Lula não ganhou as eleições, Flávio foi quem perdeu; o país que votou contra o que não queria

Por Victório Dell Pyrro

Há vitórias que se celebram com fogos, discursos e lágrimas de emoção. E há vitórias que se explicam com uma conta simples: alguém precisava perder. Neste domingo, Lula não conquistou o Brasil por entusiasmo; Flávio Bolsonaro o entregou, voto a voto, à rejeição.

O presidente foi reeleito com 51,77% dos votos válidos, contra 48,23% do senador. Números que parecem robustos até se lembrar do que estava em jogo: não era uma escolha entre dois projetos de país, mas entre dois incômodos. O eleitor não foi às urnas para afirmar quem queria; foi para decidir quem suportava menos.

Uma vitória de aluguel

Lula saiu vencedor, sim. Foi acachapante. Mas chamar isso de aclamação seria confundir urna com amor. O petista não venceu porque convenceu o país de que seu terceiro mandato foi brilhante. Venceu porque, diante da alternativa, milhões de brasileiros concluíram que o diabo conhecido ainda era preferível ao despreparado herdeiro bolsonarista sem surpresa.

Há insatisfação geral, exceto dos seguidores aficionados, com a economia, com a segurança, com a sensação de que o governo fala mais do que resolve. Lula sabe disso. E, no entanto, transformou essa insatisfação em eleitorado útil, não por carisma renovado, mas por aritmética do medo: melhor o velho problema do que o risco de voltar ao passado. Ele investiu pesado com im “exército” que soube espalhar mais informações negativas sobre o oponente do que seu adversário.

Flávio: o candidato que assustou até os seus

Flávio Bolsonaro, por sua vez, entrou na campanha como herdeiro de um sobrenome que ainda mobiliza multidões — e saiu como a prova de que sobrenome não governa. Ele terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% contra 45,16% de Lula, tamanha frustração do eleitorado com o mandatário e parecia ter o jogo nas mãos. Tinha o antipetismo, tinha a base, tinha o nome. Faltou-lhe, porém, algo essencial: deixar de ser uma extensão de Jair e outras coisinhas mais indispensáveis para quem disputa uma eleição majoritária.

O eleitor olhou para Flávio e não viu um projeto. Viu continuidade. Viu o mesmo vocabulário, as mesmas brigas, a mesma promessa de vingança vestida de pátria. E, quando a escolha ficou entre o cansaço e o susto, o susto ganhou. O ” exército” de Lula assustou até quem nem queria comparecer e a abstenção foi menor no segundo em relação ao primeiro.

A derrota foi tão constrangedora que Flávio preferiu não reconhecer o resultado e anunciar que pedirá anulação da eleição. É o velho manual: quando a urna não confirma o desejo, a urna vira suspeita. Não é defesa da democracia; é a recusa infantil de aceitar que o povo também tem o direito de dizer não.

O país não escolheu; sobreviveu com o que acreditou ser menos pior

A rejeição era o verdadeiro candidato deste pleito. Na véspera do segundo turno, 46% dos eleitores diziam que não votariam em Lula de jeito nenhum; 45% diziam o mesmo de Flávio. Ou seja: quase metade do país rejeitava cada um dos dois. O vencedor não foi amado — foi apenas menos repudiado.

Essa é a verdade incômoda que nenhum dos dois aceitará dizer em público. Lula não recebeu um mandato de confiança irrestrita; recebeu um cheque em branco assinado com medo. Flávio não perdeu porque o Brasil abraçou a esquerda; perdeu porque nem mesmo parte da direita suportou a ideia de mais um Bolsonaro no Planalto.

A lição que ninguém aprenderá

Lula interpreta o resultado como validação. Diz que o povo o confirmou, que a democracia venceu, que o Brasil escolheu continuar. Vai esquecer, convenientemente, que boa parte desses votos foi um “nunca mais” dirigido ao adversário.

Flávio interpreta a derrota como fraude, perseguição ou conspiração. Vai esquecer que foi ele quem transformou uma candidatura com chances reais em um referendo contra a própria família e a sí mesmo.

E o eleitor, esse personagem esquecido do espetáculo, ficará mais uma vez com a sensação de que não escolheu um futuro: apenas afastou, por mais quatro anos, o pesadelo que considerava pior.

Lula não ganhou as eleições. Flávio Bolsonaro é quem perdeu — e perdeu de um jeito que deveria envergonhar os dois lados. Porque, quando a política se reduz a escolher entre o desgaste e o medo, não há vencedor de verdade. Há apenas um país que segue esperando candidatos à altura da própria história.