Lula aconselhou Moraes a não permitir que Vorcaro estrague sua biografia
Por Victório Dell Pyrro
Em movimento que cheira a autopreservação desesperada, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), resgatou da gaveta uma ação petista de 2021 para limitar delações premiadas, logo quando uma delas ameaça atingi-lo diretamente.
Hoje o presidente Lula, citou o caso do ministro Alexandre de Moraes, e relatou que, em encontro com o magistrado, alertou: “Eu disse ao companheiro Alexandre de Moraes: você construiu uma biografia histórica nesse país com o julgamento do 8 de janeiro. Não permita que esse caso do [Daniel] Vorcaro [dono do Master] jogue fora sua biografia”. O alerta teria sido dado pelo presidente a Moraes durante encontro fora da agenda oficial, mas descoberto pela imprensa.
E parece que é este o conselho seguido por Moraes.
A ADPF 919, protocolada por advogados do PT – Lenio Streck, André Trindade e Fabiano Santos, presidente dos Correios no governo Lula –, ganhou pauta nesta quarta-feira-feira (8) para “fixar critérios” e coibir o “uso arbitrário” de acordos que violam garantias fundamentais. Ironicamente, Moraes usou delações como espinha dorsal para condenar Jair Bolsonaro, militares, ex-ministros e manifestantes do 8 de Janeiro – mas agora quer freios quando o bumerangue vem para si.
A ação, parada por quase cinco anos, questiona a Lei 12.850/2013 e pede que delações sejam apenas “acessórias”, exigindo corroboração plena para valer como prova. O PT , claro, alega condenações frágeis na Lava Jato, mas o timing de Moraes grita como mais um oportunismo: a delação de Daniel Vorcaro, golpista que quebrou instituições financeiras incluindo o BRB, aponta para contratos de R$ 129 milhões da esposa de Moraes, Viviane Barci, com a Master – empresa de advocacia sob escrutínio em inquéritos sigilosos do próprio STF, conduzidos por André Mendonça, a quem Moraes sempre que pode humilha e ridiculariza. Vorcaro detalhará, espera-se, supostos esquemas de favorecimento, com áudios, WhatsApps e documentos que circulam em Brasília há semanas.
Moraes, que condenou Bolsonaro a inelegibilidade eterna com base na delação de Mauro Cid – seu ex-ajudante de ordens –, não hesitou em usar o mesmo instrumento contra generais como Freire Gomes, ex-ministros como Walter Braga Netto e até 1.390 réus do 8 de Janeiro, muitos com penas de 17 anos por um chamado “golpe” de Estado. Cid, preso e delatando, entregou conversas que Moraes transformou em “provas irrefutáveis”, ignorando falta de materialidade em centenas de casos. Condenados foram alvos em ações rápidas, com delações homologadas em segredo, enquanto o STF celebrava “defesa da democracia”, seria?
Hoje, o mesmo Moraes pede “limites constitucionais” para evitar que as delações de Vorcaro o alcancem?.
A descredibilidade do STF atinge o ápice com esse vaivém. Moraes, que acumula mais de 40 inquéritos como relator – muitos sem fim à vista –, usou delações contra os chamados atos antidemocráticos que ele mesmo investiga. A ADPF 919, engavetada no governo Bolsonaro, ressurge agora, coincidindo com vazamentos de celulares de Vorcaro sobre a Master: Viviane faturou alto com Vorcaro. A Petição inicial clama por “devido processo legal”, mas soa hipócrita quando o PT surfou nas delações contra adversários e tirou definitivamente Bolsonaro do jogo.
Críticos como o jurista Ives Gandra Martins detonam: “É o STF do faz-de-conta: delação vale tudo contra o inimigo, mas trava quando mira os amigos”. Anular delações romperia centenas de processos, devolvendo bilhões em leniência. Fabiano Santos, dos Correios, assina com peso político e só – sua gestão postal foi questionada por quebrar de novo a estatal –, enquanto Trindade e Streck, do PT, vendem o pleito como “salvaguarda constitucional” no processo desenterrado por Moraes com aparência de que é para se proteger.
O julgamento, previsto para maio, pode implodir a investigação do escândalo do Master. Para o Brasil, é o retrato de um STF partidarizado e envolvido com criminosos que até “sicário” tinha: Moraes, que se eternizou como xerife, agora joga com as regras que outrora quebrou.
A delação de Vorcaro avança na PGR, e o ministro-relator da ADPF sabe: o faro das delações não perdoa nem togas. Resta saber se o plenário, refém de seu protagonismo, comprará a narrativa ou vai fechar os olhos endossando mais um escândalo – ou se o povo, farto de impunidade seletiva, exigirá justiça de verdade.
O Banco Master pagou mais de R$ 80 milhões ao escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Os pagamentos foram declarados pelo Master à Receita Federal nos anos de 2024 e 2025 em função dos impostos retidos direto na fonte, ou seja, pagos imediatamente após uma nota de prestação de serviços ter sido emitida. Um desmentido das alegações de Viviane de que viagens de jatos de Vorcaro teriam sido abatidas dos pagamentos do contrato.
Nas urnas só há uma solução: deixar de fora sujeitos como Davi Alcolumbre que mantém Moraes no STF.



