Banco Central mantém Selic em 13,75% e Brasil segue com juros mais altos do mundo

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira (4) manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano. A pausa encerra, por enquanto, o ciclo de cortes iniciado em março, quando a taxa chegou a 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas.

A decisão foi tomada em um cenário de inflação ainda acima da meta, incertezas fiscais, dólar pressionado e revisões nas projeções de preços. A próxima reunião do colegiado está marcada para os dias 8 e 9 de dezembro.

Por que o Copom segurou os cortes

O Banco Central optou por não reduzir os juros porque avaliou que o risco de a inflação não convergir para a meta ainda é elevado. A instituição apontou incertezas sobre o ajuste fiscal, a trajetória da dívida pública, o câmbio, o preço do petróleo e choques externos.

O mercado também mudou de expectativa após o segundo turno das eleições presidenciais. Antes da votação, a maioria das instituições financeiras apostava em um corte de 0,25 ponto, para 13,50%. Depois do resultado, a maior parte passou a prever manutenção da taxa.

Entre 105 bancos e consultorias ouvidos pelo Valor Econômico, 72 projetavam que o Copom manteria a Selic em 13,75%, enquanto 33 ainda esperavam novo corte. A alta do dólar, o mercado de trabalho aquecido e riscos ligados ao El Niño, ao fim da escala 6×1 e à reforma tributária reforçaram a cautela.

Segundo levantamento elaborado pelos sites MoneYou e Lev Intelligence, o juro real brasileiro era de 8,45% ao ano, o maior entre 40 países analisados. A Rússia vinha em segundo, com 6,79%.

Isso significa que, mesmo depois de cinco cortes consecutivos, o custo efetivo do dinheiro no Brasil continua entre os mais altos do mundo. A Selic nominal caiu de 15% para 13,75%, mas o juro real permaneceu em patamar historicamente elevado.

Efeito sobre famílias e empresas

A manutenção da taxa preserva o crédito caro para consumidores e empresas. Financiamentos imobiliários, crédito pessoal, cartão e compra de veículos seguem com parcelas mais altas. Para as empresas, especialmente as micro e pequenas, juros elevados dificultam investimentos, ampliam o custo da dívida e aumentam o risco de fechamento.

Do outro lado, juros altos ajudam a conter a inflação, atraem capital estrangeiro e sustentam o real. A Selic em 13,75% ainda é considerada restritiva: ela desestimula consumo e investimento para reduzir a pressão sobre os preços.

O que vem pela frente

O mercado segue dividido sobre o próximo movimento. Parte dos analistas projeta que a Selic permanecerá em 13,75% até o fim de 2026 e ao longo de 2027. Outros ainda esperam um corte de 0,25 ponto na reunião de dezembro, caso a inflação desacelere e as incertezas fiscais diminuam.

O Banco Central sinalizou que não há compromisso com um calendário de cortes. A prioridade é conduzir a inflação à meta de 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos.

O que está em jogo

A decisão reforça a postura cautelosa do Banco Central diante de um cenário de inflação persistente e maior incerteza política e fiscal. Para o governo, juros altos representam um obstáculo ao crescimento e ao crédito. Para o BC, são o instrumento necessário para evitar que a inflação se torne crônica.

O Brasil não tem necessariamente a maior taxa nominal do mundo, mas lidera o ranking de juros reais entre os 40 países analisados — um sinal de que o custo do dinheiro na economia brasileira segue entre os mais altos do planeta.