Em resposta à Lei de Acesso à Informação, Presidência negou ter registrado reuniões de Guido Mantega, inclusive com Vorcaro
O Palácio do Planalto informou que não guarda registros oficiais da reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o banqueiro Daniel Vorcaro, encontro realizado fora da agenda em dezembro de 2024 e hoje no centro de pressões políticas e de investigações sobre o caso Banco Master.
O que foi o encontro Lula–Vorcaro
Em 4 de dezembro de 2024, Lula recebeu no gabinete presidencial, no Palácio do Planalto, o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, em uma reunião que não constou na agenda oficial da Presidência. O encontro foi articulado pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que chegou ao Planalto acompanhado de Vorcaro e do ex-sócio Augusto Lima, passando antes pelo gabinete do chefe de gabinete pessoal de Lula, Marco Aurélio “Marcola”. Segundo relatos de integrantes do governo à imprensa, Vorcaro usou a conversa para relatar dificuldades de mercado e a situação do Banco Master, já em meio a problemas de liquidez que antecederiam a crise aberta da instituição.
Lula afirma que respondeu dizendo que qualquer questão envolvendo o banco deveria ser tratada de forma técnica pelo Banco Central, sem interferência política do Planalto. Além de Lula e Vorcaro, participaram da reunião o então indicado à presidência do Banco Central, Gabriel Galípolo, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e, segundo alguns relatos, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro mostram o banqueiro descrevendo o encontro à namorada como “ótimo” e “muito forte”, comemorando o resultado da conversa no Planalto.
As idas de Vorcaro ao Planalto
Registros do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) indicam que Daniel Vorcaro esteve no Palácio do Planalto ao menos quatro vezes entre 2023 e 2024, todas em visitas que não constaram na agenda pública da Presidência. Três dessas idas tiveram registro de entrada feito pelo GSI, mas sem detalhar com quais autoridades ele se encontrou nas respectivas datas. A visita específica de 4 de dezembro de 2024, porém, não aparece no relatório de visitantes do Planalto divulgado pelo GSI, apesar de ter ocorrido dentro do prédio e de envolver o próprio presidente.
Em nota, o governo afirmou que, nas datas em que há registros de visita, Daniel e seu pai, Henrique Vorcaro, não foram recebidos por Lula nem por ministros, e acusou adversários de tentarem “associar o caso ao Executivo” para desviar o foco dos responsáveis pela fraude no Banco Master.
Planalto diz não ter registros da reunião
Embora o encontro com Vorcaro tenha ocorrido no gabinete presidencial, o Palácio do Planalto sustenta que não há registro do evento na agenda oficial nem nos relatórios do GSI relativos àquela data. Questionado pela imprensa sobre a ausência de dados formais, o governo não detalhou por que a reunião não foi lançada na agenda pública nem esclareceu quem determinou o formato reservado da audiência. O Planalto também não divulgou, até o momento, registros de imagens de circuito interno que possam comprovar a entrada e a circulação de Vorcaro e seus acompanhantes naquele dia, alegando que não dispõe de documentação adicional além daquilo que já foi fornecido a órgãos de controle em episódios anteriores.
Na prática, a combinação de encontro fora de agenda, ausência de registro formal de entrada e inexistência de arquivos de vídeo acessíveis abre uma lacuna documental sobre um ato presidencial diretamente ligado a um banqueiro enrolado em suspeitas de fraude bilionária.
Pressão política e investigações
A reunião reservada ganhou novo peso após a deflagração da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga um suposto esquema de venda de ativos inexistentes e outras irregularidades envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB). Mensagens extraídas do celular de Vorcaro e enviadas à CPMI do INSS indicam contatos do banqueiro com ministros do governo, parlamentares e autoridades do Judiciário, ampliando a dimensão política do caso.
A oposição reagiu ao encontro fora de agenda com Lula, cobrando explicações da Casa Civil sobre a falta de transparência e levantando dúvidas sobre possível conflito de interesse, uma vez que o Master estava sob investigação quando o banqueiro foi recebido no Planalto. Parlamentares do Partido Novo, entre outros, protocolaram requerimentos de informação e passaram a defender a convocação de auxiliares do presidente e integrantes do GSI para esclarecer quem autorizou a entrada de Vorcaro e por que não houve registro adequado.
No campo jurídico, o Supremo Tribunal Federal se envolveu na controvérsia ao determinar a abertura de inquérito para apurar vazamentos de dados sigilosos de Vorcaro à imprensa e ordenar que a CPMI devolvesse parte do material compartilhado. O STF também divulgou notas tentando afastar suspeitas sobre o conteúdo das conversas envolvendo ministros, enquanto peritos e a PF defendem a integridade técnica dos procedimentos de extração de dados usados na perícia.
Falta de transparência e perguntas em aberto
A ausência de registros oficiais da reunião entre Lula e Vorcaro tensiona o discurso de transparência defendido pelo governo e reabre debate sobre a publicidade de agendas presidenciais em casos sensíveis. Sem documentos formais do Planalto, o que se sabe hoje sobre o teor do encontro vem basicamente de versões de bastidores, de declarações posteriores de Lula e, sobretudo, das mensagens privadas do próprio Vorcaro coletadas pela PF.
Persistem perguntas sem resposta: quem ordenou que a reunião fosse mantida fora da agenda, que instâncias de controle interno foram informadas, e por que não há, segundo o governo, arquivos de entrada ou imagens que permitam reconstruir com precisão a cronologia daquele 4 de dezembro de 2024. Enquanto essas lacunas não são esclarecidas, o Planalto continua sob pressão de oposicionistas e da opinião pública para explicar como e por que um encontro tão delicado politicamente acabou acontecendo na prática sem deixar rastro documental oficial.


