Operação cumpre buscas em sete estados e no Distrito Federal para investigar suposta lavagem de dinheiro no setor de combustíveis
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, e a Receita Federal deflagraram nesta quinta-feira (24) a terceira fase da Operação Carbono Oculto. Batizada de Operação Crédito Oculto, a ação investiga uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro ligada ao setor de combustíveis e ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
Os mandados de busca e apreensão são cumpridos em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Espírito Santo e no Distrito Federal. Segundo informações divulgadas pelas autoridades e reportadas por veículos que acompanham a investigação, são 32 endereços em 11 cidades e 40 alvos relacionados ao caso.
Entre os alvos estão o executivo e sócio do Banco Genial Humberto Arthur Tupinambá Neto, seus irmãos André e Bruno Tupinambá, e o empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”. Freixo é dono da Entre Investimentos e já havia sido citado em investigações relacionadas ao Banco Master.
Investigação apura compra da distribuidora Terrana
A nova etapa se baseia em documentos, contratos, mensagens e áudios apreendidos durante a primeira fase da Carbono Oculto. O material teria permitido aos investigadores aprofundar a apuração sobre a compra da distribuidora de combustíveis Terrana, nome fantasia da Tobrás Distribuidora de Combustíveis.

De acordo com as informações divulgadas sobre a investigação, os empresários Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, seriam os verdadeiros interessados na aquisição da empresa. A operação teria sido estruturada para ocultar a identidade dos compradores e a origem dos recursos.
A Terrana chegou a figurar entre as maiores distribuidoras de combustíveis do país. Conforme a investigação, a aquisição poderia ter custado até R$ 153 milhões. Na época da compra, em 2024, a empresa teria faturamento mensal de aproximadamente R$ 445 milhões e capital social de R$ 245 milhões.
Os investigadores sustentam que a operação envolveu fundos de investimento, empresas de fachada e contratos de crédito. O objetivo seria dificultar a identificação dos beneficiários finais e dissimular a origem do dinheiro usado na compra da distribuidora.
Papel atribuído ao Banco Genial
Segundo a apuração do Gaeco mencionada na decisão judicial, o Banco Genial teria sido utilizado como parte da estrutura financeira criada para ocultar os recursos e os reais proprietários do negócio. O banco teria administrado ou participado de operações envolvendo fundos de investimento e contratos de crédito vinculados à aquisição da Terrana.
Um dos fundos citados é o Radford Fundo de Investimento Multimercado, que teria sido administrado e custodiado pelo Banco Genial, enquanto a Altinvest atuava como cogestora. Conforme os dados divulgados na investigação, o fundo tinha cerca de R$ 169,7 milhões em cotas no momento da deflagração da primeira fase da Carbono Oculto.
Ainda de acordo com a apuração, recursos da usina sucroalcooleira Itajobi teriam sido transferidos por meio de empresas e fundos até chegar à estrutura de financiamento da compra da Terrana. A usina teria recebido R$ 100 milhões do Grupo Aster, ligado aos empresários investigados, e outros R$ 20 milhões da Entre Investimentos, empresa de Antônio Carlos Freixo Júnior.
A acusação é que o banco não teria atuado apenas como instituição financeira, mas também teria ajudado a viabilizar uma arquitetura societária destinada a esconder os verdadeiros donos do dinheiro e da distribuidora. Essa é uma hipótese investigativa e deverá ser analisada no curso do inquérito e do processo judicial.
“Mineiro” e as transferências para o grupo de “Dark Horse”
Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, assinou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República no âmbito das investigações sobre o Banco Master. A delação foi homologada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, em setembro.
Segundo o depoimento divulgado pelo Jornal Nacional, Freixo afirmou ter movimentado mais de R$ 1,3 bilhão para Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, entre 2020 e 2025. O empresário também teria relatado a entrega de dinheiro em espécie para pessoas ligadas ao banqueiro. As declarações ainda são objeto de investigação.
Freixo contou à PGR que a Entre Investimentos fez sete transferências para o Havengate Development Fund, sediado nos Estados Unidos, entre janeiro e setembro de 2025. Os repasses somaram mais de US$ 12 milhões, valor equivalente a cerca de R$ 63 milhões na cotação da época.
A Polícia Federal apura se os recursos foram usados para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. O fundo é administrado por Paulo Calixto, advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro. A investigação também verifica se parte do dinheiro teria sido destinada a pessoas ligadas ao ex-parlamentar.
O empresário afirmou que os pagamentos foram feitos a mando de Daniel Vorcaro. A apuração, no entanto, ainda precisa esclarecer a destinação integral dos recursos e eventual responsabilidade criminal dos envolvidos.
Relação entre os casos
A presença de Freixo entre os alvos da Carbono Oculto aproxima duas investigações distintas: a apuração sobre a suposta infiltração do crime organizado no setor de combustíveis e o caso envolvendo suspeitas de fraudes no Banco Master.
A primeira fase da Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, investigou um esquema de sonegação fiscal, fraude e lavagem de dinheiro no mercado de combustíveis. A Receita Federal informou que a operação foi realizada em conjunto com órgãos parceiros para combater uma organização suspeita de utilizar empresas, fundos e estruturas financeiras para ocultar patrimônio e recursos.
Já a investigação relacionada ao Banco Master apura possíveis fraudes no sistema financeiro e o uso de empresas ligadas a Daniel Vorcaro para movimentação de recursos. Freixo foi alvo da Operação Compliance Zero antes de fechar o acordo de colaboração com a PGR.
A conexão entre os casos será examinada pelos investigadores a partir dos documentos, mensagens e transferências financeiras identificados nas diferentes apurações.




