Ex-funcionária da Câmara denuncia Mário Frias por desvio de salários e golpe em empréstimo

Salário era de R$ 21 mil por mês, mas funcionária ficava com R$ 6 mil

Gardênia Morais, uma ex-funcionária do gabinete do deputado Mario Frias (PL-SP) na Câmara, que foi nomeada secretária parlamentar de fevereiro de 2023 até maio de 2024, denunciou para a imprensa que foi vítima de extorsão para trabalhar. Ela também tomou cinco empréstimos consignados em seu nome, totalizando R$ 174.886 e alega prejuízo.

Segundo os documentos, parte dos valores foi transferida ao então chefe de gabinete de Mário Frias em datas próximas aos empréstimos.

Comprovantes de pagamento e extratos bancários da ex-funcionária indicam que ela devolveu parte do salário ao então chefe de gabinete e a parentes dele, e pagou despesas de familiares de Frias, entre fevereiro de 2023 e março de 2024.

Segundo os documentos apresentados por ela, parte dos valores foi transferida ao então chefe de gabinete em datas próximas aos empréstimos.

O valor líquido do salário, após todos os descontos, variou no período entre R$ 10 mil e R$ 21 mil.

Os documentos indicam que Gardênia transferia o salário da conta do BB para outra conta de sua titularidade, no Itaú, e dessa conta repassava valores para o então chefe de gabinete, Raphael Azevedo, ou para a ex-mulher e uma outra parente dele.

Os comprovantes apresentados são:

  • um PIX de R$ 4.600 para Azevedo em fevereiro de 2023;
  • um PIX de R$ 5.000 para Azevedo em março de 2023;
  • um PIX de R$ 1.500 para Avezedo em abril de 2023;
  • um PIX de R$ 3.200 para a ex-mulher de Azevedo em maio de 2023;
  • dois PIX, de R$ 3.200 e R$ 816, para a ex-mulher e uma outra parente de Azevedo em julho de 2023;
  • quatro PIX de R$ 3.200 para a ex-mulher de Azevedo nos meses de agosto, setembro, outubro e novembro de 2023;
  • e um PIX de R$ 4.000 para o próprio Azevedo em março de 2024.

Gardênia afirmou que houve mais repasses além dos que a reportagem identificou, que somam R$ 35.116. Segundo ela, também “tinha mais pessoas devolvendo” o salário no gabinete, além dela.

Familiares e saque

Um dos comprovantes mostra que Gardênia fez um PIX de R$ 1.000 em 29 de janeiro de 2024 para Maria Lucia Frias, mãe do parlamentar.

Outro comprovante indica que, em dezembro de 2023, a ex-funcionária pagou uma fatura do cartão de crédito de Juliana Frias, esposa do deputado, no valor de R$ 4.832,32.

A ex-funcionária também apresenta um saque de R$ 49.999,99 em dinheiro vivo, em 27 de março de 2024. Ela afirmou que o valor foi entregue, mas não quis revelar para quem.

Essa transação, supostamente, foi feita de modo a dificultar o rastreamento, segundo o relato da ex-funcionária e os documentos:

  • Gardênia recebeu três depósitos de Raphael Azevedo e de sua esposa no valor de R$ 50 mil na conta-salário no Banco do Brasil, em 26 de março de 2024;
  • a então funcionária transferiu esse valor para a conta no Itaú, na mesma data, segundo os extratos bancários;
  • e no dia seguinte, 27 de março, ela sacou no caixa R$ 49.999,99. Não é possível saber o destino desse valor.

Gardênia Morais afirmou que devolvia parte do salário, conforme um acordo feito com o então chefe de gabinete, Raphael Azevedo, com o conhecimento do deputado.

“O meu salário foi subindo gradativamente. Lá na Câmara a gente tem os ‘steps’. No final, estava girando em torno de R$ 20 mil. Me restavam, em média, de R$ 6 mil a R$ 7 mil. Eu devolvia todos os meses, de acordo com o meu ‘step'”, disse Gardênia.

Raphael Azevedo trabalhou no gabinete do deputado Mário Frias de fevereiro de 2023 a fevereiro de 2024, segundo o registro da Câmara.

“O deputado sabia, o deputado estava ciente de todas as devoluções. Foi um combinado inicial, o deputado sempre participa. E depois as tratativas do dia a dia ocorriam com o Azevedo, que na época era o chefe de gabinete, braço direito do deputado”, afirmou a ex-funcionária do deputado Mario Frias.

Empréstimos consignados

A ex-funcionária disse que somente um dos empréstimos consignados, no valor de R$ 35 mil, foi feito para uso pessoal. Gardênia afirmou que eles não foram pagos e ela ficou com o nome sujo.

“Dos cinco empréstimos, um é meu particular, no restante todos foram feitos a pedido do deputado e do Raphael Azevedo para quitar dívidas de campanha [de 2022]. Os empréstimos foram feitos e eles não foram quitados, estão todos em aberto no Serasa. Enfim, meu nome… Para você ter noção de como ficou minha situação hoje, eu moro de favor na casa da minha ex-sogra”, disse.

O Ministério Público vem denunciando parlamentares ou auxiliares envolvidos nessa prática sob a acusação de peculato, crime caracterizado pelo desvio de recursos públicos em proveito próprio ou de terceiros.


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