Betim (MG) pelo PT, enquanto Ferreira é ligado ao partido no Rio Grande do Norte. Eles dois e Fabiano já deixaram a estatal.

Em nota, os Correios dizem não ter “conhecimento de irregularidades relacionadas à contratação ou à execução do contrato”. Fabiano confirmou conhecer a empresária e Lulinha, mas negou ter interferido na contratação da Safe ou que sua relação com os dois tenha influenciado decisões da estatal. “Os ritos administrativos nos Correios são cumpridos. Não tem amizade ou camaradagem na instituição. Existe uma governança interna que é cumprida”, disse. Maria do Carmo afirmou que, embora tenha assinado o documento, a elaboração do contrato ficou a cargo de outro setor. “Quem faz o contrato é a área administrativa. Foi feito com transparência, com toda a legalidade. Nunca fui procurada por ninguém para pedir nada. Nunca tive contato com Lulinha e Roberta”, disse a ex-diretora.

Outros contratos de empresas ligadas a Roberta

Além do caso dos Correios, a PF apura se Roberta Luchsinger efetivou outros contratos com o governo federal. Mensagens obtidas a partir da apreensão do celular dela mostram que a lobista atuava para buscar e manter elo nas áreas de tecnologia e saúde.

A 3Structure, empresa de tecnologia de Florianópolis (SC), de Cleber Ribas, fechou mais de R$ 81 milhões em contratos e aditivos com órgãos federais do governo Lula. A Telebras não divulga o valor do contrato de cinco anos celebrado com a firma em 2024. Os R$ 81 milhões são referentes a seis contratos firmados pela 3Structure com órgãos federais. Todos fechados via pregão eletrônico ou ata de registro de preços. Cinco deles foram assinados a partir de 2023, na gestão Lula. O outro foi em novembro de 2022, quando o petista já estava eleito.

Os serviços estão relacionados a soluções para backup, softwares e expansão de serviços de armazenamento. O contrato do fim de 2022 foi com o Exército, por R$ 21,8 milhões. No mês passado, foi assinado um termo de aditivo de R$ 3,6 milhões. Os contratos mais robustos são com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS): em dezembro de 2023, a pasta contratou a empresa por R$ 31,2 milhões; em novembro de 2025, houve aditivo de R$ 2,7 milhões; e em abril deste ano, novo contrato de R$ 19,2 milhões. Ao todo, a companhia deve receber R$ 53,1 milhões da pasta até 2031. Há ainda contrato de R$ 2,4 milhões com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), firmado em abril deste ano, e outro, de 2024, com o Instituto Nacional de Surdos, de R$ 177 mil.

A PF aponta que Ribas pagou ao menos R$ 2,5 milhões a Roberta Luchsinger entre março de 2024 e dezembro de 2025. Nos diálogos revelados, Roberta cita que valores seriam usados para bancar passagens aéreas de Lulinha.

Além dos R$ 81 milhões em contratos federais, a empresa de Cleber Ribas assinou R$ 5,8 milhões em contratos com o governo do Maranhão, em especial com o Porto de Itaqui, entre 23 de maio e 23 de dezembro de 2024. Uma outra companhia representada por Roberta, a Duosystem, fechou, em 2025, contrato de R$ 12,4 milhões com a Secretaria de Saúde do Maranhão.

Atuação no Ministério da Saúde e caso “Careca do INSS”

Roberta Luchsinger também tentou viabilizar contratos junto ao Ministério da Saúde e à Dataprev, mas não foram concretizados. Na frente de negócios na Saúde, ela se associou a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, e a Lulinha, segundo a PF. O objetivo seria vender medicamentos à base de canabidiol, testes de diagnóstico para dengue e promover parcerias produtivas por meio da Iquego (Indústria Química do Estado de Goiás S.A.).

A PF descobriu que uma minuta de contrato para a venda de medicamentos com canabidiol ao Ministério da Saúde foi enviada por Roberta a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula. Para os investigadores, foi uma tentativa da lobista de pedir ajuda do assessor presidencial para conseguir firmar o contrato com o governo federal. O plano previa a entrega de 1,2 milhão de frascos do medicamento à base de canabidiol por R$ 626 milhões, segundo uma versão do contrato e depoimento prestado aos investigadores. O acordo com o ministério da Saúde não foi fechado em meio à eclosão do escândalo do INSS.

Inquéritos no STF

Lulinha e Roberta Luchsinger são investigados em três inquéritos da Polícia Federal, que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF), por suspeitas de tráfico de influência. A suspeita é que eles tenham atuado para favorecer empresas junto a órgãos federais. Até o momento, no entanto, as investigações não apontaram se algum contrato foi assinado com o poder público em decorrência direta dessa atuação.

Em entrevista ao Jornal Nacional, em 27 de agosto de 2026, Lula afirmou que não conhecia Roberta. Logo em seguida, a oposição começou a explorar o tema, publicando fotos do presidente ao lado da empresária, que haviam sido divulgadas pela própria Roberta nas redes sociais. O desgaste obrigou a campanha petista a publicar uma nota frisando que “a existência desses registros não significa relação pessoal, profissional ou política”. “O presidente Lula é uma figura pública que, ao longo de sua trajetória e especialmente em campanhas e agendas públicas, é abordado por inúmeras pessoas para registros fotográficos”, pontuou.

Defesa nega irregularidades

A defesa de Roberta Luchsinger não se manifestou sobre a suspeita de atuação nos Correios. Em nota, a 3Structure afirmou que ganhou licitações “em estrito cumprimento das normas aplicáveis às contratações públicas” e que “todos os contratos foram firmados com a mais absoluta transparência e sem o favorecimento de quem quer que seja”.