Senador é investigado por usar expressão “será delatado” em postagem considerada falsa e vexatória pelo presidente da República; PF e PGR veem crime e Moraes dá 60 dias para investigações
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, determinou a abertura de inquérito para investigar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, por crime de calúnia contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A decisão ocorre após postagem do parlamentar em rede social na qual utilizou a expressão “será delatado”, interpretada pela Polícia Federal (PF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR) como imputação falsa de colaboração premiada ao chefe do Executivo.
Origem da investigação e interpretação da PF e PGR:
A investigação teve início a partir de manifestação da PGR, que identificou na conduta do senador indícios concretos de crime. Segundo as autoridades, Flávio Bolsonaro fez menção direta à colaboração premiada – acordo entre investigado, Ministério Público e PF no qual o delator fornece informações em troca de benefícios penais – ao afirmar publicamente que o presidente Lula “será delatado”.
A Procuradoria sustentou que a declaração, proferida em ambiente virtual público, configura atribuição falsa e vexatória de delitos ao chefe do Executivo, caracterizando calúnia. A delação premiada, instrumento previsto na Lei 12.850/2013, pressupõe confissão de crimes e colaboração efetiva com as investigações, o que não se verifica no caso apontado.
A Polícia Federal endossou a tese, afirmando que a expressão utilizada pelo senador imputa falsamente fatos criminosos ao presidente em plataforma de ampla divulgação, ampliando o alcance da suposta ofensa.
Enquadramento legal e decisão de Moraes:
Alexandre de Moraes enquadrou a conduta no artigo 138 do Código Penal, que tipifica calúnia como a imputação falsa de fato definido como crime. A pena prevista é de detenção de 3 meses a 1 ano, além de multa, com possibilidade de aumento em um terço se cometida contra o Presidente da República, conforme o artigo 141, inciso II, do CP.
O ministro destacou ainda a divulgação em rede social como fator agravante, considerando o alcance massivo da publicação e sua potencialidade lesiva à honra do investigado. Moraes rejeitou qualquer sigilo processual, determinando a publicidade dos autos por ausência de elementos que justifiquem o afastamento da transparência.
A PF recebeu prazo de 60 dias para realizar diligências, incluindo oitiva de testemunhas, análise de provas digitais e eventuais perícias em conteúdos postados.
Contexto político e próximos passos:
A decisão ocorre em meio ao ambiente pré-eleitoral de 2026, com Flávio Bolsonaro posicionado como pré-candidato do PL à Presidência. O inquérito pode impactar sua estratégia de campanha, especialmente junto ao eleitorado conservador que vê em investigações contra figuras bolsonaristas uma perseguição política.
A defesa do senador ainda não se manifestou publicamente sobre a determinação judicial. Caberá à Procuradoria-Geral da República avaliar eventuais denúncias após conclusão das investigações policiais.
O caso reforça o histórico de tensões entre o STF e parlamentares da oposição, com Moraes acumulando decisões em inquéritos sobre fake news, atos antidemocráticos e conteúdos considerados ofensivos às instituições.
Repercussão e posicionamento oficial:
Até o momento, nem o Planalto nem a liderança do governo no Senado comentaram o caso. A assessoria de Flávio Bolsonaro informou que o parlamentar será comunicado oficialmente para apresentar defesa.
Juristas ouvidos pelo BSB Revista divergem sobre a interpretação: parte considera a abertura legítima para apurar eventual excesso verbal; outros veem exagero na tipificação, tratando a declaração como crítica política protegida pela liberdade de expressão.
O STF segue como palco de debates sobre os limites entre opinião pública e crimes contra a honra, especialmente em contexto político.







