Comprovantes bancários e mensagens de celular mostram que a lobista Roberta Luchsinger recebeu ao menos R$ 570 mil em 2024, em pagamentos realizados pouco antes e logo depois de a Prefeitura de Goiânia obter aval do governo federal para contratar um empréstimo de R$ 710 milhões junto ao Banco do Brasil.
Os recursos foram transferidos por empresas e pessoas indicadas pela própria lobista. Parte dos pagamentos foi feita pelo empresário Eduardo “DP” Barros, envolvido no escândalo do “orçamento secreto”. A empresa dele, a Construservice Empreendimentos e Construções, mantinha contratos com a Prefeitura de Goiânia e recebeu mais de R$ 100 milhões durante a gestão do então prefeito Rogério Cruz, do Solidariedade, ex-Republicanos.
Empréstimo financiou obras
O empréstimo de R$ 710 milhões foi contratado para bancar obras de infraestrutura, saúde e educação em Goiânia, incluindo intervenções relacionadas ao BRT Norte-Sul. Segundo o Portal da Transparência do município, a previsão de entrega da obra é 14 de julho de 2029.
Em junho de 2026, a Prefeitura de Goiânia havia utilizado 40% do total contratado. Dos R$ 375 milhões já liberados pelo Banco do Brasil, R$ 287 milhões haviam sido efetivamente gastos em obras de infraestrutura, saúde e educação.
Pagamentos somaram R$ 570 mil
Os comprovantes bancários apontam quatro transferências feitas entre 21 de agosto e 4 de setembro de 2024, totalizando R$ 570 mil:
- 21 de agosto de 2024: R$ 186 mil, enviados pela Construservice.
- 21 de agosto de 2024: R$ 214 mil, enviados pela Construservice.
- 30 de agosto de 2024: R$ 50 mil, enviados pela empresa JJ2 CI Cadastrais.
- 4 de setembro de 2024: R$ 120 mil, com origem não identificada.
As mensagens também indicam a existência de outros repasses. Em 23 de setembro de 2024, o motorista da lobista, Ulisses Viana Júnior, teria recebido “1M” em dinheiro vivo de Quesede Ayres, então secretário-executivo da Secretaria de Saúde de Goiânia. A reportagem não conseguiu confirmar se a referência correspondia a R$ 1 milhão nem a finalidade do valor.
Conversas com o Tesouro
As mensagens mostram que Roberta Luchsinger conversava, desde pelo menos outubro de 2023, com Rogério Ceron, então secretário-executivo da Secretaria do Tesouro Nacional e atual número 2 do Ministério da Fazenda.
Em 4 de julho de 2024, ela escreveu a Ceron: “tenho mais um pedido pra você tb kkkk” e encaminhou o número do processo administrativo referente ao pedido de aval da União para o empréstimo da Prefeitura de Goiânia.
Quatro dias depois, em 8 de julho, a lobista voltou a tratar do tema. “Recurso só pra investimento. Empréstimo que Goiânia tá precisando”, escreveu. Ceron respondeu que a equipe do Tesouro trabalhava nas operações com prefeituras dando prioridade ao cumprimento dos prazos previstos pela Justiça Eleitoral.
Em 11 de julho, Roberta perguntou se Ceron poderia receber o então prefeito Rogério Cruz. O secretário confirmou e forneceu o endereço eletrônico de seu gabinete, orientando que o prefeito poderia solicitar o encontro dizendo que já havia combinado com ele.
O parecer técnico do processo foi emitido em 30 de julho. A manifestação da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional foi concluída em 7 de agosto.
No dia 15 de agosto, Roberta voltou a procurar Ceron e escreveu que o caso de Goiânia estava “assinado”. “Estão super felizes! Vc é o máximo”, disse. Naquele momento, ainda faltava o despacho do então ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Lobista antecipou publicação
Em 30 de agosto de 2024, Roberta informou a Quesede Ayres que o aval sairia nos dias seguintes. “Pode avisar teu prefeito que segunda-feira tá resolvido. Publicado e assinado”, escreveu às 12h37. Quesede respondeu com uma figurinha com a frase: “Eita glória”.
Naquele mesmo dia, Fernando Haddad autorizou a concessão da garantia da União ao empréstimo de R$ 710 milhões. O ato foi publicado no Diário Oficial da União em 2 de setembro, como a lobista havia antecipado.
Ainda no diálogo de 30 de agosto, Roberta pediu para Quesede conversar com o prefeito, afirmando que seria necessário “desenrolar lá”. Na sequência, Quesede enviou um comprovante de pagamento de R$ 50 mil para uma conta no Banco do Brasil ligada a uma servidora do Tribunal de Contas da União, esposa do proprietário da casa alugada por Roberta em Brasília.
A servidora informou que o imóvel é alugado pela lobista por meio de uma imobiliária, mas não revelou o valor mensal do aluguel. Segundo as mensagens, Quesede afirmou que, com aquele depósito, “agora bateu 300”, em referência aos R$ 300 mil solicitados por Roberta em 22 de agosto.
Contas indicadas pela lobista
Em 21 de agosto, Roberta encaminhou a Quesede os dados bancários da RL Consultoria, empresa dela, e da agência TTW Brasil Operações Turísticas. Ela pediu que o pagamento fosse dividido entre as duas contas.
No mesmo dia, a lobista enviou uma mensagem de uma terceira pessoa orientando que os depósitos destinados à agência de turismo identificassem Roberta como beneficiária, pois a empresa recebia “mil pagamentos de outros passageiros”.
No dia seguinte, 22 de agosto, ela enviou dados bancários de mais duas pessoas. Uma delas era uma servidora do Tribunal de Contas da União, para quem deveriam ser pagos R$ 300 mil. A outra era um homem que deveria receber R$ 120 mil. Roberta também pediu “R$ 60 Cash Amanhã”, em Brasília, afirmando que precisava pagar “o dono da casa”.
Em 4 de setembro, Quesede viajou de Goiânia para Brasília. Roberta cobrou valores, passou o endereço de sua residência e pediu que ele comparecesse sozinho. “Mas venha sozinho pq o Fábio não quer ninguém aqui para não dar falação”, escreveu às 15h44. Às 16h58, Quesede enviou comprovante de pagamento de R$ 120 mil para uma conta indicada anteriormente pela lobista. Depois, Roberta informou que ainda seria necessário pagar mais R$ 50 mil em uma conta do Banco do Brasil.
Construservice e Eduardo “DP”
Dois pagamentos feitos em 21 de agosto, que somam R$ 400 mil, foram realizados pela Construservice Empreendimentos e Construções, empresa controlada por Eduardo “DP” Barros Costa.
Eduardo “DP” foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República no caso de desvio de emendas parlamentares conhecido como “orçamento secreto”, que envolveu o ex-ministro das Comunicações Juscelino Filho, do União Brasil do Maranhão.
A Construservice mantinha contratos com a Prefeitura de Goiânia desde 2020. Durante toda a gestão de Rogério Cruz, a empresa recebeu R$ 127 milhões dos cofres municipais. Em julho de 2024, um mês antes dos pagamentos relacionados a Roberta Luchsinger, a construtora havia recebido R$ 1,4 milhão da prefeitura.
Um dos pagamentos feitos pela empresa foi destinado à agência de turismo indicada por Roberta. O outro teve como destinatário João Mateus Teles Santana, jovem de 20 anos que a reportagem não conseguiu identificar.
Governo nega interferência
O Ministério da Fazenda afirmou que a concessão da garantia da União ao empréstimo seguiu critérios técnicos previstos na Lei de Responsabilidade Fiscal e em resoluções do Senado Federal.
Segundo a pasta, Goiânia tinha nota “A” em capacidade de pagamento e cumpria com folga os limites fiscais necessários para a operação. De acordo com a nota, mesmo com a nova dívida, o endividamento do município correspondia a 0,12 vez sua receita corrente líquida, abaixo do teto legal de 1,2 vez. O gasto anual com o pagamento da dívida equivalia a 4,18% da receita, diante de limite de 11,5%.
A assessoria também declarou que “contatos sociais não têm qualquer relação com esse rito técnico, conduzido de forma independente pela STN e pela PGFN”.
A equipe do atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que ele e o chefe de gabinete, Fábio Terra, “nunca tiveram quaisquer tratativas” com Roberta Luchsinger.
A assessoria de Fernando Haddad informou que o então ministro “nunca teve qualquer contato” com a lobista nem tratou com ela desse ou de qualquer outro tema. Também sustentou que a autorização seguiu o trâmite normal, dentro do prazo de 90 dias, e que os recursos eram do Banco do Brasil, não do Tesouro Nacional.
Ex-prefeito nega contato
A assessoria do ex-prefeito Rogério Cruz afirmou que ele não conhece nem manteve qualquer tipo de contato com Roberta Luchsinger. Questionado sobre um possível encontro com Rogério Ceron antes da liberação do aval, Cruz não respondeu diretamente.
O Ministério da Fazenda declarou não haver registros de que a reunião entre o então prefeito e Ceron tenha ocorrido.
A defesa de Roberta Luchsinger, o advogado de Eduardo “DP” Barros, Quesede Ayres, a Controladoria e a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia — hoje sob a gestão de Sandro Mabel, do União Brasil — não prestaram esclarecimentos. As manifestações serão incluídas caso sejam enviadas.




