Morre jornalista Carlos Monforte que deixa legado como pioneiro

O jornalista Carlos Monforte morreu nesta segunda-feira (31), aos 77 anos, em decorrência de um câncer contra o qual estava em tratamento. A informação foi confirmada pela família e divulgada pela GloboNews, emissora onde ele trabalhou nos últimos anos de carreira. Até a última atualização desta reportagem, não haviam sido divulgados detalhes sobre o sepultamento.

Morte e informações oficiais

Carlos Américo Aguiar Monforte faleceu em Brasília (DF), onde residia e atuava profissionalmente há décadas. A GloboNews informou que ele vinha enfrentando problemas de saúde e estava internado em tratamento contra um câncer, mas não detalhou a causa específica da morte. A família confirmou o óbito à emissora, que prestou as primeiras homenagens em sua programação.

Trajetória profissional

Início no jornalismo impresso

Nascido em Santos (SP), em 3 de julho de 1949, filho do funcionário público Américo Monforte e da dona de casa Elizabeth Monforte, Carlos Monforte começou a trabalhar como repórter ainda durante a faculdade de Jornalismo na Faculdade de Comunicação de Santos. Suas primeiras experiências foram no jornal A Tribuna, de sua cidade natal, onde cobriu o cotidiano da Baixada Santista antes mesmo de concluir o curso.

Formado em 1972, integrou a equipe de A Tribuna que conquistou o Prêmio Esso Regional de 1972 com a série de reportagens “A Invasão do Continente”, sobre a ocupação e expansão urbana em direção à área continental da Baixada Santista. O trabalho, produzido com Carlos Manente, Ouhydes Fonseca e Rafael Dias Herrera, foi lembrado por ele, décadas depois, como um dos momentos mais importantes de sua trajetória.

Depois de uma passagem como assessor de comunicação da Secretaria de Obras do Estado de São Paulo, atuou como repórter especial no jornal O Estado de S. Paulo entre 1973 e 1978. Nesse período, realizou dois cursos de aperfeiçoamento no exterior: na Universidade de Navarra, na Espanha, em 1973, e na Fundação Beauve Marie, na França, entre 1975 e 1976.

Chegada à TV Globo e pioneirismo na TV

Em 1978, Monforte trocou o impresso pela televisão, ingressando na TV Globo como repórter em São Paulo, convidado pelos jornalistas Luiz Fernando Mercadante, Dante Matiussi e Oswaldo Martins Filho, da redação da emissora. Foi contratado como repórter local, fazendo matérias para o Jornalismo Eletrônico e, logo depois, para o Jornal Nacional e para o Fantástico.

Na época, participou de coberturas importantes, como a das greves dos metalúrgicos no ABC Paulista. Com a experiência de nove anos trabalhando na redação do jornal O Estado de S. Paulo, iniciou sua carreira na emissora utilizando uma novidade na época, as Unidades Móveis. “Era o começo do link, de matérias ao vivo”, recordou-se em entrevista ao projeto Memória Globo.

Em 1982, assumiu a editoria de Política do Jornal da Globo e passou a editar e apresentar o Bom Dia São Paulo. “Dante Matiussi [chefe da redação de São Paulo] resolveu fazer o ‘Bom Dia São Paulo’ com um âncora, alguém que fosse o editor-chefe e comandasse o jornal, com entrevistas”, contou Monforte.

Estreia do Bom Dia Brasil e consolidação como âncora

Em janeiro de 1983, com a criação do Bom Dia Brasil, Carlos Monforte assumiu o cargo de editor-chefe e apresentador do programa, tornando-se o primeiro telejornal matinal em rede nacional do país. A proposta inicial era tratar essencialmente de fatos políticos e econômicos.

O telejornal chegou a realizar, no primeiro ano, cerca de 700 entrevistas com empresários e políticos, como João Baptista Figueiredo (último presidente militar), Delfim Netto, Mário Andreazza e Ulysses Guimarães (que presidiu a Câmara dos Deputados quando foi aprovada a Constituição de 1988). Monforte esteve à frente do Bom Dia Brasil por nove anos.

Considerado um dos primeiros âncoras do jornalismo brasileiro, Carlos Monforte fazia uma distinção entre a função que desempenhou e a dos âncoras norte-americanos: “Âncora é uma expressão que nasceu nos Estados Unidos: anchor-man. Mas o âncora americano é o que apresenta o jornal, simplesmente. Ele não dá um palpite, não dá uma opinião, simplesmente apresenta o jornal. No Brasil, o âncora é o editor-chefe: ele comanda, diz o que entra no jornal, qual será a sequência dos blocos.”

No final da década de 1980, participou do programa Palanque Eletrônico, que reuniu os candidatos à Presidência da República nas eleições de 1989. Ao lado de Joelmir Beting, Lillian Witte Fibe, Alexandre Garcia e outros convidados, entrevistou os candidatos sobre as principais propostas para o futuro governo.

Passagem pela CNI e retorno à Globo

Carlos Monforte deixou a Globo em 1992, para montar o departamento de Comunicação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), no qual permaneceu por dois anos. Em seguida, de volta à emissora, passou a trabalhar como repórter especial do Jornal da Globo em Brasília.

Em setembro de 1994, foi envolvido num episódio polêmico conhecido como “escândalo da parabólica”. O então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, enquanto aguardava o início de uma entrevista com o jornalista no estúdio da Globo, afirmou que usava os indicadores econômicos positivos do Governo Federal em favor de Fernando Henrique Cardoso, candidato à Presidência pelo PSDB. O comentário, proferido em tom informal, foi captado acidentalmente por antenas parabólicas que estavam na mesma frequência do sinal emitido pela Embratel. O caso foi entendido como uma confissão de uso abusivo da máquina administrativa e acabou levando à demissão de Ricupero.

Carlos Monforte foi repórter do Jornal da Globo até 1996, quando voltou a participar do Bom Dia Brasil, como âncora em Brasília. Em abril de 1997, realizou uma entrevista, exibida pelo Jornal Nacional, com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, tratando do Movimento dos Sem-Terra. Em agosto do mesmo ano, também para o JN, produziu uma série de reportagens intitulada “Custo Brasil”, participando, ainda, da cobertura da CPI do narcotráfico e da condenação do então deputado federal Hildebrando Pascoal, em 1999.

GloboNews e últimos anos

Em 1998, Monforte começou a trabalhar no programa Espaço Aberto, da GloboNews. Comandou entrevistas com personalidades importantes na vida política do país, discutindo questões como Segurança Pública, Reforma Tributária e Política, Lei de Responsabilidade Fiscal e as queimadas na Amazônia.

Chegou a trabalhar novamente no Jornal da Globo em 1999 e, logo depois, foi para o Jornal Hoje. No final de 2000, assumiu o cargo de coordenador da GloboNews em Brasília. Foi apresentador do Jornal das Dez da capital federal e participou de outros programas, como Espaço Aberto, GloboNews Política e Fatos e Versões.

Carlos Monforte deixou a Globo definitivamente em 2016, após quase quatro décadas de trabalho na casa.

Legado e perfil profissional

Monforte é considerado um dos pioneiros do formato de âncora no telejornalismo brasileiro, por acumular, desde o início dos anos 1980, as funções de editor-chefe e apresentador, participando ativamente da apuração, edição e definição das pautas exibidas.

Sua trajetória foi marcada pela cobertura política em Brasília, onde se tornou referência em análises e reportagens sobre o Planalto e o Congresso Nacional. Colegas e veículos de imprensa destacam sua passagem por alguns dos principais noticiários da Globo — Jornal Nacional, Fantástico, Jornal da Globo, Bom Dia Brasil, Jornal Hoje e GloboNews — e sua contribuição para a consolidação de um jornalismo de TV com forte presença do âncora como condutor e curador das notícias.

O jornalista foi descrito como um profissional de voz elegante sempre sob controle, que dava e analisava a notícia sem querer aparecer mais do que a informação, e não tratava o entrevistado como se estivesse em um julgamento público. Foi um dos primeiros apresentadores da TV brasileira com a liberdade de comentar e opinar.

Durante a aposentadoria, ele fez viagens pelo mundo e escreveu o livro “O Papel do Jornalismo sem Papel” (Editora Matrix), a respeito das vantagens e dos perigos da comunicação digital.

Vida pessoal

Carlos Américo Aguiar Monforte era filho do funcionário público Américo Monforte e da dona de casa Elizabeth Monforte. Natural de Santos, ele mantinha ligações afetivas com a cidade onde começou a carreira e frequentemente recordava com orgulho sua formação no jornalismo de rua, em redações regionais, antes de se tornar um dos nomes mais conhecidos do telejornalismo nacional.

Deixa a esposa, dois filhos e três netos.