Polícia Federal encontrou áudios no celular sobre o envolvimento do Palácio do Planalto
Mensagens e um áudio encontrados pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, mostram que o advogado Walfrido Warde afirmava que o banqueiro contava com o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de integrantes do partido para tentar salvar a instituição financeira. O material foi divulgado pela revista VEJA neste domingo, 18 de outubro de 2026.
O áudio foi enviado por Warde a Vorcaro em 30 de março de 2025, dois dias depois de o Banco de Brasília (BRB) anunciar a compra de 58% do capital total do Banco Master. Na época, a operação dependia de autorização do Banco Central, então presidido por Gabriel Galípolo.
O que diz o áudio
No áudio, Warde alerta Vorcaro sobre uma suposta ofensiva da TV Globo para enfraquecer o respaldo político do banqueiro dentro do PT e junto ao Palácio do Planalto.
“A Globo tá querendo, basicamente, quebrar o teu apoio interno dentro do PT. Entendeu? É isso que eles querem. Eles querem tirar o apoio do presidente. Já entenderam que o teu apoio vem do presidente. Então eles querem tirar o teu apoio”, disse Warde.
Para sustentar a avaliação, o advogado encaminhou a Vorcaro uma captura de tela de reportagem do jornal O Globo sobre os serviços de consultoria prestados pelo ex-ministro Guido Mantega ao banqueiro e sobre o encontro que Mantega teria articulado entre Lula e Vorcaro no Planalto.
A própria VEJA ressalva que a conduta de Warde, por si só, não configura ilegalidade: trata-se de uma análise política feita a serviço do cliente.
Articulação com o Planalto
Segundo a reportagem, entre abril de 2023 e julho de 2025, Warde encaminhou a Vorcaro pelo menos 20 mensagens em que citava o presidente Lula. Os diálogos foram localizados pela Polícia Federal no celular do banqueiro.
As mensagens indicam que o advogado mantinha contato com assessores próximos ao presidente, especialmente Marco Aurélio Santana, o Marcola, chefe de gabinete de Lula.
Em 19 de abril, Warde escreveu:
“Vou conseguir uma audiência tua com o PR.”
No mês seguinte, afirmou:
“Saí da sala do presidente.”
E acrescentou:
“Ele me perguntou do teu e-mail.”
Em agosto, Warde comunicou que iria a Brasília e pediu o avião do banqueiro. “Vou falar com o Presidente na quinta”, informou.
Em setembro, o advogado relatou:
“Estive com o presidente Lula longamente ontem. Você vai gostar, muito importante para você.”
Vorcaro perguntou: “Você falou de mim?”. Warde respondeu: “Claro”.
Reunião de 4 de dezembro
Em novembro, Warde parece ter destravado a agenda de Lula. “Quando você pode encontrar o presidente?”, perguntou. Depois de uma conversa telefônica com Vorcaro, confirmou: “Tudo ajustado. Tua reunião será na quarta às 11”.
No dia 4 de dezembro de 2024, data da reunião, Warde advertiu:
“O presidente está um pouco impaciente hoje.”
Após o encontro, o advogado sugeriu que havia falado com o próprio presidente ou com alguém presente na reunião e disse que daria “um feedback do homem”.
A VEJA informa que o Palácio do Planalto garante que um segundo encontro entre Lula e Vorcaro, articulado depois dessa reunião, nunca aconteceu.
Tentativa de novo encontro
Em janeiro de 2025, Warde escreveu: “Estive com o PR hoje”. Dois meses depois, em março, encaminhou a Vorcaro uma mensagem que teria recebido:
“PR disse que topa receber o chefe. Mas disse que vai chamar o Jaques para participar.”
Na sequência, o advogado escreveu:
“Presidente vai me ligar daqui a alguns minutos. Vou ajustar a data do seu encontro.”
“Vamos para a guerra”
Em 17 de julho de 2025, com os planos de salvar o banco em dificuldade, Vorcaro pediu que Warde transmitisse um recado a Lula:
“Avise o presidente amanhã e vamos para a guerra.”
Em um grupo chamado “Amigos”, Marcola informou que havia repassado o recado ao presidente. Warde ameaçou: “Nós vamos quebrar tudo”. E acrescentou: “Avisa o chefe por favor”.
Segundo a reportagem, Warde recebeu então uma mensagem de alguém próximo ao presidente: “O PR falou com o Guido”.
BRB pergunta sobre apoio de Lula
Em agosto de 2025, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, perguntou diretamente a Vorcaro:
“O Presidente Lula apoia ou não a operação?”
Vorcaro recomendou que a questão fosse encaminhada por “Edinho” — provavelmente Edinho Silva, presidente nacional do PT.
“Melhor via ele e não expor o presidente [Lula]”, escreveu o banqueiro.
Desfecho
A venda do Banco Master ao BRB não foi concluída. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação da instituição, três meses após a troca de mensagens sobre o eventual apoio de Lula à operação.
A reportagem não apresenta prova de que Lula tenha efetivamente interferido nas decisões do Banco Central ou autorizado medidas para favorecer o Banco Master. O material divulgado registra declarações e articulações atribuídas a Warde e a Vorcaro, além de mensagens que indicam trânsito do advogado junto a auxiliares do Planalto.




