Por Victório Dell Pyrro
O Supremo Tribunal Federal (STF) vive, em setembro de 2026, sua mais grave crise institucional em décadas, com ministros trocando acusações públicas, decisões conflitantes sobre o comando da Polícia Federal (PF) e um julgamento marcado para a próxima terça-feira, 15 de setembro, que pode definir se o ministro Alexandre de Moraes será ou não investigado por sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
A sessão extraordinária, convocada pelo presidente da Corte, Edson Fachin, reúne anos de apurações sobre uma fraude bilionária no sistema financeiro, mas também expõe um conflito aberto entre alas do tribunal e coloca à prova a liderança de Fachin.
O estouro do caso Master e as primeiras investigações
O caso do Banco Master estourou em novembro de 2025, quando o Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial da instituição e a Polícia Federal prendeu o banqueiro Daniel Vorcaro e outros executivos, acusados de fraudes bilionárias na venda de carteiras de crédito sem lastro e na emissão de títulos que o banco não tinha como honrar. A operação, batizada de Compliance Zero, revelou uma rede de influência que alcançava servidores públicos, políticos e dirigentes de instituições financeiras, com indícios de pagamentos, presentes e benefícios em troca de informações e ações em favor dos interesses do banco.
Originalmente, o ministro Dias Toffoli era o responsável no STF por supervisionar os trabalhos dos investigadores. Em fevereiro de 2026, o caso passou para André Mendonça após suspeitas sobre o envolvimento de Toffoli O ministro era dono do resort Tayayá que recebeu investimentos de R$ 35 milhões por um fundo chamado Maridit. O caso foi abafado pelo STF, que em reuniões fechadas fez um acordo até hoje nebuloso. Toffoli continua impune no caso e segue como ministro do STF.
Ao longo de dez meses, a PF deflagrou dez fases da operação, ampliando o escopo das investigações e revelando conexões entre Vorcaro e autoridades dos três poderes. Mas não apresentou nada sobre Alexandre de Moraes. Só que a imprensa descobriu mais que a força investigativa da PF.
As primeiras revelações sobre Moraes e o Banco Central
Em dezembro de 2025, a jornalista Malu Gaspar, do jornal “O Globo”, publicou que Alexandre de Moraes teria procurado o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ao menos quatro vezes — três por telefone e uma presencialmente — para fazer pressão em favor do Banco Master. Segundo a coluna, em uma das conversas, em julho de 2025, Moraes teria pedido que Galípolo fosse ao seu gabinete para tratar dos problemas do banco de Daniel Vorcaro e questionado o andamento da operação de venda do Master ao Banco de Brasília (BRB).
Galípolo, então, teria informado a Moraes que os técnicos do BC haviam descoberto fraudes no repasse de R$ 12,2 bilhões em créditos do Master para o BRB. Diante disso, o ministro teria reconhecido que, se a fraude ficasse comprovada, o negócio não teria como ser aprovado. A mesma reportagem destacou que o escritório da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes, tinha um contrato de prestação de serviços com o Master que previa o pagamento de R$ 3,6 milhões mensais durante três anos a partir de janeiro de 2024, totalizando cerca de R$ 130 milhões.
Em 24 de dezembro de 2025, a colunista Mônica Bergamo, da “Folha de S.Paulo”, publicou que banqueiros e autoridades de Brasília relataram ter recebido informações de que Alexandre de Moraes também teria procurado a Polícia Federal para saber do andamento das investigações envolvendo a compra do Banco Master pelo BRB. Segundo a coluna, o objetivo do ministro seria acompanhar o desenrolar das apurações sobre a instituição financeira defendida pelo escritório da esposa em Brasília.
Em nota divulgada em 23 de dezembro de 2025, Alexandre de Moraes negou ter conversado com Galípolo sobre a compra do Banco Master pelo BRB e afirmou que o escritório de sua esposa “jamais atuou na operação” junto ao Banco Central. O ministro disse que realizou, em seu gabinete, duas reuniões com o presidente do BC para tratar dos efeitos da aplicação da Lei Magnitsky e que “em nenhuma das reuniões foi tratado qualquer assunto ou realizada qualquer pressão referente à aquisição do BRB pelo Banco Master”.
A quebra de sigilo e o relatório da PF sobre Moraes
Em 1º de setembro de 2026, André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da PF que revelou detalhes sobre a relação de Moraes com Vorcaro. Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro preso sugerem que Moraes discutia com Vorcaro a possibilidade de a PF deflagrar uma operação contra o banqueiro, o que de fato ocorreu. Em 15 de novembro de 2025, o então dono do Master perguntou ao ministro: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Dois dias depois, o banqueiro foi preso no aeroporto quando tentava sair do Brasil.
O relatório indicou também que Moraes revisou e editou o contrato de R$ 131 milhões assinado por sua mulher, Viviane Barci de Moraes, pela prestação de serviços ao Master. Outro contrato, de R$ 50 milhões, previa pagamento em dinheiro ou por meio da entrega de bens. Uma proposta localizada pelos investigadores estabelecia que R$ 40 milhões seriam quitados com cotas de um jatinho e de um helicóptero.
Documentos que tiveram o sigilo retirado em 1º de setembro de 2026 apontam que Moraes e Vorcaro mantiveram contato frequente e teriam se encontrado pessoalmente mais de uma vez entre março de 2024 e agosto de 2025. As mensagens demonstram proximidade e gratidão de Vorcaro em relação a Moraes. Em novembro de 2025, o banqueiro afirmou ter uma “dívida de vida” com o ministro e agradeceu por “tudo”.
A reação de Moraes e o pedido de investigação contra Mendonça
Em 3 de setembro de 2026, Alexandre de Moraes enviou uma petição de 20 páginas ao presidente Edson Fachin pedindo a abertura de investigação contra André Mendonça. O ministro do STF lançou mão de relatórios de inteligência da PF, sem caráter probatório, para acusar Mendonça de abuso de autoridade na relatoria do Master. Moraes pediu à Presidência do STF que Mendonça fosse investigado e questionou a legalidade da quebra de sigilo das investigações.
A reação de Mendonça veio em 8 de setembro de 2026, com uma ordem para a destituição do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. O relator sustentava na decisão que a PF estava monitorando ministros do STF e que havia “grave lesão à ordem pública”. No mesmo dia, o ministro Flávio Dino, em decisão conflitante, determinou a reintegração de Andrei Rodrigues e Leandro Almada aos cargos.
A intervenção de Fachin e a convocação do plenário
Diante do impasse, o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu em 9 de setembro de 2026 as decisões de Mendonça e Dino sobre a gestão da Polícia Federal. Fachin apontou conflito entre determinações sobre autoridades policiais e afirmou que medidas devem passar pela Presidência da República. Ele também retirou Moraes da relatoria do inquérito das Fake News e assumiu a condução do procedimento.
No mesmo dia, Fachin convocou uma sessão extraordinária do plenário para a próxima terça-feira, 15 de setembro, às 10h, para analisar o processo que reúne o relatório da PF com menções ao ministro Alexandre de Moraes, cujo sigilo foi retirado por decisão de André Mendonça. Na sessão, os ministros vão discutir a validade do documento da PF feito a pedido de Mendonça, o pedido de nulidade da Procuradoria-Geral da República (PGR) e devem definir se será aberta ou arquivada investigação contra Moraes.
Os argumentos e as manobras processuais
Em ofício ao presidente do STF, o ministro Gilmar Mendes considerou que o processo pautado para a próxima terça-feira (15), sobre o relatório da PF envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, ainda não está em condições de ser julgado pelos ministros. Mendes sugeriu, caso a sessão de terça seja mantida, que o julgamento se inicie com questões preliminares, como a nulidade apresentada pela PGR.
A PGR pediu a nulidade do relatório da PF por entender que o documento foi produzido de forma irregular, sem autorização judicial adequada e com possível vazamento seletivo de informações. A procuradoria argumenta que o relatório não tem valor probatório e que sua divulgação pública configurou “grave lesão à ordem pública e à integridade” da Corte.
André Mendonça, por sua vez, defende que o relatório da PF é legítimo e que a quebra de sigilo foi necessária para que o plenário do STF pudesse deliberar sobre a conduta de Moraes. O ministro sustenta que há indícios suficientes para a abertura de uma investigação formal contra o colega e que a transparência é essencial para preservar a credibilidade da Corte.
O que está em jogo no julgamento de 15 de setembro
O julgamento marcado para o dia 15 tratará da petição 16.662, procedimento no qual André Mendonça tornou públicas conversas suspeitas entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro e pediu deliberação do plenário sobre o caso, com potencial para possível abertura de investigação contra Moraes. Os ministros também vão analisar a ordem de Mendonça que originou o relatório da PF, o pedido de nulidade da PGR e o destino das informações sobre Moraes.
Se o plenário decidir pela abertura de investigação, Moraes poderá ser alvo de um procedimento formal no STF, com possibilidade de afastamento temporário das funções. Caso o relatório seja considerado nulo, as investigações sobre a relação do ministro com Vorcaro podem ser arquivadas, mas o conflito institucional entre os ministros tende a permanecer.
O julgamento põe à prova a liderança de Edson Fachin e abre um impasse sobre o afastamento de Moraes. A decisão dos ministros deve determinar se será ou não aberta uma investigação contra Moraes e pode definir os rumos da crise no STF nos próximos meses.




