Vorcaro contratou cunhado de Gilmar, que marcou reunião de golpista com ministro dentro de gabinete no STF

Chiquinho Feitosa mantinha contrato com empresa ligada ao Banco Master e recomendou aproximação entre o banqueiro e Gilmar Mendes

Mensagens apreendidas pela Polícia Federal na investigação sobre o Banco Master mostram que Daniel Vorcaro contratou o empresário e ex-senador Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, conhecido como Chiquinho Feitosa, para prestar serviços de consultoria a uma empresa ligada ao grupo financeiro.

Na época dos contatos, Feitosa era cunhado do ministro Gilmar Mendes. Ele foi casado com Guiomar Feitosa, irmã do empresário. O divórcio ocorreu em novembro de 2025, cerca de um ano e meio depois das conversas em que Chiquinho aconselhou Vorcaro a se aproximar do ministro do Supremo Tribunal Federal.

Segundo as mensagens, Feitosa chamou Vorcaro de “irmão” e afirmou que uma relação direta com Gilmar Mendes seria “importante para o futuro”. O empresário também participou das tratativas que levaram a uma reunião entre Vorcaro, advogados do Banco Master e o ministro, realizada em abril de 2024 no gabinete de Gilmar, no STF.

Contrato de R$ 500 mil por mês

De acordo com as informações divulgadas, Chiquinho Feitosa recebia R$ 500 mil mensais de uma empresa ligada a Vorcaro. O empresário confirmou ter prestado consultoria à Super Empreendimentos, companhia do grupo do banqueiro, mas afirmou que o contrato teve curta duração.

Feitosa não informou o período exato do vínculo, o valor total recebido nem o escopo detalhado do trabalho. Também negou que tivesse sido contratado para aproximar Vorcaro de Gilmar Mendes.

A defesa apresentada por Feitosa sustenta que a Super Empreendimentos era, naquele momento, uma empresa idônea, com atuação em diferentes setores e interesse no mercado. Ele afirmou que não mantinha contrato diretamente com o Banco Master.

“É importante para o futuro”

Em uma mensagem enviada a Vorcaro em 19 de abril de 2024, Chiquinho Feitosa recomendou que o banqueiro estabelecesse uma relação direta com Gilmar Mendes.

“Você tem que começar uma relação direta com ele! É importante para o futuro! Ele é um grande sujeito com grande caráter e um grande amigo.”

A mensagem foi enviada depois de uma audiência entre Vorcaro e Gilmar. Segundo as reportagens, o banqueiro buscava tratar de um processo envolvendo precatórios do setor sucroalcooleiro, negócio que poderia ter impacto bilionário sobre os interesses do Banco Master.

Feitosa afirmou que a sugestão foi feita “de forma despretensiosa, sem nenhuma outra intenção”. Também disse que a maneira de se referir a Vorcaro como “irmão” era um hábito utilizado com diversas pessoas de seu círculo de relacionamento.

Reunião no gabinete de Gilmar

A audiência entre Vorcaro e Gilmar ocorreu em 11 de abril de 2024, às 18h, no gabinete do ministro, na sede do Supremo. Participaram também advogados que representavam o Banco Master, entre eles o ex-advogado-geral da União Bruno Bianco.

As mensagens mostram Vorcaro tratando com a secretaria do gabinete para organizar o encontro. O banqueiro chegou a sugerir uma divisão do horário: primeiro teria uma conversa individual com o ministro e, depois, os advogados entrariam na sala.

Em uma das mensagens, Vorcaro escreveu que gostaria de ir sozinho das 18h às 18h30 e que, entre 18h30 e 19h, duas pessoas entrariam para participar da reunião. A secretaria respondeu que havia conseguido um encaixe, mas avisou que o ministro não teria todo aquele tempo.

“Terei quantos minutos?”, perguntou Vorcaro.

A resposta foi:

“Uns 15.”

A reunião acabou sendo realizada em ambiente institucional, no STF. Gilmar confirmou que recebeu Vorcaro e os advogados, mas disse que não tinha conhecimento de qualquer tratativa privada entre o banqueiro e seu então cunhado.

O processo dos precatórios

O encontro tratou do processo relacionado à Destilaria Alcídia S.A., uma empresa do setor sucroalcooleiro que cobrava indenização da União por prejuízos atribuídos à política de controle de preços adotada pelo governo nas décadas de 1980 e 1990.

A disputa envolvia precatórios e valores que poderiam alcançar entre R$ 350 milhões e R$ 500 milhões no caso específico. Em uma perspectiva mais ampla, a Advocacia-Geral da União estimou que decisões favoráveis às usinas poderiam produzir impacto de até R$ 145 bilhões para os cofres públicos.

Vorcaro tinha interesse no julgamento porque o Banco Master havia adquirido créditos e precatórios relacionados a empresas do setor. Uma decisão favorável às usinas poderia valorizar esses ativos.

O caso da Destilaria Alcídia estava sob relatoria do ministro Edson Fachin, mas era analisado pela Segunda Turma do STF, da qual Gilmar Mendes fazia parte. O processo havia sido retirado do plenário virtual após pedido de destaque de Gilmar.

Segundo a defesa do ministro, o julgamento não produziu o resultado desejado por Vorcaro. Gilmar votou contra a tese da destilaria e contra o pagamento do precatório, acompanhado por André Mendonça. A maioria, formada por Fachin, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques, votou em sentido favorável à empresa.

O julgamento terminou com a derrota da União. O processo transitou em julgado em outubro de 2025, segundo as informações divulgadas.

O que Gilmar Mendes diz

Em nota, Gilmar Mendes afirmou que Chiquinho Feitosa é seu ex-cunhado e que não responde por relações privadas ou profissionais mantidas pelo empresário.

“Chiquinho Feitosa é ex-cunhado do ministro. O ministro não teve conhecimento de qualquer tratativa entre ele e Daniel Vorcaro, não foi por ele procurado sobre os assuntos mencionados e não responde por relações privadas ou profissionais de ex-parente.”

O ministro confirmou a audiência com Vorcaro, mas afirmou que o encontro foi institucional e ocorreu com a presença de advogados do Banco Master.

“A audiência ocorreu em 11 de abril de 2024, às 18h, no gabinete do ministro, no Supremo Tribunal Federal, e contou com a presença dos advogados do Banco Master.”

Segundo Gilmar, o recebimento de advogados em audiência é uma prerrogativa profissional prevista no Estatuto da Advocacia. Ele afirmou que a reunião tratou exclusivamente de uma causa do setor sucroalcooleiro, identificada pelo processo ARE 1.327.995, relacionado à Destilaria Alcídia.

O ministro também destacou que votou contra os interesses do Banco Master e da destilaria:

“Nesse processo, julgado pela Segunda Turma em 3 de junho de 2025, o ministro Gilmar Mendes votou contra os interesses do Banco Master. O voto foi contra o pagamento do precatório, no sentido defendido pela União.”

A assessoria acrescentou que Gilmar foi vencido, acompanhado por André Mendonça, e que a tese favorável à empresa prevaleceu com os votos de Fachin, Nunes Marques e Toffoli.

“Votei contra os interesses de Vorcaro”

Gilmar afirmou que manteve a mesma posição em outros processos envolvendo precatórios de empresas do setor sucroalcooleiro.

A nota cita quatro casos:

  • No processo envolvendo a Raízen, Gilmar teria votado contra o pagamento do precatório, e a União venceu.
  • No caso da Jalles Machado, o ministro votou duas vezes contra o pagamento à usina e ficou vencido.
  • Em outro processo da Raízen, pediu destaque e interrompeu o julgamento que caminhava em favor da empresa.
  • Em uma suspensão de tutela provisória, votou contra a liberação de um precatório superior a R$ 5 bilhões.

“Em nenhum desses processos o ministro votou em sentido favorável aos interesses apontados pela reportagem — inclusive após a audiência mencionada.”

A estratégia de Gilmar é sustentar que a audiência não resultou em favorecimento judicial. O ministro reconhece o encontro, mas afirma que seu comportamento nos processos foi contrário aos interesses econômicos atribuídos a Vorcaro.

O que diz Chiquinho Feitosa

Chiquinho Feitosa negou ter sido uma ponte entre Vorcaro e Gilmar Mendes.

“Nunca fui ponte entre o Vorcaro e o ministro Gilmar. Ele era um banqueiro bem-sucedido e que mantinha relacionamentos com várias pessoas.”

O empresário também negou que tivesse sido contratado para promover ou intermediar a aproximação entre o banqueiro e o ministro.

“Quando me reportei a ele sugerindo que se aproximasse do ministro, fiz isso de forma despretensiosa, sem nenhuma outra intenção.”

Sobre o contrato, Feitosa declarou:

“Tive um contrato de consultoria com a Super Empreendimentos durante um curto período. À época, uma empresa idônea que atuava em diversos segmentos e despertava interesse no mercado.”

Ele também negou uma informação relacionada a um suposto jantar com Vorcaro:

“Afirmo com certeza que nunca me referi ao Daniel sobre esse jantar, que nunca existiu.”

Encontro com Guiomar Feitosa

As mensagens também mostram que Chiquinho marcou uma reunião entre Daniel Vorcaro e sua irmã, Guiomar Feitosa, então esposa de Gilmar Mendes.

Em 4 de setembro de 2024, o empresário escreveu:

“Posso marcar nossa reunião com a Guiomar às 15h ou 16h? O que você acha?”

Mais tarde, Vorcaro confirmou o endereço do encontro e Chiquinho respondeu com um emoji de aprovação.

Guiomar confirmou que recebeu Vorcaro em seu escritório de advocacia, acompanhada do irmão. Segundo ela, o banqueiro demonstrou interesse em contratá-la para atuar em processos relacionados a seus negócios.

A advogada afirmou que pediu informações sobre as causas e deixou claro que não prometia resultado. Vorcaro teria dito que enviaria os dados, mas não voltou a procurá-la.

“Eu pedi que mandasse as causas que iria avaliar, mas ressaltei que não prometia resultado. Ele disse que ia mandar, mas não mandou e não voltou mais.”

O encontro ocorreu quando Guiomar ainda era casada com Gilmar. Não houve contratação, segundo a advogada.

Outros interesses de Vorcaro

As mensagens indicam que Vorcaro buscava acesso a diferentes autoridades e integrantes do sistema de Justiça. Além de Gilmar Mendes, Chiquinho Feitosa e o advogado Ciro Rocha Soares aparecem em tratativas sobre a aproximação do banqueiro com outros ministros e autoridades.

Em uma conversa de março de 2024, Vorcaro demonstrou preocupação com o pedido de destaque feito por Gilmar no processo dos precatórios. Ele escreveu que precisava de ajuda porque o ministro estaria “contra” ele em um caso que poderia prejudicar seus precatórios.

O advogado Ciro Rocha Soares respondeu que tentaria conversar com Gilmar. Posteriormente, perguntou quem estava contra Vorcaro. O banqueiro citou Jorge Messias, advogado-geral da União, e André Esteves, presidente do BTG Pactual e concorrente de Vorcaro no mercado de precatórios.

Os diálogos mostram a preocupação do ex-banqueiro com o andamento do processo e sua tentativa de mapear adversários e aliados na disputa.

Contexto político e empresarial

Chiquinho Feitosa é empresário do setor de transportes, ex-deputado federal, ex-senador e presidente do Republicanos no Ceará. Ele assumiu uma cadeira no Senado em 2021, como suplente de Tasso Jereissati.

Durante o período em que exerceu o mandato, apresentou projetos que também despertaram interesse de grupos econômicos ligados ao mercado de créditos judiciais. Um deles tratava do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa.

A relação de Feitosa com Vorcaro agora é analisada pela PF no contexto mais amplo da investigação do Banco Master, que busca identificar como o banqueiro se relacionava com políticos, ministros, advogados e agentes públicos.

A contratação de um parente por afinidade de um ministro do STF, somada à atuação desse empresário para aproximar o banqueiro do magistrado, não prova, por si só, irregularidade. Mas cria uma situação de potencial conflito de interesses e exige esclarecimentos sobre o contrato, os valores pagos e a finalidade dos contatos.

O que está comprovado e o que permanece sob investigação

Até o momento, os dados divulgados indicam que:

  • Vorcaro contratou Chiquinho Feitosa por meio de uma empresa ligada ao seu grupo.
  • O contrato teria valor de R$ 500 mil mensais, segundo reportagens, embora Feitosa não tenha confirmado o montante.
  • Feitosa era cunhado de Gilmar Mendes quando ocorreram as conversas.
  • O empresário chamou Vorcaro de “irmão” e recomendou que ele criasse uma relação direta com Gilmar.
  • Vorcaro se reuniu com Gilmar no gabinete do ministro em 11 de abril de 2024.
  • Advogados do Banco Master participaram da audiência.
  • O encontro tratou de processo envolvendo precatórios do setor sucroalcooleiro.
  • Gilmar afirma que não sabia das tratativas privadas entre Vorcaro e seu ex-cunhado.
  • O ministro diz que votou contra os interesses do Banco Master e da Destilaria Alcídia.
  • Chiquinho nega ter atuado como intermediário entre Vorcaro e Gilmar.
  • Guiomar Feitosa recebeu Vorcaro em seu escritório, mas afirma que não houve contratação.

O ponto central da investigação será esclarecer se a contratação de Chiquinho Feitosa tinha relação com sua capacidade de acesso a Gilmar Mendes e a outras autoridades. Também será necessário verificar se houve orientação, pressão ou promessa de favorecimento em processos judiciais.