Por Victório Dell Pyrro
O Paraguai prendeu o ex-presidente Santiago Peña nesta sexta-feira (6), no âmbito da investigação sobre o colapso do Ueno Bank, uma espécie de caso Master paraguaio.
Já no Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue no cargo, intocado, mesmo diante de mensagens que indicam que Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, que está preso, “presenteou” um uísque avaliado em meio milhão de reais (R$ 500 mil) para presenteá-lo. Lula mandou recado agradecendo e dizendo que gostou muito, segundo investigações da PF.
A diferença não está na gravidade dos fatos — está na coragem das instituições em agir. Ambos os presidentes incorrem em crime.
O contraste que envergonha
No Paraguai, a Justiça e o Legislativo agiram rápido: Peña foi destituído, investigado criminalmente e preso em domicílio, no mesmo dia em que o Senado aprovou seu afastamento. A acusação envolve suspeita de lesão de confiança e outros crimes ligados ao colapso do Ueno Bank, que deixou milhões de clientes sem acesso imediato aos recursos.
No Brasil, o escândalo do Banco Master segue em investigação, com Vorcaro preso desde março e indiciado pela Polícia Federal por gestão fraudulenta, organização criminosa e lavagem de dinheiro, em um esquema que teria causado prejuízos de R$ 50 bilhões Brasil afora. Só no BRB foram cerca de R$ 18 bilhões em golpes..
Mas, enquanto banqueiros, operadores e familiares de Vorcaro são alvo de prisões e medidas cautelares, o ocupante do Planalto permanece intocado, mesmo diante de mensagens que indicam a encomenda de um presente de meio milhão de reais para ele.
O presente que ninguém explica
As mensagens encontradas no celular de Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal, mostram que o banqueiro pediu a um assessor uma garrafa rara de Macallan 1945, avaliada em cerca de R$ 500 mil, para presentear o presidente Lula. “Preciso dar pro Lula”, escreveu Vorcaro, segundo a reportagem.
Dias depois, o advogado Walfrido Warde teria informado a Vorcaro que esteve com o presidente e que Lula teria agradecido pelo presente. “Ele agradeceu mais uma vez o whisky e mandou um abraço”, diz a mensagem atribuída ao advogado.
O Planalto nega que Lula tenha recebido a garrafa ou mandado recados. O próprio presidente, em entrevista, disse não lembrar se recebeu o presente e ironizou: “Se me deu uísque, já bebi”.
Mas a negativa não encerra o problema. Se a garrafa foi entregue, temos um presente de meio milhão de reais vindo de um banqueiro sob investigação — um escândalo ético e político de primeira grandeza. Se não foi entregue, temos um banqueiro investigado por fraude encomendando um presente de meio milhão de reais para o presidente da República e um assessor afirmando que Lula o agradeceu — o que, no mínimo, exige uma investigação séria e imediata.
A lei que não alcança o topo
A legislação brasileira prevê regras sobre presentes, tráfico de influência e conflito de interesses para agentes públicos. Um presente de R$ 500 mil de um empresário sob investigação, dirigido ao presidente da República, está muito longe de qualquer limite razoável de decência ou legalidade.
E, no entanto, o que vemos é silêncio institucional. Não há prisão, não há afastamento, não há investigação criminal formal e pública contra o presidente com base nesse episódio. A Justiça atua com rapidez contra banqueiros, operadores e subordinados, mas hesita quando o alvo é o ocupante do Planalto.
Isso não é aplicação da lei. É seletividade. É a mensagem de que, no Brasil, o poder protege quem está no topo, enquanto os de baixo pagam o preço.
O Paraguai mostra o caminho
No Paraguai, a crise do Ueno Bank levou o presidente Santiago Peña a ser destituído pelo Senado e preso em domicílio, no mesmo dia em que o impeachment foi aprovado por unanimidade. A Procuradoria-Geral do país abriu investigação criminal contra ele e o ex-presidente do Banco Central também foi alvo de prisão.
No Brasil, o escândalo do Banco Master é comparado ao caso paraguaio — e, no entanto, o presidente brasileiro segue no cargo, sem qualquer consequência política ou judicial imediata. A diferença não está na gravidade dos fatos, mas na coragem das instituições em agir.
A cobrança que falta
O Brasil precisa de uma resposta institucional à altura do escândalo. Isso significa investigar com rigor o episódio do uísque, apurar se houve entrega, quem intermediou, quais favores foram pedidos ou concedidos e se houve tráfico de influência ou corrupção.
Significa também revisar a legislação sobre presentes e conflito de interesses para agentes públicos de alto escalão, com regras claras, prazos definidos e consequências reais para quem descumprir. Não basta uma lei no papel; é preciso vontade política para aplicá-la, mesmo — especialmente — contra o presidente.
Enquanto isso não acontecer, o Brasil continuará sendo um país onde banqueiros caem, mas presidentes flutuam. E a população, que paga a conta das crises e das fraudes, seguirá assistindo à impunidade de quem deveria dar o exemplo.
Nota editorial
Esta é uma coluna de opinião. As acusações contra Lula, Vorcaro e demais envolvidos são alegações em fase de investigação e não constituem condenação judicial. A Presidência da República nega o recebimento do presente e o envio de recados ao banqueiro.





