Ex-assessor de senador Weverton é alvo de operação sobre lavagem de dinheiro em Brasília

A Polícia Civil do Distrito Federal deflagrou, nesta quinta-feira (30), uma operação que tem como alvo Julio Cadimo Costa Nobriga, ex-assessor do senador Weverton Rocha (PDT-MA). A ação investiga esquema milionário de lavagem de dinheiro e associação criminosa e é um desdobramento das investigações que, em maio deste ano, levaram à prisão do contador Cleônides de Sousa Gomes, flagrado ao sacar R$ 1 milhão em espécie em uma agência bancária da Asa Sul, em Brasília.

O caso do contador e o milhão em espécie

Tudo começou em maio, quando o contador Cleônides de Sousa Gomes foi preso após sacar R$ 1 milhão em uma agência da Asa Sul. Ao ser abordado por policiais civis, ele negou que o dinheiro fosse de sua propriedade. Em depoimento, afirmou que apenas receberia o depósito, realizaria o saque e entregaria o valor a outra pessoa posteriormente — um movimento típico de operações de “laranja” usadas em esquemas de lavagem de capitais.

Desde então, a Polícia Civil tem apurado a origem e o destino dos recursos. Conforme revelou a coluna, Julio Nobriga se movimentou para tentar recuperar o dinheiro apreendido pela polícia em maio, o que acendeu um sinal de alerta e reforçou a linha investigativa que agora culmina na operação contra ele.

Operação em Águas Claras e Itapoã

Na ação desta quinta, agentes cumpriram dois mandados de busca e apreensão, um em Águas Claras e outro no Itapoã, no Distrito Federal. Durante as diligências, foram apreendidos celulares, computadores, mídias digitais, documentos e outros materiais considerados relevantes para a investigação. Todo o material será submetido a análise técnica e pericial, que deverá trazer mais elementos sobre a rede de movimentação financeira e eventuais conexões com outras pessoas e organizações.

A trajetória de Julio Nobriga no entorno de Weverton

Julio Cadimo Costa Nobriga trabalhou para o senador Weverton Rocha por cerca de seis anos. Foi nomeado no gabinete do parlamentar em outubro de 2019, passou para a Quarta-Secretaria do Senado em agosto de 2022, depois para a Segunda-Secretaria em fevereiro de 2023, e foi exonerado em fevereiro de 2025. Durante todo esse período, acompanhou Weverton na Casa, transitando entre funções no gabinete e em secretarias do Senado.

A longa permanência de Nobriga no entorno do senador coloca o caso no centro de uma questão mais ampla: a presença de ex-assessores de Weverton em investigações sobre esquemas financeiros e desvios de recursos.

Weverton sob investigação: o contexto da Operação Sem Desconto

O senador Weverton Rocha figura como investigado no Supremo Tribunal Federal no âmbito da Operação Sem Desconto, que apura um esquema bilionário de descontos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS. Relatórios da Polícia Federal descrevem o parlamentar como “liderança e sustentáculo das atividades empresariais e financeiras” de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como principal articulador do esquema.

Segundo as investigações, Weverton teria atuado como “beneficiário final” e “sócio oculto” de operações financeiras, recebendo recursos por meio de pessoas interpostas, entre elas assessores parlamentares. Pelo menos quatro pessoas com passagem pelo gabinete do senador aparecem na investigação, incluindo Adroaldo da Cunha Portal, que chegou a ser secretário-executivo do Ministério da Previdência, e Gustavo Marques Gaspar, descrito pela PF como “braço direito” do senador e preso preventivamente em dezembro de 2025.

A PGR, no entanto, avaliou que, embora haja indícios contra assessores, não há comprovação de que Weverton tenha recebido valores diretamente ou comandado ações ilícitas. O senador nega qualquer irregularidade e afirma que não há provas que o vinculem a desvios.

CPMI do INSS e pedido de indiciamento

Em março de 2026, o relatório final da CPMI do INSS, lido pelo relator Alfredo Gaspar (União-AL), recomendou o indiciamento de Weverton por organização criminosa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e advocacia administrativa. O documento sustenta que o senador utilizou sua influência política para nomear aliados em postos-chave, visando proteger Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) de entidades fraudulentas, e que atuou como beneficiário final de operações financeiras ocultas, usando assessores como “dutos de capital”.

No mesmo relatório, consta que Gustavo Marques Gaspar, ex-assessor de Weverton, recebeu R$ 100 mil da organização criminosa. A PF também identificou que Gaspar teria solicitado a abertura e gestão de uma empresa em seu nome para uso no esquema, com orientações do “Careca do INSS” para receber “encomendas” ou “impressões” — termos que, segundo os investigadores, significavam dinheiro em espécie.

Próximos passos da investigação

Com a apreensão de equipamentos e documentos na operação contra Julio Nobriga, a Polícia Civil do DF deve agora cruzar dados bancários, mensagens e registros para entender a cadeia de movimentação do dinheiro apreendido em maio e eventual conexão com outras investigações em curso, inclusive aquelas que correm no STF e na CPMI do INSS.

A defesa de Nobriga ainda não se manifestou publicamente sobre as acusações. O caso reforça o clima de pressão sobre o entorno político de Weverton em um ano eleitoral, enquanto o senador segue como investigado, mas sem medidas restritivas impostas pela Justiça.