Por Victório Dell Pyrro
A decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de prorrogar até as 19h o encerramento da votação em todo o Brasil provocou desorganização e confusão em seções eleitorais de diferentes estados e no Distrito Federal. A ordem foi divulgada pouco depois das 17h, quando parte das urnas já havia sido encerrada, mesários liberados e a totalização dos votos iniciada.
A medida atendeu a pedido da coligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que denunciou dificuldades no transporte público, especialmente na Bahia. Zanin determinou a extensão por duas horas em todas as seções do país e atribuiu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o cumprimento da ordem. A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) também fez um pedido de prorrogação.
Mesários retidos e liberados
Relatos indicam que, em várias seções, mesários foram impedidos de deixar os locais de votação após a decisão.
Em uma escola no Paranoá, em Brasília encerrou às 17h e não reabriu. Houve início de confusão entre os mesários que não queriam permanecer depois das 17h e coordenadores da seção. Nessa unidade não houve retorno. Um fiscal partidário informou ao BSB Revista que realmente não havia necessidade porque nenhum eleitor havia deixado de votar naquela seção.
Em uma escola no Rio de Janeiro, a orientação inicial foi de que nenhum mesário pudesse ir embora até que fossem revelados novos detalhes sobre a prorrogação. Às 17h40, porém, os profissionais foram liberados para retornar às casas.
A demora na comunicação oficial gerou insegurança entre presidentes de seção e mesários. Alguns aguardavam ofício do TSE ou orientação dos tribunais regionais eleitorais, enquanto outros já tinham concluído o fechamento das urnas e impresso os boletins.
Urnas fechadas não podem ser reabertas
O principal obstáculo à prorrogação é técnico: após o encerramento, a urna eletrônica deixa de aceitar novos votos e não existe procedimento para reabri-la no mesmo turno. Especialistas afirmam que urnas já fechadas não podem voltar a receber eleitores.
No Rio Grande do Sul, o TRE confirmou que urnas encerradas às 17h não seriam reabertas, mas que a prorrogação permaneceria válida para seções que ainda estivessem abertas. O tribunal destacou que, nas seções em funcionamento, os mesários deveriam assegurar o voto aos eleitores presentes.
Relatos de fechamento antecipado
Em Belo Horizonte e na região metropolitana, diversas seções fecharam às 17h, mesmo após a decisão do STF. Na Escola Estadual Elpídio Aristides de Freitas, no bairro do Camargos, as urnas foram lacradas e os mesários liberados antes de a orientação chegar ao local.
No Rio de Janeiro, fiscais do TRE relataram que todas as urnas do Ciep Presidente Tancredo Neves, no Catete, foram encerradas às 17h e que os boletins já haviam sido impressos. Em Duque de Caxias e na Barra da Tijuca, mesários e fiscais também afirmaram que a notificação da prorrogação não chegou a tempo.
Em Brasília, São Paulo e Minas Gerais, mesários relataram que as urnas foram fechadas normalmente às 17h. Em alguns casos, o processo de encerramento já havia começado quando chegou a ordem para reabrir as seções, deixando trabalhadores eleitorais sem saber como proceder.
Tumulto e eleitores na porta
A confusão também atingiu eleitores. Em São Paulo, mesários relataram tumulto, falta de informação e pessoas esperando na porta de colégios eleitorais para saber se poderiam votar. No Catete, no Rio de Janeiro, havia relatos de eleitores no portão pedindo para entrar após o fechamento das urnas.
No Colégio Objetivo, na Avenida Paulista, em São Paulo, as salas e o acesso foram fechados às 17h, mas as zerésimas não haviam sido impressas. A seção recebeu a ordem de reabrir até as 19h, embora não houvesse grande movimento de eleitores no momento.
TSE pausa apuração
Diante da decisão de Zanin, o TSE suspendeu a totalização dos votos, que já havia começado com 0,25% das urnas apuradas. A pausa foi confirmada pelo próprio tribunal e visa preservar a uniformidade da apuração enquanto as seções ainda abertas recebem eleitores até as 19h.
A decisão não detalhou, porém, como a Justiça Eleitoral deveria lidar com as urnas já encerradas — ponto apontado por especialistas como o principal entrave à aplicação nacional da prorrogação.
Repercussão no TSE
A forma como Zanin determinou a extensão do horário gerou desconforto entre ministros do TSE. A reclamação envolve o fato de a decisão ter sido tomada de forma urgente e abrangente, quando parte relevante do processo eleitoral já estava encerrada em todo o país.
Até o fechamento desta reportagem, não havia informação oficial consolidada sobre quantas seções conseguiram reabrir, quantos eleitores foram impedidos de votar ou quais medidas serão adotadas pela Justiça Eleitoral para eventual reparação dos casos de voto não registrado.





