A Polícia Federal investiga um esquema de vazamento de informações sigilosas do Superior Tribunal de Justiça (STJ) para o escritório do advogado Willer Tomaz, que representa as construtoras Attos Empreendimentos Imobiliários e HC Incorporadora em uma disputa de R$ 176,4 milhões envolvendo o terreno da antiga Academia de Tênis de Brasília. Segundo a investigação, o escritório teria recebido a minuta de um acórdão dois dias antes de sua assinatura pelos ministros.
O caso da Academia de Tênis
A disputa judicial envolve o terreno onde funcionava a antiga Academia de Tênis, uma das áreas mais valorizadas de Brasília. De um lado estão as construtoras Attos e HC Incorporadora, representadas por Willer Tomaz; de outro, uma família de herdeiros que reivindica valores relacionados à área.
Em setembro de 2026, o STJ reconheceu que os herdeiros têm direito a receber valores das construtoras. A controvérsia, segundo os autos citados pela investigação, envolve aproximadamente R$ 176,4 milhões.
A minuta antecipada
De acordo com a PF, o escritório de Tomaz recebeu, em 16 de setembro, a minuta de um acórdão do STJ relacionado ao processo. O documento só foi assinado pelos ministros em 18 de setembro, dois dias depois.
Após o recebimento da minuta, as construtoras representadas pelo advogado teriam desistido de um recurso que já estava previsto na pauta de julgamento. Para os investigadores, o acesso antecipado ao resultado poderia ter permitido ao escritório alterar a estratégia processual e evitar uma derrota formal em sessão.
Quem é investigado
Um dos principais alvos é Humberto Fontoura Pradera, ex-secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação do STJ. Ele é suspeito de ter facilitado o acesso de Willer Tomaz a informações internas do tribunal, incluindo minutas de decisões e movimentações processuais.
A PF também aponta sete situações em que o escritório de Tomaz teria recebido informações sigilosas antecipadas, entre elas minutas de decisões do STJ e pareceres do Ministério Público Federal. O inquérito apura ainda a atuação do procurador aposentado Antônio Carlos Simões Soares, suspeito de vazar informações e combinar o conteúdo de pareceres com o advogado.
O STJ exonerou Pradera do cargo de secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação e abriu apuração interna sobre o caso. A corte afirmou que as medidas criminais seguem em andamento e são sigilosas.
A PF realizou buscas contra Pradera em 19 de outubro, na Operação Linceu, que investiga o repasse antecipado de minutas em sete casos judiciais ao escritório de Tomaz.
Willer Tomaz nega categoricamente ter obtido acesso irregular ou não autorizado a decisões judiciais ou pareceres sigilosos. Em nota, o advogado afirmou que sua atuação sempre observou a legislação e as prerrogativas profissionais da advocacia, e classificou as acusações como infundadas e fruto de desinformação.
A defesa também negou qualquer interferência ou ajuste no conteúdo de manifestações do Ministério Público Federal.
Em 23 de outubro, o ministro Alexandre de Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens do advogado, a quebra dos sigilos bancário, fiscal e cambial, a suspensão das atividades de suas empresas e o cancelamento dos passaportes, inclusive de um passaporte diplomático. Ele está fora do Brasil, não tendo retornado de viajem aos Estados Unidos.
A investigação segue sob sigilo e busca determinar quem teve acesso aos documentos, como as informações foram repassadas e se houve vantagem processual concreta para os clientes do escritório. A análise de mensagens, registros de acesso aos sistemas do STJ e documentos apreendidos deve orientar os próximos passos da PF e do Ministério Público Federal.
Até o momento, as suspeitas não representam condenação criminal de qualquer investigado.





