O Nepal começou nesta segunda-feira (31) a sepultar corpos recuperados após o colapso de uma geleira no Himalaia que provocou uma enxurrada de gelo, pedras e detritos na fronteira com a China. O desastre já deixou pelo menos 919 mortos e 4.793 desaparecidos nos dois países, segundo autoridades e agências de notícias.
Números oficiais e situação dos desaparecidos
No lado nepalês, a agência nacional de gestão de desastres confirmou 903 mortes e 4.247 desaparecidos na região atingida, próxima à fronteira com o Tibete. Do lado chinês, a imprensa estatal reportou 16 mortos e 546 desaparecidos, elevando o total combinado para 919 óbitos e 4.793 pessoas sem paradeiro conhecido.
Entre os desaparecidos estão turistas e peregrinos que se dirigiam ao Monte Kailash, local sagrado no Tibete, além de 933 trabalhadores de usinas hidrelétricas no Nepal. Em alguns projetos, como o Upper Trishuli-1, há centenas de operários presumivelmente presos em túneis soterrados pela lama.

Enterros antecipados e identificação por DNA
A grande quantidade de corpos recuperados e a falta de instalações adequadas para armazená-los levaram as autoridades nepalesas a iniciar sepultamentos antes de concluir a identificação de todas as vítimas. Amostras de DNA foram coletadas dos corpos para permitir que familiares façam a identificação posteriormente e realizem os ritos funerários tradicionais.
Centros de resgate, hospitais e necrotérios improvisados foram tomados por familiares em busca de informações. Em alguns locais, telas de LED exibem fotografias dos corpos encontrados para auxiliar no reconhecimento.
Resgates complexos em túneis e áreas alagadas
Soldados e engenheiros do Exército nepalês perfuraram escombros no domingo (30) para tentar alcançar trabalhadores que podem estar presos em túneis de usinas hidrelétricas no vale do rio Himalaia. As equipes conseguiram inserir um tubo no túnel para facilitar o resgate e a ventilação.
A enchente também formou grandes lagos temporários, que estão sendo monitorados porque podem representar novos riscos de inundação para as operações de socorro. No domingo, socorristas chineses próximos ao porto fronteiriço de Gyirong, no Tibete, foram evacuados para áreas seguras após a formação de um novo lago por deslizamento de terra.
Depoimentos de sobreviventes e extensão da destruição
Trabalhadores que conseguiram escapar relataram cenas de destruição. Surendra Dowluri, de 33 anos, do estado indiano de Andhra Pradesh, disse que uma forte correnteza atingiu o local onde trabalhava. “Ouvimos um som muito forte… e vimos que o andar da turbina estava submerso em lama. Seis trabalhadores ficaram presos ali”, contou à AFP após ser resgatado quatro dias depois do desastre.
Moradores de vilarejos próximos ao rio afirmam que as comunidades foram arrasadas. “Todos os vilarejos próximos do rio foram destruídos. Não sobrou nada”, disse Buddhi Ram Dangol, do distrito de Nuwakot.
Declarações do governo e contexto climático
O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, classificou o episódio como um desastre “inimaginável e desolador” e estimou que o custo da reconstrução pode chegar a bilhões de dólares. Shah também destacou o contraste entre o impacto sofrido pelo país e sua baixa contribuição às emissões globais de carbono, já que o Nepal está entre as nações com menores emissões per capita do mundo.
O desastre teve início com o colapso parcial de uma geleira na região do Himalaia, a maior cadeia de montanhas do planeta. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, a grande quantidade de água e detritos transformou um rio em uma correnteza que avançou rapidamente pelo vale. Cientistas que analisaram imagens de satélite indicam que o colapso do leito rochoso sob uma geleira levou parte do gelo consigo, desencadeando a enxurrada.
Dificuldades de acesso e operação no Tibete
No Tibete, onde o acesso de jornalistas estrangeiros é limitado e as autoridades chinesas são a principal fonte de informações, mais de 2.100 socorristas participam das operações de busca. As dificuldades de acesso ficaram evidentes no domingo, quando equipes chinesas que tentavam abrir uma rota até o epicentro da tragédia, próximo ao porto de Gyirong, avançaram apenas 285 metros.
Lembre imagens chocantes da avalanche de Lama e pedras :




