STJ manda soltar MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e dono da Choquei presos por esquema de R$ 1,6 bilhão

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu na quinta-feira, 23 de abril de 2026, habeas corpus que determina a soltura imediata de MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e do dono da página “Choquei”, Raphael Sousa Oliveira, além de outros investigados da Operação Narco Fluxo, que apura um esquema bilionário de lavagem de dinheiro ligado a bingos, rifas, apostas ilegais e tráfico de drogas. Na decisão, o ministro Messod Azulay Neto considerou “flagrante de ilegalidade” na prisão temporária, ao apontar que a própria Polícia Federal havia solicitado apenas cinco dias de custódia, prazo que já havia se esgotado antes da conversão ou prorrogação para 30 dias.

O que motiva a decisão do STJ

Relator do caso no STJ, Messod Azulay Neto entendeu que a restrição de liberdade não poderia exceder o prazo originalmente requerido pela instituição policial, sob pena de violar a Lei nº 7.960/1989, que disciplina a prisão temporária.

Segundo ele, a Justiça Federal extrapolou o pedido da PF ao estabelecer o período de 30 dias, o que configurou ilegalidade formal e justificou a concessão de liberdade via habeas corpus.

O ministro também estendeu os efeitos da decisão a todos os investigados da Operação Narco Fluxo que se encontrassem na mesma situação jurídica, ou seja, presos temporariamente por prazo maior do que aquele efetivamente solicitado pela Polícia Federal.

Como era o esquema de R$ 1,6 bilhão

A operação, intitulada Narco Fluxo, foi deflagrada na última quarta‑feira (15/4/2026) em oito estados e no Distrito Federal, com cumprimento de mandados de prisão, busca e apreensão contra uma suposta organização criminosa dedicada à lavagem de dinheiro.

De acordo com a PF, o esquema teria movimentado mais de R$ 1,6 bilhão em dois anos, integrando atividades como rifas clandestinas, bingos ilegais, apostas online não autorizadas, tráfico internacional de drogas, empresas de fachada, laranjas, uso intenso de criptomoedas e remessas para o exterior.

Entre os nomes mais citados, aparecem MC Ryan SP e MC Poze do Rodo, que, segundo as investigações, seriam figuras centrais para receber e dar “aparência lícita” aos recursos, por meio de contratos de shows, campanhas publicitárias, influenciadores e negócios digitais.

Já Raphael Sousa Oliveira, criador da página “Choquei”, seria articulador de uma frente de marketing digital e mídias sociais que, em hipótese, teria sido usada para dar visibilidade e rotina comercial a transações financeiras suspeitas.

Prisão, defesa e repercussão

Ryan e Poze foram presos em flagrante em ações distintas: MC Ryan foi localizado em Bertioga (litoral de São Paulo), enquanto Poze do Rodo foi detido no Rio de Janeiro.

Segundo as defesas dos artistas, as representações iniciais da PF não esclareciam de forma clara em que nível os cantores estariam implicados, e afirmavam que não tiveram acesso integral aos autos antes da custódia.

A decisão do STJ reforça um debate jurídico em curso sobre o uso de prisões temporárias em casos de lavagem de dinheiro ligados a celebridades e influenciadores, em que a polícia tende a buscar maior tempo de custódia para interrogatórios e coleta de dados digitais.

Ainda assim, o habeas corpus não descaracteriza as apurações: a PF continua à frente da investigação, podendo requerer novos mandados, inclusive prisão preventiva, se entender haver requisitos para flagrante, risco à ordem pública ou à instrução criminal.

Próximos passos e impacto

Com a soltura, Ryan e Poze devem passar a responder em liberdade, provavelmente com eventual uso de medidas cautelares como uso de tornozeleira eletrônica, proibição de sair do país ou restrições de acesso a determinadas plataformas financeiras e digitais, caso solicitado pelo Ministério Público Federal.

A PF, por sua vez, já informou que vai analisar termos específicos da decisão para definir se avançará com novos pedidos de prisão ou se concentrará em diligências e quebras de sigilo bancário e fiscal.

O caso também amplia o foco de autoridades sobre o uso de redes socias, influenciadores e marcas digitais como canais de circulação de recursos ilícitos, em um contexto em que o faturamento de grandes artistas e páginas como “Choquei” coloca milhões de reais em circulação em curto espaço de tempo.

Para o público, o episódio reforça o risco de engajamento em rifas e bingos não regulamentados, cuja origem dos prêmios pode estar ligada a esquemas de lavagem e tráfico, e passa a integrar o debate sobre regulamentação de apostas e jogos online no Brasil.


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