Alexandre de Moraes, 8 voos e Daniel Vorcaro: o que se sabe sobre o uso de jatos ligados ao Banco Master

Por Victório Dell Pyrro

Nos últimos meses, o escândalo do Banco Master trouxe à luz uma relação íntima entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o banqueiro golpista Daniel Vorcaro, controlador da instituição financeira sob investigação por crimes contra o sistema bancário e por organização criminosa. Entre as linhas de contra‑ataque e negações pífias do STF, em notas evasivas , emergem agora, registros oficiais e análises de aviação que indicam: Alexandre de Moraes viajou pelo menos oito vezes em aeronaves ligadas ao grupo de Vorcaro em 2025.


O que dizem os registros de aviação

Fontes de imprensa especializada em aviação e registros públicos apontam que o ministro Alexandre de Moraes, acompanhado por sua mulher, embarcou em ao menos oito ocasiões em aeronaves registradas em empresas relacionadas ao criminoso Daniel Vorcaro ou ao seu grupo de negócios escusos. Esses voos foram operados por empresas de propriedade de Vorcaro ou de sociedades ligadas a ele, como a Prime You, firma de compra compartilhada de bens de luxo, e a Zettel, outra empresa utilizada na estrutura de uso dos jatos.

Os dados de tráfego aéreo, cruzados com matrizes societárias e registros de empresas, sugerem que esses deslocamentos não foram esporádicos, mas parte de um padrão de uso de frota privada de alto padrão, até então conhecida como extensão do “coringa” financeiro do Banco Master. Ainda que não se conheça o conteúdo de cada contrato ou contrato de locação, a presença de aeronave registrada em nome de sociedades de Vorcaro nas rotas ocupadas por Moraes é um elemento central para a discussão sobre confinamento de interesses entre o juiz e o banqueiro investigado.


Vorcaro, o Banco Master e os jatos de luxo

Daniel Vorcaro é controlador do Banco Master, instituição financeira alvo de operação da Polícia Federal (PF) batizada de “Compliance Zero”, que investiga gestão irresponsável, fraudes no sistema financeiro e organização criminosa no contexto de vendas e operações de crédito. A operação levou à prisão temporária de Vorcaro e à decretação de liquidação extrajudicial do banco pelo Banco Central, em um cenário de suspeitas de montagem de estruturas para blindar ativos e ocultar dívidas.

A frota de Vorcaro inclui jatos de luxo como o Falcon 7X, avaliado em cerca de 200 milhões de reais, além de outros modelos de alta gama, que permitiam ao banqueiro movimentar‑se internacionalmente e concentrar operações em paraísos fiscais. A apreensão de um desses jatos pela PF, quando Vorcaro tentava embarcar em Guarulhos, reforçou a impressão de que o uso dessas aeronaves não se limitava ao “transporte privado”, mas a um circuito de negócios e movimentação de capitais sob escrutínio da PF.


Os oito voos de Moraes: contexto e polêmica

A reportagem da Folha de São Paulo que apontou os oito voos de Moraes em aeronaves ligadas a Vorcaro destaca que as viagens foram feitas em 2025, sobretudo em aeronaves de propriedade de sociedades nas quais o banqueiro era sócio ou controlador. Em sete casos, o uso teria sido de empresas de “compra compartilhada” de bens de luxo, modelo que permite que diferentes investidores coletivos arquem com custos de jatos, mas que também gera a suspeita de favorecimento recíproco entre usuário e proprietário.

A Associação Brasileira de Jornalismo de Investigação e veículos de investigação destacam que nenhum ministro do STF, em cargo de topo da Justiça, tem autorização legal para receber transporte privado gratuito de pessoa diretamente envolvida em graves investigações, sob pena de violar princípios de moralidade e impessoalidade. Ainda que Moraes não tenha sido formalmente acusado de crime específico por esses voos, o uso de jatos de um empresário hoje preso e investigado por fraude bancária e organização criminosa alimenta perguntas sobre conflito de interesses e a possibilidade de instrumentos privados de poder serem usados como moeda de influência em processos de interesse público.


Moraes, o Master e o contrato de 129 milhões

A relação entre Moraes e o Banco Master já não é apenas questionada pelo uso de jatos, mas por um contrato de 129 milhões de reais firmado entre o banco e uma empresa da esposa do ministro, Viviane Moraes, em meio às negociações de compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Esse contrato, somado aos voos em jatos de Vorcaro, torna ainda mais sensível a sequência de decisões judiciais em que o ministro protagonizou papel central, inclusive em medidas que envolvem pressão sobre o Banco Central e a regulamentação da operação BRB‑Master.

A discussão não é apenas sobre “hospitalidade” ou “benevolência” de um empresário para um magistrado, mas sobre a percepção de que, em um contexto de crises sucessivas, o ministro do STF que deveria atuar como quem garante a ordem jurídica aparece como beneficiário direto de serviços de alto valor, enquanto instituições sob sua decisão são refeitas para acomodar estruturas financeiras em risco.

Críticos afirmam que isso rebate a imagem de imparcialidade que o próprio STF tenta sustentar, sobretudo quando Moraes lidera ações de combate à “desinformação” e à “corrupção” em outros ramos do poder público.


As reações e a negação do STF

Após a divulgação das evidências documentais que apontam ao menos oito voos de Moraes em aeronaves ligadas a Vorcaro, em nota ao jornal Folha de S.Paulo, o escritório Barci de Moraes afirmou que contratou os serviços de vários operadores de táxi aéreo, entre eles a Prime You, mas que Vorcaro e Zettel não estavam presentes nos voos.

O escritório Barci de Moraes, pertencente à advogada Viviane Barci de Moraes, foi contratado pelo Banco Master em abril de 2024 por cerca de R$ 129 milhões.

A ausência de um registo formal de justificativa pública sobre tais viagens contrasta com a postura de Moraes em que ocasiões anteriores, em que o ministro defende rigor contra supostos abusos e irregularidades de outras autoridades. Enquanto isso, a apuração do caso Master, com a possibilidade de delação de Vorcaro abordando comunicações entre o ministro e cúpula do Banco Central, deixa em aberto se esses oito voos em jatos de Vorcaro serão tratados como mero detalhe biográfico ou como parte de um cenário mais amplo de influência e favorecimento cruzado.


Para onde vai a investigação?

Hoje, o que se sabe, com base em registros de aviação, é que Alexandre de Moraes realizou ao menos oito viagens em aeronaves ligadas a Daniel Vorcaro em 2025, período de intensa movimentação do Banco Master e de negociações de venda ao BRB. Ainda não há informação pública de que o STF tenha instaurado qualquer processo disciplinar formal sobre o uso desses transportes, nem o CNJ tenha assumido o caso de forma proativa, o que reforça a sensação de que o poder judiciário trata condutas de seus próprios membros com um nível de leniência distinto do que aplica a outras autoridades.

Enquanto investigações da PF e do Ministério Público seguem avançando lentamente sobre o Banco Master, o fato de um ministro do STF, com atribuições de controle sobre decisões do BC e do sistema financeiro, ser usuário de frota privada de um empresário preso por crimes financeiros não é apenas um “caso” isolado: é um alerta de saúde institucional. Até que surja um exame transparente desses oito voos — quem custeou, sob que contrato, e que vantagens foram conferidas ao STF —, a narrativa de “guardião da ordem” permanecerá manchada por uma pergunta óbvia: o que o Master deu a Moraes, além de jatos de luxo e R$ 129 milhõesem contratoscom sua mulher?


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