Compras internacionais de até US$ 50 dólares terão alíquota zerada a partir desta quarta-feira. Medida durou quase dois anos, gerou cerca de R$ 3,5 bilhões de arrecadação e deixou os Correios com prejuízos de mais de R$ 2 bilhões
Por Victório Dell Pyrro
A chamada “taxa das blusinhas” — imposto de 20% sobre o valor de importações de até US$ 50, embutida no programa Remessa Conforme, da Receita Federal — entrou em vigor em agosto de 2024 por decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para aumentar a arrecadação de impostos e foi revogada hoje, terça-feira (12), ou seja, quase dois anos de vigência.
O anúncio da revogação foi feito pelo próprio Lula, que determinou o fim da alíquota de 20% sobre pequenas remessas internacionais, com a mudança entrando em vigor imediatamente.
Quanto foi arrecadado com a taxa
Segundo estudos da CNI e projeções oficiais, o imposto de 20% teve um impacto fiscal significativo, mas bem menor do que o esperado em termos de proteção industrial. Uma nota técnica da CNI estimou que o governo federal arrecadou cerca de R$ 3,5 bilhões com a taxa das blusinhas em 2025, valor considerável, mas que não se traduziu em defesa sustentável de grandes setores produtivos e não gerou os empregos esperados.
O governo argumentou inicialmente que a medida ajudaria a preservar empregos de trabalhadores de varejo e indústria local, com a CNI citando a possibilidade de manter cerca de 135 mil postos de trabalho em virtude da redução nas importações de baixo valor.
Impacto devastador sobre os Correios
A mesma medida que injetou receita ao Tesouro ajudou a afundar ainda mais os Correios em crise. Em estudo interno, a empresa calculou uma perda de aproximadamente R$ 2,2 bilhões em receita em 2024 diretamente ligada ao fim da isenção e à cobrança de imposto sobre remessas de baixo valor.
Entre os efeitos, destacam‑se:
- Queda de 25% a 30% no volume de encomendas internacionais, com redução de 37% da receita desse segmento.
- Redução da participação das encomendas internacionais na receita total dos Correios, de cerca de 21% para 8% em um ano.
- Agravamento do prejuízo da estatal, que chegou a R$ 3,2 bilhões em 2024, metade do déficit acumulado pelas 20 estatais federais.
Em 2025 e 2026, com a queda de atividade e a concorrência de entregadores privados, o cenário se aprofundou, obrigando os Correios a anunciar planos de reestruturação, cortes de custos e digitalização acelerada — muitos deles tratados como paliativos, e não como solução estrutural.
A criação da “taxa das blusinhas” foi uma medida assumida pelo governo Lula, fruto de pressões de varejo nacional e de setores protecionistas, mas da vontade do governoem arrecadar mais dm cima da cobrançade imposto sobre os brasileiros. Com o tempo, o efeito de desgaste eleitoral e institucional se tornou evidente: o PT viu cair parte do apoio de consumidores de baixa renda que usavam sites de comércio eletrônico chinês, enquanto o dispositivo foi alvejado por críticas de juristas, empresários e até de membros de seu próprio governo.
Agora, diante de derrocada orçamentária, desgaste político e pressão de setores de tecnologia e comércio, a mesma gestão que criou o imposto decide revogá‑lo, justamente quando o efeito sobre o Tesouro já foi internamente marcado em R$ 3,5 bilhões e o efeito sobre os Correios deixa feridas de R$ 2,2 bilhões em perda de receita. Lula agora posa de mocinho tirando um encargo que ele mesmo criou, do lombo do consumidor em ano eleitoral. Lula não se preocupa com a economia. Ele quer votos justamente dos que consomem as “blusinhas chinesas”.
O episódio da expõe um estilo de governo caracterizado por decisões rápidas, irresponsáveis de caráter sinalizador e protecionista, que não consideram o tempo de adaptação das empresas reguladas. Enquanto o governo celebra o imposto por ter “arrecadado forte” e “protegido empregos”, deixa para depois o colapso de uma estatal estratégica como os Correios, que funcionava como um dos poucos canais de distribuição de última milha em áreas remotas. Teve que voltar atrás.
Mais grave ainda é o fato de o governo que criou o desastre correr agora para apagar a própria marca com uma revogação abrupta, sem que tenha apresentado, até o momento, um plano de resgate sólido para os Correios voltarem a operar o transporte dessas encomendasque devdm voltar a crescer.
Na prática, Lula escancara o desastre administrativo de seu governo e o custo político de uma política econômica reativa, perdida, sem planejamento e de curto prazo.




