Dino blinda amiga de Lulinha no STF e levanta suspeitas de dois pesos e duas medidas no escândalo bilionário do INSS

Por Victório Dell Pyrro

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, votou nesta sexta-feira (13) para manter suspensa a quebra de sigilo bancário e fiscal da empresária Roberta Moreira Luchsinger, apontada como amiga de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A decisão ocorre no julgamento virtual que analisa a liminar concedida pelo próprio ministro contra atos da CPMI do INSS, comissão que investiga um esquema estimado em até R$ 37 bilhões envolvendo fraudes em aposentadorias e empréstimos consignados.

A decisão de Dino mantém suspensos os requerimentos aprovados pela comissão parlamentar que determinavam a quebra de sigilo de dezenas de investigados — entre eles Lulinha e sua amiga empresária — sob o argumento de que as medidas foram aprovadas “em bloco”, sem fundamentação individualizada. Para o ministro, mesmo com poderes investigativos equivalentes aos do Judiciário, as CPIs precisam justificar de forma específica cada quebra de sigilo por se tratar de uma medida excepcional que afeta direitos fundamentais.

Na prática, a decisão derrubou 87 requerimentos aprovados pela CPMI em 26 de fevereiro, em votação conjunta. Em sua liminar, concedida no dia 4 de março e posteriormente ampliada no dia seguinte, Dino sustentou que as quebras de sigilo não podem ocorrer de forma genérica ou simbólica. Segundo ele, votações em bloco que determinem medidas invasivas violariam o devido processo legal.

A justificativa jurídica, porém, abriu uma tempestade política e institucional. Críticos apontam que o Supremo passou anos validando investigações amplas, medidas coletivas e decisões padronizadas em outros processos de grande repercussão nacional — especialmente nos julgamentos relacionados aos atos de Ataques de 8 de janeiro de 2023. Naquele contexto, centenas de réus foram condenados com acusações semelhantes e decisões consideradas por muitos juristas como repetitivas ou padronizadas.

É justamente essa comparação que alimenta a acusação de “dois pesos e duas medidas” dentro do próprio tribunal. Enquanto manifestantes do 8 de janeiro receberam penas duríssimas sob acusações semelhantes, agora o Supremo se mobiliza para impedir que uma comissão parlamentar investigue possíveis vínculos financeiros de personagens ligados ao escândalo bilionário que atingiu aposentados e pensionistas do país.

A CPMI investiga um esquema que teria desviado recursos de aposentadorias por meio de fraudes em consignados e descontos irregulares. Entre os nomes citados nas investigações está o lobista Antônio Camilo Antunes, apontado como operador de negócios ligados ao setor de benefícios previdenciários. Conversas e registros analisados pela Polícia Federal indicariam relações de proximidade entre personagens investigados e pessoas do círculo de Lulinha, o que motivou a CPMI a pedir o acesso a dados financeiros.

É nesse ponto que a decisão de Dino provoca indignação entre parlamentares da comissão. Para os integrantes da CPMI, impedir a quebra de sigilo justamente quando surgem indícios de ligações financeiras pode inviabilizar a própria investigação. A comissão já anunciou que pretende recorrer dentro do próprio STF para tentar restabelecer os atos investigativos.

A controvérsia ganha contornos ainda mais sensíveis por causa da trajetória política de Flávio Dino. Ex-governador do Maranhão e ex-ministro da Justiça no governo Lula, Dino chegou ao Supremo indicado diretamente pelo presidente. Durante a cerimônia de posse, o próprio Lula afirmou que o magistrado seria o “primeiro comunista” a integrar a história da Corte.

Essa declaração voltou ao debate público agora que o ministro protagoniza uma decisão que beneficia personagens ligados ao entorno político do presidente. Para críticos do governo, a situação levanta dúvidas sobre imparcialidade institucional e reforça a percepção de que o STF estaria se transformando em uma espécie de escudo jurídico para aliados do poder.

O caso expõe uma fissura cada vez mais visível entre o Congresso e o Supremo. Parlamentares acusam a Corte de interferir nas prerrogativas investigativas do Legislativo, enquanto ministros defendem que as comissões parlamentares não podem agir sem respeitar limites constitucionais.

No centro dessa disputa está uma pergunta que cresce dentro e fora de Brasília: por que, em um escândalo que envolve bilhões retirados de aposentados — justamente a parcela mais vulnerável da população — o primeiro movimento do Supremo é bloquear instrumentos de investigação?

A resposta institucional ainda depende do julgamento final do plenário do STF, que ocorre em sessão virtual e deve ser concluído ainda nesta semana. Mas politicamente, o episódio já produziu um efeito imediato: reacendeu o debate sobre seletividade judicial e sobre o papel de um Supremo cada vez mais presente — e cada vez mais contestado — nas disputas políticas do país.