Por Victório Dell Pyrro
O Exército Brasileiro credenciou o Banco Master para operar empréstimos consignados de militares da ativa e da reserva em 9 de fevereiro de 2023, logo no início do governo Lula, e manteve a parceria por meio de aditivos assinados em 15 de janeiro de 2024 e 15 de janeiro de 2025. Em pouco mais de um ano, a Força repassou R$ 39 milhões ao banco, em valores ligados aos descontos em contracheque dos militares.
As informações constam de um relatório de inteligência financeira do Coaf, enviado em março à CPI do Crime Organizado no Senado, encerrada na semana passada sem aprovação de relatório final e sem citar o envolvimento das Forças Armadas sob o comando de Lula com o Banco do golpista Daniel Vorcaro.
O documento registra movimentações entre agosto de 2024 e outubro de 2025 e aponta duas hipóteses de irregularidade: o recebimento dos repasses por débito imediato do Master, o que pode indicar transações suspeitas e burla ao destino dos recursos; e a concentração dos valores em uma mesma titularidade no banco de Vorcaro, dificultando a identificação de outros beneficiários.
O contrato deveria valer até 8 de fevereiro de 2024, mas foi prorrogado até janeiro de 2027 e acabou rescindido apenas em novembro do ano passado, já em razão da liquidação do banco. Na prática, os aditivos permitiram a continuidade da operação mesmo quando a instituição já dava sinais públ8cos de fragilidade.
O Exército afirmou que não houve perda patrimonial para a Força nem para os cofres públicos. Disse ainda que os valores eram particulares, oriundos de militares para pagamento de dívidas privadas, e que atuava apenas como intermediário, fazendo o desconto autorizado no contracheque e repassando mensalmente a entidade consignatária.
A Aeronáutica também credenciou o Master, com contrato válido de 2024 a 2029, para desconto em folha de militares ativos, inativos e pensionistas, e informou ter feito repasses ao banco em 2024 e 2025 referentes a crédito consignado, mas nãoapresentou valores.
O RIF menciona ainda contrato semelhante com a Aeronáutica, embora sem descrever as transações entre a Força e o banco. Outra informação relevante é que outras instituições financeiras também foram credenciadas para essa operação, mas militares ouvidos no próprio entorno da estrutura dizem que o volume médio dos empréstimos leva muitos usuários a optar por bancos tradicionais, o que torna a escolha pelo Master ainda mais sensível do ponto de vista institucional. Porque o Master?
A dimensão política do caso cresce porque o Banco Master também circulava no entorno do governo federal. Lula se reuniu com Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, em encontro oculto fora da agenda oficial descoberto pela imprensa, e depois afirmou que o empresário teria relatado “perseguição” o que Lula teria respondido dizendo que a análise do caso caberia ao Banco Central.
A reunião não prova participação direta do presidente no contrato militar, mas reforça a cobrança sobre o ambiente político em que o banco operava junto ao poder máximodo país.
Também pesam nesse entorno nomes já ligados ao governo Lula e cabeldos. O ministro da Justiça de Lula desde o primeiro dia de governo, Ricardo Lewandowski já mantinha relação contratual com o Master antes de assumir o cargo e manteve esse vínculo enquanto integrava o governo, o que amplia o debate sobre conflitos de interesse e proximidade com a instituição.
O escritório de advocacia do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski recebeu R$ 5 milhões do Banco Master para prestação de serviços de consultoria jurídica. O contrato foi mantido mesmo depois que ele assumiu o cargo de ministro da Justiça, em fevereiro de 2024.
Os pagamentos prosseguiram até setembro de 2025, mais de um ano e seis meses após Lewandowski assumir a pasta, em fevereiro de 2024. Quando a bomba estourou, Lewandowski deixou o governo Lula.
Já Jaques Wagner aparece como um dos articuladores que aproximaram Vorcaro de Lula, ao lado de Guido Mantega, o que ajuda a explicar como o banco conseguiu trânsito político em Brasília. Líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner teria recebido R$ 289 mil como pessoa física. Uma empresa da nora do líder do governo no Senado, manteve contrato com o Banco Master durante três anos e recebeu pagamentos da instituição comandada por Daniel Vorcaro entre 2022 e 2025. Bonnie Bonilha é sócia da BN financeira junto com o advogado Moisés Dantas. Ela é esposa do secretário de Meio Ambiente da Bahia, Eduardo Sodré, que é enteado de Wagner. O Master teria pago R$ 12 milhões à BN Financeira, de Bonnie Bonilha, nora do senador.
Já o ex-m8nistro da Fazenda de Lula e Dilma foi contratado pelo Master a pedido de Jaques Wagner. Guido Mantega foi ao Palácio do Planalto quatro vezes, entre janeiro e dezembro de 2024, enquanto trabalhava para o banco, período coincidente com os aditivos de contratos do Exército com o Master.
Esses fatos reforçam o quadro de influência e acesso privilegiado do Master em torno do governo Lula.
A comparação com o caso do BRB ajuda a medir a gravidade política. Ibaneis é cobrado principalmente por petistas porque o BRB está diretamente ligado à estrutura do governo do Distrito Federal, o que aproxima o governador da responsabilidade política pela condução do banco. No caso de Lula, o contrato com o Master foi firmado pelo Comando do Exército, mas o presidente é o comandante supremo das Forças Armadas e, por isso, não escapa da cobrança política sobre supervisão e controle.
Não há diferença de princípio. Se Ibaneis pode ser cobrado por falhas de governança no BRB, Lula também pode ser cobrado pela permanência de um banco fragilizado em operações com as Forças Armadas, sobretudo quando o banco circulava entre seus gabinetes políticos, mantinha contratos públicos e já apresentava sinais de inconsistência financeira pagando servidores do govetno de alto escalão. A responsabilização direta depende de prova de participação, omissão concreta ou ciência relevante dos riscos, mas a responsabilidade política, nesse caso, é evidente.
O caso do Master deixa uma pergunta central: por que um banco sob suspeita continuou operando com estruturas públicas por tanto tempo, com acesso a gabinetes e com contratos preservados mesmo após os sinais de alerta? Quando surgem indícios de inconsistência financeira, a cobrança deixa de ser apenas contábil e passa a ser também política, administrativa e moral.








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No meu entendimento deu continuidade porque esta blindado por todos os lados, dentro e fora da política