Roberta Luchsinger: Lula, como sempre, não sabia que todos ao seu redor recebem propina em esquema de corrupção de Lulinha

Mensagens, pagamentos e presentes colocam lobista ligada a Lulinha no centro de investigação sobre tráfico de influência e corrupção

Por Victório Dell Pyrro

As investigações da Polícia Federal sobre a atuação da lobista Roberta Luchsinger revelam uma rede de negócios, favores, pagamentos e acesso a integrantes do núcleo político e administrativo do governo Luiz Inácio Lula da Silva ( PT). O caso envolve o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha; o ex-chefe de gabinete presidencial Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola; o então secretário-executivo do Ministério da Saúde Swedenberger Barbosa, o Berger que hoje é braço direito de Lula no Paláciodo Planalto; e a secretária pessoal do presidente, Cláudia Troiano.

Ou seja: Todos ao redor de Lula nadavam na lama da corrupção e só ele não sabia?

As mensagens apreendidas no celular de Roberta mostram que ela chamava Lulinha de “sócio” em conversas com interlocutores. Os diálogos, por si só, não comprovam a existência de uma sociedade empresarial formal, mas indicam uma relação de proximidade e articulação em torno de negócios criminosos com órgãos públicos.

Em um diálogo esclarecedor, Roberta escreveu: “entregar a grana para Fabio”. A mensagem é um dos elementos que passaram a ser analisados pelos investigadores para identificar a origem, o destino e a finalidade de pagamentos associados ao grupo do filho do presidente desatento, para dizer o mínimo sobre Lula pai.

O episódio expõe uma contradição política evidente: enquanto Lula afirma não ter conhecimento das suspeitas envolvendo a empresária mais que ligada ao filho, as mensagens indicam que Roberta mantinha contato com pessoas diretamente ligadas ao presidente e circulava com desenvoltura entre áreas estratégicas do governo. Ela cita viagens no avião presidencial…. Lula não sabia? Ok.

A “sócia” de Lulinha

A Polícia Federal identificou conversas em que Roberta trata Lulinha como “sócio” e discute com ele reuniões, contratos e oportunidades de negócios. Os investigadores também encontraram mensagens nas quais ela cobrava a participação do filho do presidente em tratativas de interesse do empresário Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS.

Segundo a apuração, Roberta recebeu R$ 1,5 milhão de Antunes, divididos em cinco parcelas de R$ 300 mil. Parte dos negócios envolveria contratos e propostas relacionadas ao Ministério da Saúde.

A defesa de Lulinha afirma que as mensagens não indicam crime e que ele não teria participado de irregularidades. Até eu acredito.

O problema político, contudo, não desaparece com a negativa. O que a investigação descreve é uma estrutura em que uma lobista dizia ser sócia do filho do presidente, tratava de negócios públicos e tinha acesso aos principais assessores do Palácio do Planalto. Cabe ao próprio Lulinha explicar por que era chamado de sócio, quais negócios discutia com Roberta e qual foi o destino dos valores mencionados nas mensagens. Mas claro, vai negar.

“Entregar a grana para Fabio”

Uma das mensagens identificadas pela PF registra a orientação: “De lá vc pegará Uber, deixará grana no Fábio e pega o outro carro”. O conteúdo é tratado pelos investigadores como indício de circulação de dinheiro em espécie.

A mensagem não esclarece, isoladamente, o valor, a origem ou a finalidade do dinheiro. Mas, no contexto da investigação, ela se soma a outros diálogos sobre pagamentos, contratos e intermediação de negócios.

Também foram identificadas mensagens que mencionam o pagamento de R$ 26,8 mil a uma agência usada por Lulinha. O conjunto dos dados deverá ser confrontado com extratos bancários, contratos, notas fiscais e depoimentos para verificar se houve lavagem de dinheiro, corrupção, tráfico de influência ou apenas pagamentos privados de natureza lícita.

A expressão “deixar grana”, porém, está longe de ser uma linguagem trivial quando aparece em uma investigação que já identificou pagamentos a servidores públicos, presentes de alto valor e contratos milionários posteriores.

Dinheiro para servidores do governo

Mensagens obtidas pela PF mostram que Roberta determinou a um funcionário que buscasse R$ 60 mil em dinheiro para realizar pagamentos. Segundo a investigação, depósitos foram feitos nas contas de dois servidores do Ministério do Desenvolvimento Social.

Seis meses depois, o ministério contratou a empresa 3Structure IT, do empresário Cleber Ribas de Oliveira, representado por Roberta. O primeiro contrato teria superado R$ 31 milhões. Em novembro de 2025, houve um aditivo de aproximadamente R$ 2 milhões. Em abril de 2026, um novo contrato alcançou R$ 19 milhões.

A sequência temporal não prova, sozinha, que os pagamentos tenham comprado o contrato. Mas é exatamente essa conexão que a PF investiga: dinheiro entregue a servidores, atuação de Roberta como intermediária e contratação posterior de uma empresa por valores milionários.

A defesa de Roberta não comentou os pagamentos. A 3Structure afirmou que seus contratos com o governo foram firmados de acordo com as normas de contratação pública e submetidos a análises técnicas e auditorias.

O caso Marcola

A investigação também encontrou transferências e pagamentos feitos por Roberta em benefício de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que foi chefe de gabinete de Lula.

Segundo dados reunidos pela PF, Roberta teria pago mais de R$ 217 mil em despesas pessoais de Marcola. Entre os pagamentos aparecem:

  • Fatura de cartão de crédito de aproximadamente R$ 95 mil.
  • Boleto de consórcio de cerca de R$ 48 mil.
  • Parcelas de financiamento de veículo que somaram aproximadamente R$ 26 mil.
  • Joias de diamantes avaliadas em cerca de R$ 9,2 mil.

Outras reportagens apontam que o total de pagamentos ou despesas quitadas pode chegar a R$ 249 mil. Marcola afirma que os valores corresponderam a um empréstimo pessoal, posteriormente quitado. Roberta, por sua vez, declarou que se tratava de uma “ajuda a um amigo”.

A divergência não é semântica. Um empréstimo formal, com contrato, prazo e quitação comprovada, é uma operação privada. O pagamento de cartão, consórcio, carro e joias para um agente público ou ex-agente público, sem transparência e em meio à intermediação de negócios, pode assumir outra natureza jurídica.

A PF também localizou mensagens em que Marcola teria pedido a Roberta um quadro avaliado em aproximadamente 100 mil euros, o equivalente a cerca de R$ 600 mil, conforme a cotação considerada na época.

Presentes para Berger

As mensagens indicam que Roberta presenteou Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger, então secretário-executivo do Ministério da Saúde e hoje assessor próximo do presidente.

Entre os itens citados estão:

  • Relógio Cartier Tank de ouro avaliado em R$ 66 mil.
  • Quadro do artista Antonio Veronese comprado por 13 mil euros, aproximadamente R$ 82,9 mil na cotação de dezembro de 2024.
  • Ingressos para shows, incluindo camarote para apresentação de Paul McCartney em Brasília.
  • Festa de aniversário em camarote do estádio Mané Garrincha.

A festa, realizada em novembro de 2024, teria sido organizada e custeada por Roberta. O camarote era ligado à empresa 3Structure IT, que posteriormente obteve contratos públicos que, somados, alcançariam cerca de R$ 86 milhões.

Após o evento, Berger e familiares agradeceram à lobista pelas despesas. As mensagens descrevem a festa como uma demonstração de amizade e consideração.

O governo nega que Berger tenha recebido presentes ou vantagens indevidas. Em nota, ele afirmou que nenhuma proposta comercial apresentada por Roberta teve êxito no Ministério da Saúde e que não foi assinado contrato decorrente dessas propostas.

A explicação oficial, porém, não elimina a necessidade de investigação. A questão central não é apenas saber se um contrato específico foi assinado por Berger, mas se uma lobista com interesses empresariais comprou acesso, influência, prestígio e proximidade com autoridades responsáveis por decisões públicas.

Cláudia Troiano e o círculo presidencial

A secretária pessoal de Lula, Cláudia Troiano, também aparece nas mensagens. Segundo os relatos publicados, Roberta teria oferecido ou entregue a ela roupas, ingressos para shows e uma joia.

Em um áudio, Roberta afirma que Cláudia “faz muita coisa” por ela e que, por isso, seria adequado oferecer um presente mais valioso. A lobista também teria se hospedado no apartamento de Cláudia em São Paulo e enviado mensagem informando que levaria outro presente.

O Planalto negou categoricamente que Cláudia tenha recebido presentes ou vantagens indevidas. A Secretaria de Comunicação da Presidência afirmou que tanto ela quanto Berger atuam de acordo com as normas da administração pública e sem interferência externa.

A negativa deve ser registrada, mas também deve ser testada. Se os presentes não foram recebidos, é preciso identificar quem os recebeu, quando foram comprados, quem pagou e por que as mensagens descrevem as entregas como favores pessoais.

Joias, obras de arte e ingressos

O conjunto de vantagens mencionadas na investigação inclui itens que não se confundem com brindes institucionais de baixo valor. São joias, relógios de luxo, obras de arte, ingressos de camarote, festas e pagamentos de despesas particulares.

A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União já apreenderam, em operações relacionadas às fraudes no INSS, dinheiro, carros de luxo, joias e obras de arte. A Operação Sem Desconto apura um esquema em que, entre 2019 e 2024, cerca de R$ 6,3 bilhões foram arrecadados em mensalidades associativas, parte delas cobradas sem autorização de aposentados e pensionistas.

Esse valor não significa que todo o montante tenha sido desviado nem que esteja diretamente vinculado a Roberta ou a Lulinha. A distinção é essencial. O número de R$ 6,3 bilhões corresponde ao total arrecadado pelas entidades investigadas no período; o prejuízo efetivamente fraudado ainda depende da apuração.

No caso específico de Roberta, os valores já mencionados publicamente incluem:

Item ou operaçãoValor divulgado
Pagamentos recebidos do Careca do INSSR$ 1,5 milhão
Pagamentos e despesas atribuídos a MarcolaR$ 217 mil a R$ 249 mil
Relógio Cartier entregue a BergerR$ 66 mil
Obra de Antonio Veronese para BergerR$ 82,9 mil
Joias para mulher ligada a MarcolaR$ 9,2 mil
Contratos da 3Structure no governoCerca de R$ 86 milhões
Contrato da 3Structure no Desenvolvimento SocialMais de R$ 31 milhões
Novo contrato da empresa em 2026R$ 19 milhões
Comissão prevista em contrato da Safe Consig50% das vendas
Possível financiamento da UnigelR$ 500 milhões
Comissão condicionada ao financiamentoR$ 25 milhões

Os valores têm naturezas diferentes: alguns são pagamentos identificados, outros são presentes, contratos públicos, comissões previstas ou valores sob investigação. Não se pode somá-los automaticamente como se todos fossem propina ou dinheiro desviado.

O papel de Lula

Lula afirma não saber dos crimes atribuídos à empresária ligada ao filho. Essa defesa é juridicamente possível: o presidente não responde automaticamente por atos praticados por terceiros, ainda que sejam seus assessores ou familiares.

Politicamente, contudo, a explicação é insuficiente. Roberta não era uma desconhecida distante do governo. Ela circulava com pessoas do núcleo presidencial, tratava de interesses empresariais, distribuía presentes e aparecia em conversas sobre negócios públicos.

A pergunta inevitável é: como o presidente não soube de nada quando a lobista tinha acesso ao seu filho, ao chefe de gabinete, à secretária pessoal e a um dos principais assessores do Ministério da Saúde?

O argumento de que “Lula não sabia” pode ser repetido indefinidamente, mas não responde à estrutura revelada pelas mensagens. Um presidente não precisa conhecer cada conversa privada para ser responsabilizado criminalmente. Porém, em termos de responsabilidade política e administrativa, é legítimo exigir que explique como seu entorno mais próximo se tornou permeável a uma lobista que distribuía presentes, pagava despesas e negociava contratos.

Se Lula realmente não sabia, surge outra pergunta: quem deveria ter sabido? O chefe de gabinete? A secretaria pessoal? A Casa Civil? A Controladoria? A inteligência do governo? Os responsáveis por compliance e integridade?

O que a investigação ainda precisa provar

Até agora, as mensagens e pagamentos revelam indícios graves, mas não equivalem a condenações. A PF ainda precisa esclarecer:

  • Se Roberta efetivamente entregou dinheiro a Lulinha.
  • Qual era a origem dos valores mencionados nas mensagens.
  • Se Lulinha recebeu comissão, remuneração ou participação em negócios.
  • Se Marcola devolveu integralmente os valores que chamou de empréstimo.
  • Se os presentes foram recebidos por Berger e Cláudia.
  • Se houve contraprestação funcional aos pagamentos e presentes.
  • Se contratos públicos foram influenciados por pagamentos ou tráfico de influência.
  • Se houve lavagem de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva ou organização criminosa.
  • Qual foi a participação de cada servidor e empresário.

As defesas dos investigados negam irregularidades. Roberta também afirmou que apenas pediu apoio a Marcola e que os pagamentos foram uma ajuda pessoal. Lulinha nega envolvimento em crimes e diz que as mensagens não demonstram ilegalidade.

Um escândalo que exige explicações

O caso é grave porque mistura dinheiro privado, interesses empresariais, contratos públicos e o círculo íntimo do presidente da República. A política brasileira já assistiu a muitos escândalos em que todos diziam não saber, não lembrar ou não ter responsabilidade sobre o que ocorria ao redor.

A repetição dessa fórmula não pode substituir a investigação.

Quando uma lobista fala em “sócio”, ordena “entregar a grana para Fabio”, paga despesas de um ex-chefe de gabinete, compra joias, distribui relógios e obras de arte e aparece associada a contratos de dezenas de milhões de reais, o mínimo exigível é transparência absoluta.

Lula pode dizer que não sabia. Mas, diante do material apreendido pela PF, dizer que não sabia deixou de ser uma resposta política suficiente. Passou a ser apenas uma alegação que precisa ser confrontada com documentos, extratos, contratos, depoimentos e perícias.

A investigação deve avançar sem proteção partidária, sem blindagem familiar e sem transformar o Palácio do Planalto em um território onde todos têm acesso, todos recebem favores, todos negociam e somente o presidente permanece alheio, sem saber de nada nunca.